A figura de Maria no Evangelho de São João

O mês de maio é o mês de Maria. Na antiga Grécia o mês de maio era dedicado a Artemisa, deusa da fecundidade. Na época, celebravam os jogos florais no fim do mês de abril e pediam sua intercessão. Na época medieval abundaram costumes similares, tudo centrado na chegada do bom clima. A ideia de maio estar dedicado a Maria começa no século XVII e vem até nossos dias. Este ano no enfrentamento da pandemia peçamos a Maria que interceda por todos nós!
A comunidade do discípulo/a amado/a nos oferece dois textos sobre Maria, no início e no termino de seu evangelho. Primeiramente vamos olhar os textos e sua estrutura:
Os textos de João 2,1-12; 19-25-27, apresentam a narração da comunidade do discípulo/a amada/a ela é somente a Mãe, a Mulher. Como o discípulo amado não tem nome, também ela não tem nome. Como nele cada uma de nós pode identificar-se, assim nela cada uma de nós pode identificar- se.
A comunidade de João a lembra em dois acontecimentos: nas Bodas de Canaã (João 2,1-12), aos pés da cruz (João 19,25-27). Os dois acontecimentos estão ligados pela recorrência literária: mãe – mulher.
Nas Bodas de Canaã, a mãe estava presente com seu filho, ao perceber a falta de vinho provoca e antecipa da hora de Jesus. Faz isso pronunciando uma frase: “Fazei tudo aquilo que ele vos disser”. São palavras de aliança, são palavras que fundamentam o seguimento de Jesus. A mãe adverte a necessidade. Jesus parece ligado a um programa: minha hora ainda não chegou. Ao insistir ela provoca, obriga Jesus a realizar o primeiro sinal, antecipar sua hora. Jesus homem está ligado a um programa. A mãe, mulher adverte a necessidade e vem antes dos programas, dos projetos.
As seis talhas de pedra, deviam conter a água da purificação. Elas estão vazias como o legalismo na religião esvaziou a relação com Deus. As talhas são de pedra, algo morto, sem vida símbolo de uma religião que não transmite vida.
As palavras que ela dirige aos servos recordam a aliança firmada no Monte Sinai, geradora do Povo de Deus (Ex 19,6-8). Aliança a ser firmada aqui na festa de casamento que gera o novo Povo de Deus: a Comunidade.
Seguimento que é escuta da voz do Mestre, que atenção aos sinais da vida, aos sinais que o Mestre realiza. Voz e sinais que suscitam o crer, que suscitam vida nova.
Aos pés da cruz a Mãe está presente com seu Filho. A fidelidade ao Pai levou Jesus a assumir a morte na cruz. A fidelidade ao Pai levou a Mãe a assumir o destino do Filho. A fidelidade ao Pai e ao Filho lhe pede, nesta hora de entregar o Filho, lhe pedem de acolher outro filho. É a herança que Jesus lhe deixa: “Mulher, eis aí teu Filho”.
Aos pés da cruz a Mãe de Jesus não está sozinha, no caminho outras mulheres se juntaram e com ela permaneceram fieis. O soldado não lhe quebra os ossos, mas fere seu coração com a lança e saem sangue e água. A comunidade viu no sangue e na água que jorram do coração de Jesus o dom do seu Espirito. Para comunidade dos discípulos amados, das discípulas amadas é o Pentecostes. Aos pés da cruz nasce a Igreja, nova comunidade no cuidado de uma mulher, no testemunho de mulheres. Na circularidade nascida da dor-amor, nasce a comunidade que testemunhará a possibilidade de uma igreja de discipulado de iguais, na relação amorosa com o Mestre.
Os outros evangelhos colocam a cena do templo no final de sua narração, este evangelho a coloca no inicio em paralelo ao texto das núpcias.
Em Canaã o sinal havia sido dado: vinho bom e abundante, sinal de novidade, festa, religião que coloca a vida em seu centro. Agora aos ‘judeus’ o sinal é explicitado. ‘Judeus’ neste evangelho não é o povo, são as autoridades, é o poder que reside em Jerusalém, classe sacerdotal que tem como chefe o sumo sacerdote, seu centro de poder é o Templo; são os fariseus, é o poder que se espalha em toda Judéia cujo centro de poder a na Sinagoga e a Lei. Templo e Lei manipulados torna a religião geradora de morte e não mais de vida. O sinal que Jesus vai dar, a novidade será seu corpo ressuscitado, será uma religião que coloca no centro a vida.
Em Canaã Jesus antecipou sua hora, provocado pela mãe; a comunidade nos diz que ele apreendeu e acolheu o recado e por isso antecipa, coloca esta narração logo no inicio e não no fim como nos Sinóticos.
Mãe discípula, Mãe testemunha, Mãe aberta à vida, Mãe precedendo o Filho, Mãe seguindo os passos do Filho, Mãe coração aberto que acolhe e derrama amor, Mãe ensina-nos a ser contigo mãe, discípula, testemunha do teu Filho Jesus.
Ir. Tea Frigerio








