Para uma mística missionária

O mundo em que vivemos sofre transformações constantes. O ser humano vive ameaçado por ideias incompatíveis com o projeto de Deus e sofre interferências que nem sempre respondem aos seus anseios e expectativas.
É nesse sentido que podemos falar de convicção cristã. Dela nasce a mística da nossa missão. A mística não se compra em farmácia, como um remédio, mas se adquire através da sintonia com Deus, no silêncio e na partilha, em comunhão e solidariedade com a caminhada do povo. Mas é algo invisível. Não se vê, não se toca, mas se experimenta. É uma experiência muito importante. É como o ar que respiramos. É como as raízes de uma planta: não aparecem, mas sustentam a vida.
Mística não é uma palestra sobre assuntos religiosos, catequese, curso bíblico… é algo profundamente existencial: tem a ver com nossos anseios, nossos sonhos e frustrações. Está ligada à nossa presença neste mundo e, ao mesmo tempo, à nossa sede do absoluto, do eterno. Alcança o íntimo de nosso ser. Mexer com emoções, sentimentos, atitudes, opções… Mística cristã é algo que se experimenta e se vive diariamente. É uma relação profunda com o amor misericordioso do Pai (Lc 15), com a pessoa de Jesus Bom Pastor (Jo 10) e verdadeira videira (Jo 15), com a força e o calor do Espírito Santo (Jo 20,21-23; Atos 1,8). Mística é buscar na fonte que é Deus, a água que sacia nossa sede. Sede de amar e ser amado; de viver com intensidade a graça da vida; sede de experimentar a Deus e continuar buscando sem nunca se bastar a si mesmo. O místico cristão é um mártir comprometido. Dá provas concretas naquilo que acredita.
Para Jesus, a mística era um encontro profundo e íntimo com o Pai: “Eu estou no Pai e o Pai está em mim” (Jo 14,11). “Eu e o Pai somos um” (Jo 10, 30). “O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou a realizar a sua obra” (Jo 4,34).
Para o apóstolo Paulo, a mística era profunda comunhão com a pessoa e a prática de Jesus: “Para mim, o viver é Cristo” (Fl 1,21). Mística e missão são inseparáveis. Marcham a unidade e a profundidade do amor de Deus com a vida humana, levando a um engajamento gratuito e eficaz a favor da vida. A falta de engajamento eficaz, gratuito, fiel, permanente, verdadeiro e libertador tem a ver com a ausência de mística. A crise do mundo é a crise de mística. Os profetas, todos eles, foram místicos e missionários ao mesmo tempo.
Jesus, que viveu em comunhão íntima com o Pai, foi por excelência, o missionário da vontade do Pai. Ele era o enviado do Pai para pregar a boa nova (Mc 1,38-39). “O Espírito do Senhor está sobre mim…para anunciar a Boa Notícia aos pobres, enviou-me para proclamar o ano da graça…a libertação aos presos…”(Lc 4,18-21).
Aos fariseus e doutores da lei, que criticavam suas ações, Jesus dá razões de sua missão, através de três parábolas. Estas falam do amor carinhoso e misericordioso do Pai para com os últimos, os marginalizados (Lc 15, 1- 32). A parábola da ovelha perdida, da moeda perdida e do filho pródigo.
Missão, portanto, não é luxo, não é tarefa de um grupo escolhido. Missão verdadeira nasce do batismo, profundamente enraizado na pessoa de Jesus Salvador e libertador. Missão é questão de amor. A experiência do amorfaz sair de si para ir ao encontro do outro. Gera verdadeiro sentido de vida e de vida plena, como Jesus: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).








