
Perguntamos a Judith Rosales Jimenez, uma missionária mexicana xaveriana que está há muitos anos no Chade e nos Camarões, como ela entende a missão.
Onde você cumpriu sua missão?
Passei dez anos em Nouldayna, no norte dos Camarões, entre o povo Masa, depois voltei para o México, onde fiquei quatro anos. De volta à África, morei quatro anos em Domo, no Chade; em 2014, quando deixamos esta comunidade nas mãos da diocese, fui destinada a Douala, nos Camarões, onde ainda hoje me encontro. Aí, após ter trabalhado pouco mais de dois anos como enfermeira num dispensário dos Irmãos de S. João de Deus, comecei o serviço de animação missionário-vocacional, especialmente com grupos de jovens iniciados pelos Xaverianos. O primeiro grupo da infância missionária também nasceu na diocese.
Nos últimos anos, como você entendeu ser missionária?
Nouldayna me ensinou a entender que missão é ser, ficar com as pessoas, crescer juntos na fé, descobrir sua beleza, caminhar juntos, compartilhando alegrias, sofrimentos, dificuldades, mesmo sem fazer coisas extraordinárias. Estando com o povo aprendi que Deus está conosco, sua Providência nunca falta. Nos momentos pessoais difíceis, o Senhor me fez entender que está me chamando para dar algo mais, feito não só de palavras, mas do ser.
Acredito que não é só o fato de as pessoas chegarem em minha casa que me faz abrir os braços para recebê-las, mas também o fato de eu chegar na casa delas e elas abrirem os braços para me receber em sua família, vida: difere e me ensina a ser outra pessoa. Também em Douala, com os jovens, quando encontro tempo, gosto muito de os visitar nas suas casas e eles ficam felizes, vêm ao meu encontro no caminho para me acompanhar.
Gosto de passear, andar na rua, conhecer pessoas. As pessoas me dizem: "Irmã, você conhece todos os atalhos!" Quando eu passo, as crianças gritam do alto de uma casa: "Irmã Judith, onde você vai?". Uma senhora me diz: "Eu sempre vejo você passar, seja chovendo ou fazendo sol". Missão é caminharmos juntos sabendo que Deus caminha conosco. Nisto há também o valor profundo do silêncio, do respeito pelo diferente, sabendo que não se trata de muda-lo, mas de o acolhe-lo. Cada dia difere do outro, me ensina algo mais e me faz caminhar.
Em que sentido isso é uma proclamação do Reino de Deus?
Eu penso que o reino de Deus toca o coração da pessoa: não eu, mas Deus o faz através de mim e toca meu coração através dos outros. Deus está presente e o descobrimos no nosso coração, na nossa vida, nos nossos gestos. E com o povo, buscar o certo, o verdadeiro. O reino de Deus está na beleza do belo, do verdadeiro, do justo, na liberdade, apesar da complexidade da vida, em nós e ao nosso redor. Após fazer cinquenta anos, o Senhor deu-me mais dez anos: vivi-os na alegria, no abandono a ele.
O que te ajuda em tempos difíceis?
A Oração. Se você não se apega a Deus, sua Palavra, oração, se você não se acostuma a estar com ele, se levantar com Deus e ir dormir com Deus, no final você encontra um vazio no seu coração, você lutou sozinho. Você trabalhou, mas você trouxe Deus, a esperança que vem dele e que te dá força para se levantar? Quando você vive o dia em Deus, com Deus, você anda com Ele, você está com Ele, sabendo que Ele é o primeiro a estar com você, é diferente.

Os votos ajudam a missão ou a condicionam?
Os votos são uma força e eles são minha liberdade. A castidade desenvolve uma capacidade de amar que não vem de nós, mas de Deus. Na vida tenho encontrado momentos de solidão e dúvida: descobri então que o Senhor me pedia um amor maior. Encontro família em cada pessoa que encontro no meu caminho: em cada mulher, homem, criança, em cada família e casa em que entro. Muitas famílias me dizem serem minha família e sinto que lhes pertenço. O vazio da castidade se abre para tudo isso, é uma capacidade de amar que vai além.
Quando cheguei a Nouldayna as crianças, não sei por que, me chamavam de “ia”, que na língua massa significa “mãe”. Em Douala trabalho na Infância Missionária e as crianças vêm para me contar suas histórias, alegrias e até os sofrimentos que vivenciam em casa. Eles fazem você sentir serem teus filhos
A obediência é um estilo de vida na família, mas também na igreja e no mundo: é o abandono à vontade de Deus, que depois se manifesta de muitas maneiras. A pobreza é o desapego de tudo o que é material, do apego às pessoas ou coisas, mas primeiro a mim mesma, lentamente fui conseguindo me desapegar de muitas coisas que me pareciam necessárias nos primeiros anos de consagração. Eu me perguntei: o que vou levar no final? Nada, apenas um coração que talvez tenha entendido que deve amar antes de dar. Dizem que não sou amiga da caneta, e é verdade: só escrevia para minha família por vezes. Porém, sei que no dia em que vou encontrar de novo tantas pessoas, encontrarei um irmão, uma irmã, um amigo, uma amiga, pessoas com quem convivi e com quem a amizade continua.
Também aprendi a me libertar do tempo. Em Douala não existe pontualidade: para as pessoas o mais importante não é o tempo. Procuro ser pontual, sabendo que tenho que esperar uma hora ou mais. Para a missão, isso significa muito. Às vezes ficamos com raiva, pensando em nossos programas, mas no final aprendemos e entendemos que o tempo para um missionário pertence a Deus.
Fonte: site das Missionárias Xaverianas







