
O livro de Ezequiel é muito diferente dos livros de outros profetas da Bíblia Hebraica. Ele usa ações, imagens e visões estranhas, o que faz um leitor moderno se distanciar ou ignorar essa profecia. É preciso conhecer o contexto no qual o profeta viveu e pregou. Ele exerceu seu ministério na Babilônia, fora da terra de Israel. Para afirmar o poder eficaz e a iniciativa de Deus, o profeta usa a expressão “Veio-me a palavra de Javé”, usada 52 vezes. Outra expressão frequente é “filho do Homem”, usada 93 vezes, deixando claras a fragilidade e a mortalidade em contraste com Deus, chamado de Javé, o forte e poderoso.
O livro de Ezequiel possibilita situar seus oráculos entre os anos 593 e 571 a.C. (Ez 1,1-2 e 29,17). O nome Ezequiel pode ser traduzido por “El é forte”. Ele era um sacerdote do templo de Jerusalém, formado na escola teológica da monarquia davídica, marcada pelo movimento deuteronomista (Dt 4,44-28,68; 2Rs 18-23), com as seguintes ideias: o templo de Jerusalém é a única morada de Javé, o Deus poderoso transcendente (Dt 13; Is 2,6-22), e seus governantes devem promover a vida, na justiça e na fraternidade (Dt 17,14-20; Is 9,1-6). Ezequiel testemunha os últimos anos de Judá e a queda de Jerusalém e propõe projetos de restauração da monarquia e de Israel.
No livro de Ezequiel é possível distinguir vários grupos de redatores. Há oráculos contra Jerusalém, que são atribuídos ao próprio profeta, como há uma redação favorável aos exilados e contrária aos que permaneceram em Jerusalém depois de 597 a.C. Os oráculos contra as nações são tardios, e os capítulos 40-48 formam uma coleção à parte, conhecida como a “Torá de Ezequiel”, visando o interesse do meio sacerdotal. Ainda há outros acréscimos posteriores. Eis uma possibilidade de estrutura do livro:
O livro de Ezequiel é uma janela pela qual podemos ter uma visão da realidade da primeira e da segunda deportação (597 e 587 a.C.). Escolhemos algumas passagens desse livro para tentar colocar os pés na realidade de ontem e de hoje. Eis a nossa proposta.
Recordando a história de Israel
O rei Joaquim (609-597 a.C.), sucessor de Josias, em sua ambição por poder e riqueza, maltratou o povo (Hab 1,2-4), fazendo aliança com o Egito, provocando guerra com a Babilônia. Durante o cerco do exército babilônico, ele morreu, e seu filho, Joaquin, assumiu o trono. Três meses depois, ele se rendeu e foi deportado para a Babilônia, junto com seus governantes, incluindo o sacerdote-profeta Ezequiel. No desterro, Ezequiel profetizou sob a ótica teológica da monarquia davídica. Ele conscientizou os primeiros exilados a respeito da situação de Jerusalém no reinado de Sedecias (597-587 a.C.), sucessor de Joaquin.
Nabucodonosor colocou Sedecias como rei de Jerusalém. Ele jurou fidelidade à Babilônia, porém sua ambição de poder e riqueza foi mais forte. O rei fez aliança com os reinados menores e, especialmente, com o Egito, no sul, tentando se livrar do domínio babilônico. Eis o posicionamento de Ezequiel:
- O profeta condena a política militarista e expansionista de Sedecias. Em sua visão, o governante davídico deveria apascentar e defender seu povo como bom pastor, promovendo a justiça e o direito (Ez 22,1-31; 34,1-16).
- A aliança com o Egito incluía a adoção de suas práticas religiosas. Ezequiel, defensor de Javé oficial, denunciou a presença de divindades estrangeiras no templo de Jerusalém (Ez 8,1-10,17; 14,1-11).
- Para o profeta, a prática da idolatria (abominação) e dos crimes (Ez 22,17-31; 37,23) fez Javé abandonar o templo de Jerusalém e se exilar na Babilônia (Ez 10,1-11,25), permanecendo no meio dos exilados (o rei Joaquin e seus oficiais).
- A visão dos “quatro seres vivos”, inspirada em estátuas de deuses colocadas na entrada dos templos e palácios da Mesopotâmia, apresenta Javé como Deus poderoso, glorioso e transcendente de Israel diante dos deuses babilônicos (Ez 1,4-28).
- Ezequiel condenou as tentativas de Sedecias de se revoltar contra a Babilônia (Ez 17,1-21), o que colocaria em risco a vida dos primeiros exilados e causaria maior destruição de Jerusalém e do Templo.
- Ezequiel condena os profetas da corte de Sedecias que pregam a aliança com o Egito e a guerra contra a Babilônia (Ez 13,1-16; cf. Jr 28).
A segunda revolta de Judá com o rei Sedecias provocou uma reação violenta e devastadora do exército de Nabucodonosor, rei dos babilônios, em 587 a.C. O rei e seus governantes foram massacrados, a capital Jerusalém, com seu Templo, foi devastada, e o “resto” da população pobre de Jerusalém foi deportado (segunda deportação; cf. 2Rs 25,1-21).
Durante o exílio, na Babilônia, enquanto os pobres da segunda deportação tentavam sobreviver e sonhavam com uma sociedade justa e fraterna, tendo como liderança o “Servo Sofredor” (Is 42,1-9; 52,13-53,12; 55,1-11), os primeiros exilados, sob a liderança de Ezequiel, procuravam fortalecer e renovar a teologia oficial da monarquia davídica (deuteronomista):
- A destruição e o exílio aconteceram por causa do pecado do próprio povo de Israel, sobretudo a infidelidade dos governantes de Jerusalém (Ez 8,1-18; 22,23-31).
- Javé perdoa o pecado de Jerusalém e realiza a nova aliança com Israel na medida em que o povo assume um “coração íntegro e um novo espírito” (Ez 11,19-21; 18,31; 36,26-27; 37,3-14).
- Os exilados devem manter-se “puros” em terra estrangeira, observando a circuncisão, o sábado, a lei da pureza etc. (Ez 20,18-20; 32,19-21; 36,16-25; 37,23).
- Responsabilidade individual (Ez 14,12-23; 18,1-32): cada um será julgado e condenado por Deus conforme seus pecados (a não observância da lei da pureza).
- Ezequiel condena os que permaneceram em Jerusalém (Lm; Mq 4-5) e os camponeses que ficaram ao redor de Masfa (2Rs 25,12; Jr 39,10; Ez 40,1-12), por pretenderem ser os herdeiros da terra santa (Ez 11,15; 33,23-29).
- Em meio à realidade sofrida dos exilados, provocada pelos maus pastores (os últimos governantes davídicos), Javé mesmo se tornará pastor para proteger e conduzir o seu povo (Ez 34,1-16).
- Ezequiel planeja a restauração da nova monarquia davídica com o restabelecimento da aliança com Deus; a reunificação dos dois reinos sob o único pastor, o novo Davi; a restauração do novo “santuário” no meio do povo, no qual Javé oficial habitará para sempre (Ez 37,15-28).
Após o exílio (538 a.C.), o grupo de Ezequiel, agora chamado golá (a elite repatriada), retornou para Judá, exigiu o direito sobre a terra santa de Judá e estabeleceu o governo a partir do Templo – a teocracia – como comissários do império persa (Esd 1-7). Esse grupo reconstruiu e fortaleceu o sistema do Templo com Javé, Deus único, a teologia da retribuição, a lei da pureza, os sacrifícios, as festas, as ofertas dos produtos da terra para Deus Javé etc., como principais meios de arrecadação de tributos, para o enriquecimento da teocracia de Jerusalém e do império persa, aumentando ainda mais o sofrimento do povo (cf. Is 66,1-4; Jó 24,1-12; Sl 73).
Para justificar o funcionamento da teocracia e a distribuição da terra santa, os teocratas escreveram a utopia da nova Jerusalém e do povo restaurado com a presença de Javé (Ez 40-48):
- Jerusalém é descrita com o novo Templo bem organizado, com seu altar, ministros, festas e sacrifícios (Ez 40,1-46,24).
- A água que nasce do Templo é que garante a vida do povo (Ez 47,1-12). Historicamente, os sacerdotes, filhos de Sadoc, obtiveram privilégios culturais, materiais e políticos ao ocuparem o serviço principal do novo Templo (Ez 44,4-31).
- O príncipe (descendente de Davi) deve realizar a divisão da terra (herança) como dom de Deus (Ez 47,13-48,35). A parte central do território era reservada para os ministros teocratas.
Fonte: Centro Bíblico Verbo Divino








