Mês da Bíblia: uma proposta para a leitura do livro de Daniel

Este ano estamos estudando durante o mês da Biblia o livro de Daniel, com o lema: “Seu reino jamais será destruído” (Dn 7,14). O tema central é a figura e a mensagem do profeta Daniel, que é considerado um texto apocalítico, trazendo como eixo central a esperança, resistência e fidelidade a Deus em tempos de crise e perseguição.
As narrativas do livro de Daniel são intrigantes, construídas com visões, sonhos e revelações. Há histórias de coragem, de milagres extraordinários, de intrigas políticas e de visões proféticas que apontam para o fim dos tempos, elementos próprios da literatura apocalíptica. O relato nos situa no tempo do exílio babilônico e no período persa, porém o texto foi escrito na época dos governantes gregos, em especial no tempo de Antíoco IV (175-164 a.C.), em um contexto de extrema perseguição econômica, política e religiosa.
A seguir são apresentados os comentários de alguns textos para o estudo, contato e reflexão sobre o livro de Daniel.
Resistência contra a centralização imperialista Dn 4,1-18 – O livro de Daniel, escrito no tempo da resistência e da luta do povo de Deus contra o imperialismo grego (dos selêucidas), apresenta, por meio de visões, historietas e sonhos, uma condena-ção e crítica contra o espírito imperialista. Os impe-radores gregos pretendem expandir-se mais e mais, centralizando riqueza, poder e fama, de modo a invadir e engolir as nações, explorando e oprimindo os povos, até mesmo perseguindo suas religiões. No sonho do rei Nabucodonosor, na verdade símbolo dos imperadores gregos, uma“árvore gigantesca bem no centro da terra” simboliza o imperador com a sua centralização imperialista de riqueza, de poder e de religião. Porém, a árvore é destruída pelo “Santo Vigilante”, um anjo a serviço de Deus, para confirmar que o Deus vivo é o único Senhor absoluto da história e da vida. Ironicamente, Nabucodonosor, personificação de uma autoridade poderosa e arrogante, deve reconhecer a soberania do Deus Altíssimo, caminhar na justiça e praticar a misericórdia para com os pobres (Dn 4,23-24.31-34).
Resistência aos ídolos e à idolatria do Império Dn 3,1-23.91-97. O Antigo Testamento denuncia os vários ídolos criados e mantidos pelos poderosos, que se servem deles para manipular e submeter o povo a serviço de seus próprios interesses (Is 44,10-11; Sb 13,10-15,19). Em 167 a.C., o rei Antíoco IV instaura no Templo de Jerusalém uma estátua de Zeus Olímpico (deus grego), obrigando os judeus a lhe oferecerem sacrifício. Quem não adorar a estátua de Zeus será submetido à tortura e à morte (1Mc 1,41-53). Nessa realidade de ameaça, a história da “Adoração da estátua de ouro e os três jovens na fornalha” (Dn 3,1-23.91-97) é contada entre os judeus fiéis a seu Deus vivo e libertador, para estimular a resistência contra as ordens do rei Antíoco IV, representado pelo rei Nabucodonosor da Babilônia, nesta história.
Fidelidade ao Deus vivo, criador e defensor da vida Dn 6, 1-29. Os imperadores gregos são movidos pelo desejo de acumular riquezas e poder, explorando e oprimindo os povos, e até mesmo perseguindo suas religiões. Implantam seus ídolos e sua idolatria para garantir a sua supremacia, obrigando o povo de Israel a adorar a imagem do imperador divinizado, como no caso do rei Antíoco IV Epífanes (deus manifesto), que aparece em suas moedas. Quem não adora o rei divinizado será condenado e morto. Nessa realidade concreta, a história de “Daniel na cova dos leões”, em Dn 6,2-29, é contada para dar uma lição de vida: os judeus devem enfrentar a perseguição e a morte e se manter fiéis à sua fé e à religião, sempre confiando no poder do seu Deus vivo, criador, liberta-dor e defensor da vida.
O Filho de Homem irá instaurar o Reino de Deus Dn 7,9-14 - No Antigo Testamento, há a visão do Reino de Deus, sonhado pelo povo de Israel dominado, perseguido e explorado pelos impérios. O povo da segunda deportação, exilado e sofrido na Babilônia (587 a.C.), sonha com o Reino de Deus, o“reino da paz”(Is 52,7), no qual Deus faz aliança diretamente com o povo que vive a prática da partilha, da justiça e da solidariedade (Is 55,1-5). No tempo do império persa (538-333 a.C.), o povo perseguido e sofrido sonha com “um novo céu e uma nova terra”, no qual as bênçãos de Deus se realizarão na vida concreta do povo: casa, terra, trabalho, comida, descendência, vida longa (Is 65,19-23). E no tempo do domínio grego, no império dos selêucidas, o autor do livro de Daniel também descreve o Reino de Deus, Reino que desmascara e destrói as pretensões dos impérios e instaura uma sociedade justa, fundada na partilha da liberdade e da vida (Dn 4,24.31-34). Em Dn 7,9-14, após o julgamento e a destruição dos impérios (feras) (Dn 7,1-8.15-28), o“Filho de Homem”, que representa o“povo dos santos do Altíssimo”, povo fiel ao projeto humanitário (Dn 7,18.25.27), vem de junto de Deus e recebe o Reino de Deus que não terá fim.
A espera ativa pelo Reino de Deus na história Dn 12, 1-13 - O livro apocalíptico de Daniel descortina, através das visões, o futuro do povo perseguido. Na luta final contra o Império, Miguel inter-vém, o anjo protetor do povo de Deus e o chefe do exército celeste (Dn 10,21), que vai se unir aos fiéis na terra e presidir a libertação final (Dn 12,1). Nela, acontecerá a ressurreição dos mártires piedosos e justos (ressuscitar na vida de Deus) que historicamente já ressuscitaram e vivem na memória do povo (Sl 112,6). Com a certeza da vitória final e do destino dos justos ressuscitados (Dn 12,2-4), o livro de Daniel descreve a última visão com a mensagem ao povo fiel a Deus (Dn 12,5-13): esperar ativamente pela libertação final, resistindo e construindo o Reino de Deus, durante “o tempo, tempos e metade de um tempo” ou “mil, trezentos e trinta e cinco dias”, o que significa a duração simbólica da perseguição.
Fonte: Verbo Divino








