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Introdução

Nós festejamos o Natal como a entrada do Verbo de Deus na carne. Este fato trouxe muita alegria, paz e amor para o ser humano. O Natal é Deus que nasce no mundo e para nós a fim de que sejamos discípulos, discípulas, missionários e missionárias de Jesus Cristo.

Diversos autores falaram a respeito da encarnação do Verbo na qual a realidade humana vem assumida e redimida por Deus. Gregório de Nissa (335-394) ressaltou a encarnação, como condição para a salvação do gênero humano. Ele escreveu entre os anos 380-383 uma importante obra intitulada: “Contra Eunomio”(CE), colocando a encarnação do Verbo como redenção de Deus à humanidade.

1. A realização da Economia pelo Verbo, Salvador da humanidade.

Gregório respondeu na sua obra, a Eunomio, o Verbo como Salvador da humanidade. Ele é em comunhão com o Pai. O fato de ser gerado não significava diferença de essência mas apenas a característica do Filho; Ele foi sempre gerado pelo Pai. Assim Ele vem do Pai não como uma criatura, mas como o Criador das coisas. Era necessário ressaltar a encarnação, o fato de Deus tornar-se um de nós. Assim o Nisseno percebia-a (a encarnação) como um projeto de Deus em relação ao ser humano, pois pelo fato de ele ter pecado por si só não podia erguer-se do pecado; desta forma o Senhor veio ao seu encontro.

Gregório fala de economia de Deus para o homem, ou o mistério do Senhor segundo a carne, ou ainda economia temporal. Esta doutrina  já era presente em outros padres antes mesmo de Gregório a respeito da economia da carne, como a economia do Verbo ao Pai, origem do bem, no qual Ele mandou o seu Filho ao mundo. Assim o Verbo encarnado é a economia de Deus, a realização de seu projeto. Ele veio para renovar a sua criatura e levá-la à divinização. Se a economia própria do Verbo é destinada a favorecer a criatura humana, o Pai nesta obra não é separado do Filho; ao contrário o Verbo a realiza junto com Ele. Será presente não só na sua missão do anuncio do Reino de Deus junto aos seus, ma também no momento supremo da economia da carne, sobre a cruz e na sua morte através a doação do Filho para vida de todo o gênero humano

Um outro dado importante sobre a economia divina, esta possui o seu fundamento no Amor. Gregório diz; “Nós afirmamos que o motivo pelo qual Deus aceitou a relação com o homem foi o seu amor por ele”. O motivo que justifica a descida  de Deus entre os homens é um amor que não é circunscrito por algum limite, é infinito. É só desta forma que se explica a unidade modulada, realizada no tempo, pelo fato que Ele quis fazer parte da nossa debilidade.

2. A economia divina e a Sagrada Escritura

A economia da carne como projeto divino é interpretado a partir da Sagrada Escritura(SE) porque esta tinha anunciado à sua vinda neste mundo. O recurso à SE no CE por parte de Gregório não era somente para defender pontos essenciais do ser criador do Verbo, mas para dar fundamento ao mistério que devia acontecer na realidade visível. A SE anunciara a vinda do Verbo pois manifestar-se-ia na carne. As teofanias do AT sobretudo aquela acontecida a Moisés: “Aquele que é”(cfr. Ex 3,14) era para Gregório o Deus Unigênito que dirige a sua palavra ao seu servo Moisés. Ele (o Verbo) cooperou na salvação do seu povo. Na Nova Aliança através da encarnação, o Verbo será motivo de vida e de redenção não só para um povo, mas para toda a humanidade. Portanto a afirmação “Aquele que é” é lida em função não somente do Unigênito do Pai, mas também do projeto da salvação humana; também Ele um dia deveria fazer-se servo em favor dos suas criaturas.

Mas a passagem de maior relevância é o texto joanino: “O Verbo se fez carne”(cfr. Jo 1,14). Deus se manifestou na carne. O mistério escondido pelo Pai nos séculos foi revelado à nossa realidade visível. As promessas contidas na SE se realizaram na história; a Palavra de Deus tornou-se carne. Assim o nascimento do Verbo foi um evento histórico importante porque é estabelecida a sua unidade com o homem. A historia não é mais a mesma a partir da entrada do Verbo porque por esta recebeu um impulso à vida, à maturidade e um olhar para o alto. O aspecto histórico levou o Nisseno a falar da geração do Verbo na carne; este nasceu como todos os outros meninos; não porém com uma geração comum numa relação entre homem e mulher, mas por obra do Espírito Santo.   Aqui entra a figura de Maria na encarnação, como a “Mãe Imaculada”, condição esta ligada à obra do Filho Imaculado. Ele a chama também “santa virgem”, um titulo indicativo daquela mulher na historia da salvação de Deus pensado para o homem.

3. O sentido da encarnação

O sentido da encarnação ou da entrada do Verbo na carne é percebido por Gregório a partir do extraordinário, da maravilha. A carne foi visitada pelo Verbo e esta viu a maravilha do mistério. Foi uma ação em favor do ser humano que proporcionou o cumprimento escatológico das manifestações divinas do AT daquelas acontecidas através o fogo, a tenda. O volto divino não é mais escondido, mas ele é reconhecido na carne. A luz veio para iluminar os homens que estavam nas trevas. O grande Dom de Deus dado ao homem é a vinda do Verbo, tornado gente. É uma maravilha única, dada ao cristianismo para a salvação de todos. Esta é ligada à mesma pessoa; a Aquele que apareceu na carne que era o mesmo, junto de Deus: Jesus Cristo.

4. Os benefícios da encarnação

A encarnação é percebida na perspectiva dos benefícios que o Salvador trouxe à natureza humana, provenientes da natureza divina. A tenda edificada nesta realidade concedera dons a quem era necessitado. Existe a idéia que foi o Senhor a amar por primeiro a sua criatura e a dar a vida ao homem. A encarnação deu a natureza humana a possibilidade da divindade. O homem então olha ao Verbo encarnado e encontra um estimulo para o encontro com o Altíssimo, porque Ele revela na carne o Pai. A presença do Verbo na carne fez desaparecer o mal. A ação foi como um fogo que elimina os objetos e as coisas por onde passa. A partir da encarnação a natureza humana é novamente beneficiada porque o Verbo a restaurou naquela beleza primitiva que o Criador quis dar-lhe desde seu inicio.

Um outro beneficio que o Verbo divino concedeu ao homem foi a reconciliação. Ele modificou a situação da hostilidade da natureza humana em favor da reciprocidade das relações, porque “tomando sobre si a nossa inimizade que surgiu com Deus a causa do pecado e matando-a em si mesma, como diz o Apóstolo (e a inimizade era o pecado) e Ele tornando-se aquilo que nós somos, por seu meio reuniu novamente a Deus a natureza humana”. Assim entre o céu e a terra é reconstituída a harmonia. O Verbo “todo inteiro Deus e sendo feito todo inteiro homem” criou uma situação de vida nas relações entre Deus e o homem. Ele trouxe Deus ao homem e o homem foi levado à condição divina.

05navidad5. A encarnação e a dimensão antropológica

 Um ponto importante na encarnação do Verbo é a recriação da humanidade. Cristo é a novidade divina no homem. Então, o ser humano na medida em que se reveste de Cristo possui o dom da Salvação. Cristo foi criado na encarnação conforme a Deus. Revestir-se de Cristo é a condição da criatura livre do pecado, porque naquele corpo habitava a plenitude da natureza divina. Com o Verbo é reforçado o parentesco da criatura com o Pai, expressão muito presente no CE. Esta indica um estado de união nas relações da divindade com a humanidade. O homem vive com o Verbo a sua vocação de imagem com o Criador. Assim Cristo rompe o mau ciclo do pecado, introduzindo um movimento continuo para o bem.

A dimensão antropológica referia Cristo como iniciador de uma nova humanidade. O Nisseno aprofundou o tema paulino do Senhor como Primogênito, não no sentido ariano e eunomiano que fazia do Filho o primeiro criado. Cristo é Primogênito entre os irmãos porque Ele é o primeiro que inaugurou uma nova geração não mais ligada ao pecado e à morte. A sua primogenitura é dom porque torna amigos e amigas com aqueles que participam com ele à mesma geração, recriados pela água e pelo Espírito. Cristo exprime a presença do Re-Criador na criação, no sentido de um inicio de uma vida melhor assim como esta era à origem,  colocando  em confronto duas criações; a primeira com a participação ao pecado e a segunda feita com o seu Dom. O Verbo não veio para destruir a primeira criação, mas para dar um novo sentido às coisas com a sua vida e doação. Se a primeira tinha envelhecido porque ligada ao pecado e à morte, a segunda tem uma sorte diferente porque Cristo é o inicio de uma nova criação de modo que Ele é a primícia. Ele é a plenitude da divindade de modo que a nova geração provinda do segundo Adão é formado pela sua presença.

6. A encarnação e a dimensão cristológica

O Nisseno como Basílio tinha afirmado que na única economia da carne há uma única pessoa em Cristo. Fundando-se sobre o texto do NT, o nosso autor afirmou a superação de dois seres distintos, na sua encarnação. Quando se fala de exaltação, o elemento humano é valorizado, porque o Salvador levou consigo a humanidade à uma condição melhor, isto é à divindade. A distinção das duas naturezas não significava divisão; se o Logos era antes dos séculos, a carne foi feita nos últimos tempos. São duas as formas de atuação do Senhor; antes de tudo aquela que indicava a sua precedência, a sua eternidade em modo que Ele era em união com o Pai e portanto Ele era sempre com Ele; o segundo estado é aquele do ser criatura, desde quando Ele se uniu com a carne.

Os elementos das naturezas, isto é a divindade e a humanidade do Verbo agiram juntos e distintamente. Quando a vivificação de Lázaro é tratada ou do esplendor da gloria era uma referencia à sua natureza divina; quando se tratava do seu cansaço junto ao poço de Jacó ou Ele foi traspassado pelos pregos, referia-se à sua humanidade. O seu ser encarnado comporta uma semelhança de fato com a humanidade e não somente na aparência, em modo que as relações que Ele estabelece com o homem são feitas na igualdade com aquilo que é humano.

7. A dimensão soteriológica da encarnação

O Nisseno também ressaltou a missão do Salvador que veio em busca dos perdidos, dos homens e das mulheres em situação de necessidade. Desta forma algumas figuras na obra CE são ressaltadas, tomadas da Sagrada Escritura. Em primeiro lugar o Senhor veio como médico para quem tem necessidade de cura. O Salvador transforma as coisas; Ele toma cura do doente dando à criatura a mesma força que Ele possui em si mesmo.

Outra figura do Verbo Salvador que o Nisseno apresenta é aquele do Pastor. O encontro de Deus com a humanidade explica-se mediante a figura do pastor que toma conta das suas ovelhas: “O Verbo deixou em alto o rebanho que não tinha se perdido e estava acima do mundo e por causa do seu amor por nós, ele andou à procura da ovelha perdida, entendo dizer, a nossa natureza”. O Salvador leva exultação neste sentido à criatura; se existir alegria na visibilidade, pois a ovelha perdida é encontrada, existe também alegria no céu. O homem é reconduzido ao rebanho para compor novamente o numero desejado, o numero da integridade: “A ovelha será salvada e destinada as cem que estão nos céus e somos sem duvida nós, isto é a natureza humana esta ovelha que foi salva pelo bom pastor com o seu tornar-se primogênito”.

A encarnação compreende também os momentos cruciais vividos pelo Verbo; a sua paixão, doação e ressurreição, portanto todo o mistério pascal. Nestes acontecimentos, a visão soteriológica é colocada em atenção  porque Cristo é entendido não somente como Aquele que se uniu com a natureza humana, mas também como Aquele que doou a sua vida pelo bem de todos. Se a assunção era integral na visão humana, a redenção referia esta parte final, segundo a qual o Salvador não quis subtrair-se na manifestação do seu amor. A sua “Kénosis” não era só uma igualdade com os outros homens; Ele procurou abaixar-se ainda mais profundamente na obediência, morrendo na cruz.

Na visão gregoriana, a economia da paixão indicava a sua integral comunhão com a natureza humana pois foi manifestada nesta, a existência de um projeto de salvação que é a revelação do amor infinito de Deus pelo ser humano. O Filho assumiu a economia para o nosso bem, porque Ele nos amou até o fim. Ele foi ao encontro da morte pela redenção humana. Assim o Verbo é dito Salvador porque Ele salva o ser humano em tudo aquilo que Ele é. Ele sofreu a paixão, não com uma natureza diferente, mas próprio com a sua natureza humana, porque Ele sujeito a estas coisas, entrega-se à morte pela redenção da humanidade.   A presença divina manifesta-se também sobre a cruz, considerada para o mundo antigo pagão e judeu como vergonha humana. Porém quem quer conhecer Deus e a sua gloria através o seu Filho deve contemplá-lo também sobre a cruz porque Ele é o justo, sacrificado pelos seus.

A redenção é completada no outro mistério; aquele da vida nova em Cristo, da sua ressurreição. Cristo no seu ser carne, não permanece na morte, mas Ele ressuscita. Portanto Ele é a vida nova que nasce da mesma morte. O Nisseno tinha as bases bíblicas para falar do mistério da ressurreição. A divindade não é tirada dos elementos que formam a sua natureza humana, assim que a alma e o corpo não são abandonados na mansão dos mortos. Estes elementos também não viram a corrupção porque a sua divindade era presente nas duas partes separadas. Se com a divindade, o Verbo tinha formado união com o corpo e com a alma, no mesmo modo estes elementos permanecem unidos a Ele na sua morte, no qual sem a divindade, ambas as partes teriam permanecidos separadas a causa da morte. Com a ressurreição, Cristo é o Primogênito entre os mortos. Por isto Ele não é somente o primeiro da nova criação, através a encarnação, mas Ele é também o primeiro entre os mortos porque ele vence o poder da morte, sendo o Primogênito da nova criação em Deus.

A ressurreição do Senhor conduziu glorificação à natureza humana que agora está unida à condição divina do Verbo. Tal realização é a conseqüência do mistério de Deus formado na carne, no qual o elemento corruptível e mortal é revestido pelo elemento incorruptível e pela imortalidade. Portanto as mesmas mãos que formaram o ser humano e o tinham tomado da terra para serem conduzidas sobre as costas na ocasião da sua entrada na historia, agora o enaltecem pela sua nova condição de vida, porque pela sua ressurreição, o Verbo está à direita de Deus.

Conclusão

Concluindo, nós podemos dizer que o Verbo encarnado veio à humanidade para nos trazer os dons divinos e nos elevar à divindade. Ele que era Deus como o Pai e o Espírito Santo, fez-se igual a nós em tudo, menos  o pecado. Com a presença do Verbo, o ser humano, resgatado de sua condição pecadora, pode anunciar ao mundo as maravilhas do Senhor.  Gregório de Nissa  ressaltou elementos importantes sobre a vinda do Verbo de Deus na carne em nossa realidade para que assim o ser humano fosse salvo e redimido, de modo que uma doutrina da encarnação é percebida no pensamento numa obra de cunho do Deus Uno e Trino. Vivamos o Natal com alegria pela presença do Filho de Deus na realidade humana para dessa forma torná-la sempre mais humana e por isso divina. O Natal seja percebido como a manifestação do amor de Deus para cada um de nós e para toda a humanidade.

Nesse Natal, vivamos o amor de Deus, manifestado em Jesus Cristo junto aos nossos irmãos e irmãs, sobretudo aos pobres e às pessoas necessitadas.

Dom Vital Corbellini (Bispo de Marabá-PA).


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