Memórias do Pe. Occhio: chegada dos xaverianos em Abaetetuba

Dia 1º de março de 1961, os padres xaverianos Mário Lanciotti, Tarcísio Facchinello, Augusto Cardin e Leão Occhio chegam no Pará para começar a nova missão na região de Abaeté do Tocantins, até então pertencente à Arquidiocese de Belém. Pe. Occhio, falecido em Londrina – PR em 13 de setembro de 2018, narra suas memórias.
Quem nos instalou na Prelazia de Abaeté foi o arcebispo de Belém, dom Adalberto Gaudêncio Ramos, em março de 1961. No dia da tomada de posse, meio brincando nos disse: "Agora a Prelazia está na mão de vocês, se alguém daqui for para o inferno, culpados serão vocês!" E nos deu também conselhos práticos: "Sei que os missionários chegam com muito fervor. Adaptem-se ao povo, mas não queiram ser totalmente paraenses! Aqui o clima, a alimentação, os costumes, são diferentes, e vocês europeus podem se estragar logo a saúde, que devem preservar para servir este povo!" O povo de fato, nos acolheu em festa. Mas logo a noite, em casa não havia nem cama, nem mesa, nem cadeira! Compramos quatro redes para deitar. Passamos a primeira noite, enrolados numa rede e no meio do zumbido atordoante de pernilongos!
Fiquei cinco anos, três em Abaetetuba (PA) e dois em Tome-Açú (PA). Naquele tempo, na Amazônia, ainda não existia nem motosserra nem trator, não havia grandes projetos do governo ou de empresas, tudo era manual, e mesmo assim, já preocupava o desmate da Amazônia. O mato era tudo vasculhado, longas jangadas de toras desciam do Tocantins e de Abaeté ilegalmente exportadas. Não havia estradas, menos ainda asfalto. Eletricidade era produzida por gerador local, só existia nos centros maiores e por algumas horas a noite. Em Abaetetuba a energia era das 18 às 21 horas, e só para iluminação. Proibido ligar qualquer aparelho, como geladeira, TV, etc. Se o povo abusasse, aí o gerador não aguentava.
A preocupação imediata foi como continuar a assistência religiosa que vinha sendo dada nas paróquias e comunidades. Éramos em quatro padres xaverianos que morávamos juntos em Abaetetuba, atendendo as seis paróquias da Prelazia: Abaetetuba, Barcarena, Mojú, Bujarú, Acará e Tomé-Açú. Nossa pastoral era simples assistência religiosa, através da “desobriga”. Isto é, visita anual em cada comunidade, na ocasião da festa dos padroeiros! A “desobriga” era feita ao longo de canais e igarapés, indo de uma comunidade para a outra, e demorava semanas e até meses.
A chegada do padre era anunciada com foguetes. Aí o padre celebrava, batizava, confessava, fazia primeiras comunhões, casamentos, dava algumas orientações... e depois, com a cabeça atordoada pelos alto-falantes que não deixavam dormir durante a noite (dormíamos na rede, naquelas palafitas de sapé), o padre partia para outra comunidade. E daí tchau! Até ao próximo ano! O Pe. Mário ficou em Abaeté, enquanto os outros faziam desobrigas nas outras paróquias. Para ir de Abaetetuba a qualquer outra paróquia da Prelazia, era preciso viajar de barco ao menos duas noites, uma noite para ir até Belém e outra para descer de Belém no outro rio, rumo a paróquia.
O Padre quando chegava, era “o dono” da festa, das celebrações, de tudo. Numa visita falei: "Hoje são vocês que vão rezar, não o padre! Ficaram alvoroçados e se esquivaram, não queriam fazer". Aí percebi que a coisa não era tão simples. Pois tiveram que juntar a rezadora, as cantadoras, o batuque, o coral... afinal, “a ladainha” saiu. Aí entendi que, mesmo isolados no mato, sem assistência religiosa, conservam a fé!
Outra preocupação foi a construção da casa para a chegada do bispo prelado, (Casa atual das Irmãs Xaverianas em Abaeté), pois era prevista a nomeação e a vinda de um bispo xaveriano e também era necessário preparar nas paróquias moradia para residência do Padre. O bispo dom Giovanni Gazza, quando chegou, incentivou o trabalho, trouxe recursos, favoreceu a convivência, foi coordenando encontros, alimentava a espiritualidade, intervindo só por emergências. Devagar ia organizando a Prelazia.
Depois de três anos em Abaeté, fui para Tomé-Acú, cuidando também do Acará. Em Tomé-Açú metade do povo era de japoneses. Eu fiquei impressionado com eles. A organização da cooperativa, o cuidado com a casa, o amor pela cultura, a disciplina na educação, o respeito e a colaboração, a delicadeza nas relações pessoais, sua religiosidade.
Tentei entender esta nova realidade, aprendi algumas saudações em japonês, o sinal da cruz, algumas palavras. Os japoneses católicos que se confessavam, usavam um exame de consciência escrito em português e japonês, mostravam com o dedo os pecados, escritos em “romají”, eu os lia em português, e aí dava penitência e absolvição!
Deixei o Pará em 1966, voltei para o Sul do Brasil a pedido do Superior, “gostei do açaí, mas não me deixaram ficar”! Me emociono quando penso que batizei e preparei para a eucaristia irmãs xaverianas daí que já andaram mundo afora!
Pe. Leone Occhio, sx. (Janeiro de 2011)

Foto da família Occhio. Leão é o pequeno sentado à esquerda junto ao irmão gêmeo








