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Quem é Igreja? Por mais que pareça uma questão simples, trata-se de uma questão cheia de ambiguidade pois, geralmente, vivemos paradigmas eclesiais que nem sempre condizem com nossa resposta. Em tese dizemos que todo batizado é membro da Igreja, tornando-se parte do corpo místico de Cristo e Povo de Deus. Mas nossas práticas eclesiais, muitas vezes, são hierarquizadas ao ponto de dificultar a participação efetiva e consciente dos cristãos em geral na comunidade eclesial e na vida da Igreja, fazendo por consequência que os leigos entendam que são menos Igreja que o clero.

O entendimento de que todos somos Igreja, também chamado de sinodalidade muda não somente nossa concepção eclesial, mas também a nossa concepção missionária. É difícil dizer quando começou a ideia de uma Igreja sinodal. Talvez ela tenha surgido desde que a Igreja é Igreja, junto dos apóstolos e das primeiras comunidades cristãs. A Igreja sinodal é a Igreja da comunhão, onde os cristãos batizados partilham da missão e das organizações pastorais da comunidade eclesial. Na tradição cristã muitas dioceses se reúnem em sínodo para discutirem questões relativas à vida eclesial. Com o tempo fomos perdendo esta dimensão sinodal assumindo uma eclesialidade hierárquica.

            O Concílio Vaticano II (1962-1965) retoma o paradigma da sinodalidade, mas com o nome de colegialidade. E mais que um tema tratado no Concílio, a colegialidade foi um método de construção dos processos conciliares. O Concílio não foi comandado pela Cúria, mas pelos padres conciliares. Os temas abordados, o modo como foram abordados e mesmo as orientações às dioceses foram sempre pensados e trabalhados em conjunto com os participantes do Concílio.

O período da recepção conciliar é pautado pelo espírito do Vaticano II, assumindo sobretudo o aggiornamento e o entendimento da Igreja como Povo de Deus, mas na prática, a recepção do Concílio acontece em um ambiente de sinodalidade. Enquanto a colegialidade diz respeito aos bispos e às decisões em âmbito universal, a sinodalidade é fruto de uma Igreja local viva e atuante, que pensa caminhos para a realização das perspectivas conciliares em âmbito local.

Na Igreja latino-americana a sinodalidade é latente e tem seu ápice na Conferência de Medellín (1968). Os bispos da América Latina entenderam que não bastava participar do Concílio. Era preciso pensar nos caminhos que o Vaticano II apontava para a vivência eclesial latino-americana. 

Medellín é Igreja católica que se pensa a si mesma no contexto latino-americano. E na mesma medida que Medellín não pode ser entendida como uma simples aplicação do Concílio, também as Conclusões e inspirações da Conferência não foram simplesmente aplicadas pelas conferências episcopais, dioceses, paróquias e comunidades. As dioceses passaram a pensar seus planos diocesanos de pastoral na perspectiva de Medellín, desenvolvendo, conseqüentemente, sua sinodalidade em âmbito diocesano.

Mas e a missão? Toda missão deve ter a sinodalidade como horizonte. Missão não é prestação de serviço, não é uma assistência religiosa. Missão é participação eclesial e cultivo da maturidade humana. O missionário é chamado a construir igrejas locais autônomas. Certa vez escutei de um velho padre, muito querido da comunidade, disse que podemos medir a qualidade de um trabalho missionário se ao ir embora, a comunidade dá continuidade aos trabalhos.

A sinodalidade está relacionada à autonomia das igrejas locais e nunca confundamos essa autonomia com arbitrariedade. A sinodalidade leva a comunidade a uma postura madura e responsável, buscando ser cada vez mais próxima de Jesus e do seu Evangelho. O missionário busca suscitar o espírito do Evangelho. Ao cultivar esse mesmo Evangelho, a comunidade local vive sua sinodalidade.

Welder Lancieri Marchini


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