500 anos de Cristianismo nas Filipinas: desafios para os missionários hoje.

Por ocasião do 500º aniversário da chegada da fé católica às costas filipinas, temos a alegria de partilhar um artigo escrito por um missionário filipino, Pe. Adorable Castillo, atual Vigário Geral da Congregatio Immaculati Cordis Mariae- CICM. O artigo foi publicado em Maio de 2021, no Boletim bimestral “CHRONICA” da Congregação. Obrigado por nos permitir postar sua reflexão em nossa página!
O país das Filipinas é a “terceira maior Igreja local do mundo” (depois do Brasil e México) onde 82,9% de uma população total acima de 100 milhões de habitantes, são Católicos Romanos. Sessenta por cento (60%) dos 120 milhões de Católicos na Ásia, são Filipinos. O Catolicismo foi apresentado aos indígenas das mais de 7.000 ilhas por missionários espanhóis que se juntaram à expedição de Fernão de Magalhães, em 1521. A primeira missa celebrada nas Filipinas foi na pequena ilha de Limawasa, tornando-se um marco no desenvolvimento da Igreja local.
Em 1565, Miguel Lopez de Legazpi e sua frota colonial desembarcaram na ilha de Cebu, estabelecendo alí um assentamento espanhol permanente. Anos depois, em 1571, a sede colonial foi transferida para Manila. O
arquipélago foi reivindicado pela Coroa Espanhola sob o reinado de Filipe II e mantido como uma importante colônia até 1898. A evangelização nas Filipinas foi feita por vários grupos de missionários: os Agostinianos (1565), os Franciscanos (1578), os Jesuítas (1581), os Dominicanos (1587) e os Agostinianos Recoletos (1606). Manila tornou-se bispado/diocese em 1579, tendo como o primeiro bispo o Fray Domingo de Salazar, OP. Salazar era um tipo excepcional, um zeloso “discípulo” de Bartolomeu De Las Casas (mais tarde bispo de Chiapas, no México). No primeiro Sínodo de Manila em 1582, Salazar denunciou os abusos dos funcionários coloniais e os responsabilizou perante Deus e o povo, recusando até a “absolvição” e a “sagrada comunhão” aos infratores espanhóis.
Após a Revolução Filipina em 1898 e a subsequente ocupação imperial americana iniciada em 1899, vários grupos missionários masculinos (não espanhóis) foram convocados para continuar as obras dos missionários espanhóis: Redentoristas irlandeses (1905), Missionários de Mill Hill (1906), Missionários CICM (1907), Missionários do Sagrado Coração (1908), Missionários do Verbo Divino (1908), Irmãos La Salle (1911), Oblatos de São José (1915), Missionários de Maryknoll (1926), Missionários Columban (1929), Sociedade de São Paulo (1937), PME-Quebec (1937) e Oblatos de Maria Imaculada (1939). Também milhares de Religiosas participaram das muitas obras caritativas, educacionais e sociais da Igreja.
Uma pergunta peculiar está sendo feita: o país das Filipinas é de fato “cristianizado” após 500 anos de presença do Cristianismo? Segundo as estatísticas recentes, quase 93% dos Filipinos são Cristãos, distribuidos em 82,9% Católicos Romanos, 5,2% Protestantes (de diversas denominações presentes desde 1901), 2,6% Aglipayans (uma igreja independente fundada por Isabelo de los Reyes e Gregorio Aglipay em 1902) e 2,3% Iglesia ni Cristo (fundada por Felix Manalo em 1914). Se mais de 93% dos Filipinos são “batizados”, são eles “evangelizados”? O Evangelho foi supostamente proclamado pelos Espanhóis quando Magalhães desembarcou no arquipélago, em 1521, e é conhecido desde então. O Evangelho está sendo vivido “radicalmente” como um estilo de vida para a maioria dos Filipinos? É interessante notar que os Filipinos, de modo geral, foram “sacramentalizados”, mas inadequadamente “evangelizados”.
Assim sendo, é urgente a “nova evangelização” que vem ocorrendo desde o pontificado de João Paulo II, o papa que visitou Filipinas em 1981 e 1995, respectivamente. Os missionários e agentes de pastorais estão envolvidos nesta iniciativa da “nova evangelização” ou continuam a rotineira “sacramentalização” dos “batizados”? Por exemplo, como podemos garantir uma formação holística para os diáconos recém-ordenados? Vestidos com uma estola de diácono e uma dalmática majestosa, estão eles sendo treinados para “servir” os mais pobres dos pobres, semelhante à função dos primeiros sete diáconos em Atos dos Apóstolos 6, 1-6? Ou estão sendo preparados simplesmente para serem alertas e adeptos “servidores de altar”? Enquanto bispos, padres e diáconos “prestam serviço no altar”, talvez o ministério ordenado seja melhor e autenticamente exercido “além do altar”, isto é, nas periferias, na extremidade da sociedade dominante onde encontramos os “últimos, os pequenos e os perdidos”.
Magalhães recebeu a comissão de embarcar numa viagem ao redor do mundo em busca de ouro e especiarias, e estabelecer o domínio espanhol nessas “terras recém-descobertas”. Em outras palavras, ele e seus marinheiros eram “mercenários”, encarregados e pagos pela Coroa Espanhola para promover a ambição imperialista e os interesses comerciais da Espanha. Mas quando, faminto e cansado da viagem, Magalhães e sua tripulação encontraram os nativos de Homonhon e Limasawa, nas atuais províncias de Samar e Leyte, respectivamente, eles foram “desarmados”, “encantados”, por sua hospitalidade e generosidade. Magalhães e seus “mercenários” involuntariamente se tornaram “missionários” por direito próprio, como expressou apropriadamente o Bispo Pablo David, de Kalookan:
Eles eram em sua maioria mercenários que passaram rapidamente a agir como missionários quando encontraram pessoas de boa vontade entre os nativos de Samar, Leyte e Cebu. Eram estranhos que precisavam de abrigo e provisões, e foram tratados como hóspedes por nossos ancestrais... Esses estrangeiros europeus, que pensavam estar levando Deus à pessoas ímpias, provavelmente ficaram surpresos ao encontrar Deus no coração simples e generoso dos nativos que lhes deram comida, bebida, abrigo, e os ajudaram a enterrar seus mortos e a adorar o seu Deus.
A inesperada, mas providencial transformação “missionária” de Magalhães e sua equipe, é um desafio oportuno para os “missionários” de hoje nas Filipinas a fim cumprir com ousadia e sinceridade seu mandato missionário, procurando estar conscientemente cautelosos de qualquer infeliz “inversão de papéis”.
As instituições educacionais católicas fundadas pelos missionários têm florescido nas Filipinas. Milhares de escolas paroquiais educaram milhões de jovens filipinos. Um número considerável de nossos líderes no governo, setor empresarial e sociedade civil foram formados nessas escolas. Uma pergunta incômoda permanece: por que o país das Filipinas teve uma baixa pontuação em 2020, referente ao índice de percepção da corrupção, totalizando 34 de 100? Cinco anos atrás, um líder populista foi eleito cujas políticas resultaram na morte de milhares de pequenos traficantes de drogas, ativistas militantes e civis inocentes. Aparentemente, nossa instituição educacional educou “uma elite, mas não um povo”. Pergunta: enquanto valorizamos a excelência acadêmica como um dos objetivos primordiais da educação católica, promovemos a formação de uma consciência informada e um profundo senso de responsabilidade social?
Como na América Latina e em outros lugares, a religiosidade popular nas Filipinas é um fenômeno social a ser considerado. Milhões de devotos acorrem à Igreja Quiapo para a festa anual do Nazareno Negro. Outras participam da celebração festiva do Santo Niño e de numerosas devoções à Santíssima Virgem e a outros santos em várias partes do país. Qual é o papel da religiosidade popular no esforço atual de evangelização? Papa Francisco enfatiza o poder inerente da religiosidade popular para aprofundar a fé dos fiéis e instigá-los à transformação social.
Na Argentina, ele era conhecido como o “bispo das favelas” por seu programa pastoral nas “vilas miseráveis” de Buenos Aires. Ele reconhece o poder evangelizador das expressões populares de fé tanto no “processo infindável de inculturação” quanto na pastoral libertadora dos pobres para promover mudança social. Em um livro intitulado Pasyon and Revolution (Paixão e Revolução), o historiador filipino, Rafael C. Ileto, argumenta que a leitura popular da Paixão de Cristo se tornou um poderoso veículo ideológico para a resistência local e levantes contra o domínio colonial nas Filipinas do século 19. A Revolução do Poder Popular EDSA (Epifanio De los Santos Avenue - EDSA People Power Revolution) de 1986 foi uma das manifestações exemplares do papel simbólico e transformador da religiosidade popular em uma revolta política histórica nas Filipinas.
No artigo acima mencionado, J. H. Kroeger afirma que nas Filipinas “a proporção sacerdotes-católicos é uma das mais baixas do mundo” e “há também uma distribuição injusta da equipe apostólica dentro do país”. Sacerdotes e Religiosos são encontrados principalmente em áreas urbanas onde a demanda por sacramentos é alta e os confortos da vida moderna prontamente disponíveis. Pode-se argumentar que a ideia de “periferias” não é apenas geográfica, mas, muito mais existencial. Todavia, se fecharmos os olhos ao abandono das “periferias geográficas” e ao abandono do meio rural, corremos o risco de cometer um “pecado de omissão” missionário.
Outra questão que deve interessar aos missionários de hoje nas Filipinas, é a presença do Islã no país e o apelo ao diálogo inter-religioso. Os muçulmanos representam apenas 4,6% da população, predominantemente presente em Mindanao, nas províncias de Lanao del Sur, Magindanao, Basilan, Sulu e Tawi-Tawi. O Islã foi introduzido no arquipélago no século 14 por mercadores Muçulmanos e missionários Sufis. Devido à prolongada agitação social e à violenta agitação política, um significativo número de muçulmanos tem migrado para a maioria das grandes cidades, em Luzon e Visayas. 
O evento devastador mais recente foi o cerco à cidade de Marawi, que começou em 23 de maio de 2017 e durou cinco meses. Milhares de pessoas, tanto Cristãs como Muçulmanas, foram deslocadas, aumentando as dificuldades econômicas. As causas da agitação social, rebelião e violência nessas áreas são inúmeras. Talvez a única solução possível seja “paz e diálogo” entre povos de diferentes credos. O Papa Francisco já iniciou muitos esforços para promover o diálogo entre Muçulmanos e Cristãos. Em 2019, ele conheceu o Grande Imam Ahmad al-Tayyeb, em Abu Dhabi, e, em 2020, foi ao Iraque e visitou o líder Xiita, Grande Aiatolá Ali al-Sistani. Em sua última encíclica Fratelli Tutti, ele destaca o papel dos líderes religiosos como mediadores da paz e do diálogo, com estas palavras:
Nós, líderes religiosos, somos chamados a ser verdadeiros “dialogantes”, a agir na construção da paz, e não como intermediários, mas como mediadores autênticos. Os intermediários procuram contentar todas as partes, com a finalidade de obter um lucro para si mesmos. O mediador, ao contrário, é aquele que nada reserva para si próprio, mas que se dedica generosamente, até se consumir, consciente de que o único lucro é a paz. Cada um de nós é chamado a ser um artífice da paz, unindo e não dividindo, extinguindo o ódio em vez de o conservar, abrindo caminhos de diálogo em vez de erguer novos muros
Ainda há muitos desafios para nós, missionários, que desejamos aprender com os últimos 500 anos de cristianismo nas Filipinas. O passado só tem futuro se estivermos atentos aos sussurros do Espírito em nosso tempo presente e se valorizarmos plenamente o dom da fé que recebemos. Como evoca o tema principal da celebração: somos “presenteados para dar”, e o presente continua a ser um presente, se for partilhado com o resto do mundo.
Tradução de Giomar Henrique, sx








