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Os Missionários Xaverianos não dispõem de nenhuma receita a não ser o nosso trabalho evangelizador e as doações dos amigos benfeitores. O nosso Fundador, São Guido Maria Conforti, quis que confiássemos na Providência de Deus que nunca deixa desamparados seus filhos. Invocamos sobre você e sua família, por intercessão de São Guido Maria Conforti, as bênçãos de Deus.
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Missiologia

Ecos da Carta Testamento sobre o ser xaveriano na China


As nossas Constituições xaverianas foram reescritas na esteira do Concílio Vaticano II, o livreto através do qual todos aqueles que fizeram a profissão depois do ano 1984, assim como eu fiz, têm sido formados durante o ano de noviciado, são um texto escrito bem, um documento no qual dá para ver o esforço de ir além da necessária linguagem jurídica a fim de dar uma solidez bíblica e uma tônica Confortiana às definições e às regras. Um texto bonito, até talvez um pouco decidido demais em algumas expressões, como o título do segundo capítulo, ou seja, “A Nossa Missão”, que nessa formulação parece considerar somente o nosso trabalho deixando quase de lado a ação de Deus.

Um texto bonito, mas hoje o fato de que o panorama mundial e os novos desafios da missão ad gentes mudaram, coloca – nos diante da possibilidade de que num futuro próximo essas nossas Constituições, também, devam ser revisadas e reformuladas. A Carta Testamento, entretanto, não precisa ser reescrita. Não obstante o vocabulário um pouco antigo de São Guido, com frases que nesse nosso tempo provocariam sorrisos (haja vista a frase: ‘qualquer prurido insano de reforma’), a Carta continua mantendo, ainda hoje, a própria força profética. Essa Carta parece não envelhecer nem no futuro precisa ser revisitada como aconteceu a alguns salmos depois da reforma litúrgica. Amamos a Carta Testamento e nela encontramos tudo aquilo que faz parte de nós por que de modo muito sintético e eficaz desenha a identidade do xaveriano e da comunidade sonhada pelo Fundador. Nessa maravilhosa síntese, encontramos os conhecidos três ‘coeficientes’ que caracterizam o xaveriano: a fé, a obediência e o amor pela família xaveriana.

Amamos a Carta Testamento mais ainda por que nela São Guido tem transmitido o próprio coração de pai. Nos retratos oficiais, ele aparece geralmente numa postura solene, de certa forma sem expressão, quase fria, sem sentimentos. Se não levarmos em conta algumas fotografias tiradas de improviso, raramente podemos observar o Fundador rindo ou tendo um sorriso que iluminava o seu rosto. Talvez por causa de uma mentalidade daquela época, a maior parte das suas fotografias pareça tirada com a intenção de passar uma imagem austera. Ao lermos a Carta Testamento, esse semblante de homem que vivia no desprendimento evapora   totalmente. É através dessa Carta que o Fundador dialoga pessoalmente com cada um de nós, com a solicitude do pai que indica uma meta preciosa a ser alcançada e, ao mesmo tempo, adverte sobre os possíveis perigos.

Lendo essa Carta, podemos continuamente descobrir algo da alma de São Guido. Agradeço a Deus o fato de ter nascido numa época na qual ainda não existiam computadores, celulares, e – mail e SMS. Esses novos meios de comunicação têm simplificado a vida, porém têm banalizado o recurso epistolar. A relevância de uma carta escrita com a própria mão revelou – se na minha vida desde a minha infância: minha avó recebia mensalmente uma ou duas cartas escritas pela filha irmã que naquele período se encontrava muito longe de casa.

Minha avó lia e relia várias vezes cada uma das cartas, durante vários dias. Parecia dialogar com aquelas cartas; quase desejava extrair delas possíveis significados escondidos; e depois perguntava para minha mãe para receber confirmações ou outras interpretações. Acredito que a Carta Testamento deva ser lida do mesmo modo com que minha avó lia as cartas de minha tia; devemos lê-la com o interesse de conhecermos a vida e o coração do Fundador, com o desejo de fazermos parte da sua vida e de estarmos em comunhão com ele, com amor filial.

Tudo isso adquire ainda mais valor hoje, depois de que a Igreja declarou santo o nosso Fundador por que agora sabemos que, de acordo com as palavras da oração eucarística, entrou a fazer parte daquele número de ‘eleitos’ com o qual estamos ‘juntos’. E vivendo aqui na China, essa modalidade de ler essa Carta adquire na minha vida uma sua especificidade. A China foi a única missão xaveriana conhecida pelo Fundador. Permitam –me pensar no fato de que o pensamento de São Guido, ao desenhar a vocação xaveriana, se debruçasse principalmente sobre a China, aquela que os seus missionários lhe contavam e que mais tarde ele mesmo visitará pessoalmente. Dessa forma, enquanto leio a Carta Testamento, imagino o Fundador que coloca a pena na tinta e pondera as palavras que vai escrever pensando em nós missionários hoje em China. E além do tempo e do espaço, nessa nova forma de estarmos ‘juntos’ a ele, me pergunto o que estará pensando São Guido de mim e da minha comunidade enquanto leio essa Carta. Poderia parecer um sentimentalismo missionário; na realidade, essa espécie de lectio da Carta Testamento, é uma metodologia para vivermos a comunhão com o passado xaveriano na China e para nos sentirmos parte integrante de uma história que é muito maior que aquilo que faço eu / fazemos nós, agora, nesse lugar.

Vida de fé

A Carta é rica de recomendações práticas acerca do cuidado da própria vocação de religiosos na comunidade; são regras de vida que brotam da sabedoria e, a meu ver, da experiência pessoal do Fundador. Na minha juventude algumas delas (como, por exemplo, o convite a castigar e mortificar o nosso corpo) pareciam – me estranhas porque marcadas pela espiritualidade e mentalidade de uma época bem distante da minha. Hoje, depois de anos de vida xaveriana e missionária, vejo a complexidade e a experiência que fundamentam o pensamento de São Guido, a relevância das suas advertências permanece porque, não obstante o século diferente, a natureza humana é sempre a mesma.

Existem, entretanto, dois temas fundamentais que acredito tenham tido uma particular relevância na minha vida e na vida dos xaverianos hoje na China. O primeiro tema de grande relevância no texto da Carta é o tema da fé. Sempre acreditei que o lema caritas Christi urget nos comprometesse – nos, em primeiro lugar no que tange ao amor, e que entre as virtudes teologais aquela que deveríamos pedir com maior insistência fosse a caridade, a leitura da Carta me colocou, entretanto, frente à centralidade da fé na vida do xaveriano (fundamental e n. 7 da CT). Essa virtude tem uma particular ressonância na nossa experiência em China. Num contexto humano em que, não somente está proibida a proclamação missionária direta como também somos obrigados a esconder a nossa identidade, o testemunho da vida torna-se principal metodologia de anúncio. Trata – se de uma ‘vida interior de fé’ que o Fundador apresenta com uma recomendação: “E em tudo nos inspiraremos nEle para que nossas ações exteriores sejam a manifestação da vida interior de Cristo em nós” (CT 7).

A fé é também a última motivação para continuar a estarmos presentes nos lugares onde seria espontâneo ir embora para irmos em outro lugar – uma tentação que me parece poder ser vista entre ‘os perigos do próprio ministério” (ibid.). Para aqueles que atuam na China nesse momento histórico, a fé é a única dimensão que sustenta uma presença silenciosa e, de certo modo, não ativa; é também, entretanto, a fé que nos impulsiona a “ver a Deus, buscar a Deus, amar a Deus em tudo aumentando em nós o desejo de propagar o seu Reino em todos os lugares” (CT 10). O fundador tinha razão: a fé faz com que captemos o crescimento do Reino de Deus não obstante a nossa impossibilidade de agir livremente e as nossas limitações. Pelo ‘espírito de fé viva’ caminhamos em comunhão com a Trindade e a vida missionária se torna uma experiência direta da ação da ação maravilhosa de Deus que transforma o deserto em um jardim.

Espírito de Família

O “espírito de família’ é um segundo tema da Carta Testamento que tem uma especial relevância em relação à presença xaveriana na China. No ambiente humano no qual vive e atua a nossa delegação, o espírito de família é uma característica que impressiona favoravelmente os cristãos e os não cristãos. Frequentemente na reflexão comunitária tivemos a oportunidade de observar esse fato e os comentários do povo em relação a isso. Porém: o que é o ‘espírito de família’?

A Carta Testamento ao apresentar o espírito de família ressoa o mandamento do evangelista João de ‘amar Deus e amar o próprio irmão’ (CT 9); e disso deriva a realidade de nós compartilharmos “a vida, os cansaços, os méritos, a direção, tudo ...” (ibid.); e é uma ‘união de mentes e de corações ...” (ibid.) que evita “divisões e rupturas”. Na nossa delegação nunca paramos para pensar a respeito de como viver concretamente o espírito de família xaveriano. Parece – me que esse espirito seja uma expressão espontânea de atitudes enraizadas em nós depois dos anos da formação; o reflexo de algo que tem sido assimilado progressivamente permanecendo nas diferentes comunidades; a presença em nossa missão de uma tradição viva que recebemos desde os tempos de São Guido e dos primeiros xaverianos.

Trata-se de um estilo de fazer comunidade; e os elementos desse estilo cativante são a acolhida generosa, a hospitalidade cordial e um clima, mesmo às vezes divertido, sempre evangelicamente de alegria. Esse espirito se insere em um terreno já marcado por uma experiência originária de família. Cada um de nós é filho de uma particular cultura e traz consigo uma visão de família que vem da própria infância. E parece – me que, no conjunto, os xaverianos venham todos de boas famílias haja vista o fato de que todas, de qualquer forma, tiveram a generosidade de doar um filho ao Senhor Deus para a proclamação do Evangelho.

Poderíamos, então, dizer que em relação à vida dos xaverianos na China, o espírito de família é um dom que temos recebido e que ‘praticamos’ quase naturalmente ou como uma constante instintiva disposição da alma. Além dessa disposição, que com certeza caracteriza os xaverianos num sentido amplo, na China sentimos constantemente a urgência de caminhar juntos, de compartilharmos os projetos e as escolhas, de mantermos viva a comunicação e o sentido de pertença principalmente como remédio nos períodos de solidão e de distância.

Tudo isso é o nosso estilo mais consciente de praticarmos o espírito de família invocado pela Carta Testamento e por nós transformado em lema com a palavra inglês togetherness. Isso nos dá os frutos que o Fundador proclama citando o Salmo 132: a alegria da fraternidade que sustenta a vida missionária. São frutos que possuem uma eficácia não somente para a vida interna da comunidade como também produzem resultados, também, para a vida externa, nos destinatários do anúncio missionário. E aqui mais uma vez, podemos ver a sabedoria missionária do Fundador. De fato, a fim de que o Evangelho não seja simplesmente considerado como uma bela teoria, ele precisa encontrar a concretude de ser visto na realidade. Acredito que Conforti queira tudo isso quando insiste em chamar os xaverianos ‘uma família’. Uma comunidade assim é o melhor instrumento para tornarmos visível o Evangelho, para levarmos “a nossa pobre contribuição para a realização do vaticínio de Cristo que deseja a formação de uma única família cristã que abrace a humanidade” (CT 1). E dessa forma, meio e fim, mensagem e mensageiro coincidem.

Portanto, fé viva e espírito de família: são as palavras que, há um século de distância, desde que São Guido nos enviava a Carta Testamento, ressoam com particular vigor na minha vida e na vida da minha comunidade na China.

Autor: Bachino (Beijing, janeiro 2020).


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