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Este ano em que celebraremos a semana santa de uma maneira diferente, em nossas casas, sem procissões e sem a liturgia tradicional, o artigo a seguir é uma subsídio para pensar o significado da morte de Jesus na cruz em tempos de isolamento e pandemia, diante de tantas cruzes e mortes.

A cruz significava o fracasso

Em tempos de Jesus, a cruz representava o fracasso das expectativas suscitadas pelo anúncio do Reino de Deus. Quem poderia acreditar na promessa do governo libertador de Deus feita por alguém que acabou miseravelmente na cruz como os criminosos comuns e os terroristas subversivos? A cruz escandaliza seja o mundo religioso judeu seja o ambiente culto dos pagãos. Os judeus não crucificavam. Os romanos somente crucificavam os escravos ou os plebeus que não tinham cidadania romana. Morrer na cruz era um castigo horrível para as pessoas mais desprezadas, um enorme escândalo para quem sofria e para os seus familiares.

A morte do Messias, proclamado “Filho de Deus”, no patíbulo reservado aos rebeldes, terroristas, traidores e criminosos de alta periculosidade, era considerada coisa “louca” e contrária a toda a sã experiência religiosa (cf. 1Cor 1,22-23).  Ela criou um impacto escandaloso fortíssimo já naquela época, e precipitou mais ainda os discípulos numa crise extrema. Como seria possível apresentar Jesus, o enviado e Filho de Deus, justo e santo, com mancha tão comprometedora da própria honra, reputação, obra e ensinamento? Para a opinião pública judaica Jesus estava desmascarado como falso mensageiro de Deus.

A crucifixão e morte de Jesus

A execução devia acontecer com o máximo de publicidade e em lugar aberto e elevado, à vista de todos. No Gólgota, colina do crânio, estavam plantados os postes para a crucificação. Os evangelhos não descrevem os pormenores, (bastante repugnantes, pois tratava-se de uma verdadeira tortura) da crucificação de Jesus.

“Os cristãos se acostumaram durante uma história de dois mil anos a ver na cruz (...) o sinal da graça divina, pelo qual a nossa redenção se havia realizado. Tudo isso é verdade; mas, em nada corresponde ao significado que esta cruz possuía, na época de Jesus. Na Palestina de Jesus, a cruz não era símbolo de honra. Pelo contrário, era sinal de desprezo e de vergonha. Prova do fracasso existencial de uma pessoa, de exclusão, de tal maneira que uma pessoa crucificada se tornava desprezada e excluída de toda a comunidade humana. Quem era crucificado se tornava uma "não-pessoa" aos olhos de seus contemporâneos, sobre a qual era impossível falar”. Um crucificado tinha que ser removido da memória do povo e esquecido por todos.

O suspenso na cruz é amaldiçoado por Deus

Mas, além da luta terrível entre a vida e a morte, a pena da crucificação tinha um aspecto indecente e cruel.  Se, para os latinos (os romanos), a cruz humilhava um homem livre e um cidadão romano, para os judeus ela lembrava a imagem do cadáver “suspenso no lenho”, objeto da maldição de Deus e dos homens. A pessoa crucificada era tachada publicamente como amaldiçoada por Deus (Dt 21,23b: “maldito quem for pendurado no madeiro”). Esta perdia todo e qualquer resíduo de dignidade e respeito, que são reservados para alguém que está para morrer. O suspenso na cruz é uma maldição de Deus, uma ameaça de contaminação para todos (Dt 21,22-23). Por esta razão o cadáver devia ser tirado da cruz antes do sol posto.                  

As palavras de provocação e insulto dos vários grupos (passantes, sacerdotes-chefes e os bandidos crucificados ao lado de Jesus Mc 15,29-32) confirmam o aspecto vergonhoso e desconcertante da morte de Jesus na cruz. A pretensão messiânica de Jesus, o seu ser “Filho” de Deus são clamorosamente desmentidos pela sua morte na cruz, onde ele aparece como maldito por Deus e condenado pelos homens.  

A crise e a fuga dos discípulos

A crucificação de Jesus precipitou mais ainda os discípulos de Jesus numa crise extrema. Para os judeus Jesus estava desmascarado como falso mensageiro de Deus. Isso se refletiu sobre os discípulos: eles fogem e voltam para sua pátria na Galileia (Mc 14,27s. 50; 16,7; Jô 16,32; Mc 15,40s: só fica um grupo de mulheres, além de alguns simpatizantes; Mc 15,43: um estranho precisa assumir o dever piedoso do sepultamento). O fim ignominioso de Jesus significou para os cristãos uma catástrofe que dificilmente podemos superestimar ou exagerar: sua fé despertada por Jesus e suas esperanças vieram abaixo (cf. Lc 24,20s).

Felipe Rota Mártir, sx


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