Atuação nos Movimentos Sociais: presença missionária

Ao comemorar os 70 anos da história dos Missionários Xaverianos no Brasil, torna-se importante resgatar memórias vividas de atuação nas CEBs, nas Pastorais Sociais, numa Igreja com perspectiva ecumênica, na Educação Popular e também no engajamento junto aos Movimentos Sociais. Estas atuações marcaram sobretudo a caminhada da Igreja do Brasil a partir dos anos 80 à luz dos Documentos de Medellín, Puebla, Santo Domingos e Aparecida.
O caminho da opção preferencial pelos empobrecidos foi sendo assumida como parte da espiritualidade e identidade missionária de muitos xaverianos. O testemunho dos padres: Alberto Panichella, Jorge Gagliani, Emílio Paloschi e Claudio Marinoni nos Cinco Conjuntos de Londrina está nas raízes de uma inserção nas periferias do Paraná. A presença profética nos arredores de Curitiba, primeiro na Vila Perneta em que o José Pedro, o Décio, o Bortoloci, o Alessandro Zanchi; e posteriormente na Maria Antonieta, quando o Fransolin, o Bruno Boschietti, o Celito, o Rafael Vilaseñor e o Luiz Amadeu dentre outros, deixaram marcas missionárias importantes naquelas realidades missionárias da periferia.
Em Campinas, atualmente Hortolândia, SP, o Arnaldo Devidi, o Estevo, o Gentil, o Geraldo Peron e outros xaverianos que por lá passaram construíram uma forte identificação com as CEBs e os Movimentos Sociais, principalmente com o MST que nasceu dentro da Comunidade do Fátima no Rosolém. Ainda na periferia de Campinas, no Matão, a Comunidade de Teologia coordenada pelo Mario Menin deixou também sinais de uma Igreja comprometida com as causas sociais; assim como a atuação profética na periferia de Piracicaba, SP onde o Vicentão, o Bortoloci e o Rafael Bartoletti dentre outros, deram voz aos mais esquecidos e contribuíram enormemente para a formação de lideranças e da caminhada das CEBs.
Em Minas Gerais, a presença xaveriana na periferia de Belo Horizonte, na Paróquia São Raimundo Nonato em São Benedito também deixou rastros de uma pastoral engajada nas lutas sociais com destaque para o apoio às ocupações urbanas, a dupla dinâmica Décio e Leão foi fundamental para o fortalecimento deste caminho. E nas periferias de São Paulo; no Conjunto José Bonifácio, no Prestes Maia, na Cidade Tiradentes e no Lajeado – Guaianases, a presença xaveriana foi importantíssima, assim como na Vila Arapuá e Favela Heliópolis nos anos em que a Comunidade de Teologia Internacional ali se fez presente.
Este testemunho de missionaridade e trabalho pastoral nas periferias foi muito significativo na caminhada de formação dos jovens estudantes passando pelas comunidades de Filosofia, Noviciado e Teologia que estavam num caminho de inserção nas periferias das grandes cidades. Como muitos estudantes, fui também tocado pela práxis a partir das vivências desta trajetória de compromisso eclesial e social. Assim, descrevo um pequeno depoimento pessoal das práticas vividas em diferentes contextos.
Dentre os Movimentos Sociais em que tive uma maior militância destaco o Movimento da Moradia. A experiência mais significativa que tive foi no período do Noviciado em Santa Luzia em 1987 e 1988, quando pude acompanhar a organização do Movimento Sem Casa. O Décio foi o grande incentivador e deu voz e protagonismo para centenas de famílias vindas dos mais diferentes bairros periféricos da região, para que conquistassem a moradia e a dignidade perdidas. O símbolo das vitórias alcançadas são os Assentamentos da Vila Santa Beatriz e o Conjunto Paulo VI. O processo foi extremamente pedagógico, marcado por organização, mobilização, onde a fé e a luta se misturavam numa perspectiva ecumênica e libertadora.
Quando fiz Teologia no Rosolém e posteriormente no Matão também estive próximo das lutas por moradia acompanhando junto com o Peron a caminhada por casa, terra e pão e a conquista de diferentes assentamentos urbanos em Nova Veneza, Bom Retiro e o Nova Esperança, que hoje são referências de bairros organizados e consistentes comunitariamente.
Na Teologia em São Paulo trabalhamos pastoralmente na Favela Heliópolis, um lugar social de muita aprendizagem em que a organização dos movimentos de moradia continua inspirando e sendo uma referência da garantia de direitos e de cidadania. A Estrada das Lágrimas, que corta a favela continua sendo um símbolo de resistência para os moradores e para as pessoas que aprenderam com a valentia de suas lutas.
Os longos anos vividos em Guaianases, Zona Leste de SP foram muito marcantes, primeiro na dedicação exclusiva na pastoral e de 2001 até 2013 com a Marlene, minha companheira e a filha Ana Dandara, quando em família pudemos oferecer a nossa contribuição nas CEBs, na AVIB, nos Movimentos Sociais e no engajamento político. Destaco por fim, a nossa participação na construção do laicato xaveriano e que hoje está consolidado com muitos grupos de base.


Luiz Carlos Frederick.







