Memórias e reflexões sobre a missão

Em uma noite, em 18 de julho de 1975, no estado do Paraná, a temperatura estava abaixo de zero, destruiu todos os cafezais, “não sobrou uma única planta de café”, era a manchete do jornal. Algumas fazendas demitiram dezenas de famílias, simplesmente fecharam as portas, abandonaram tudo. Uma vez que o cafezal foi transformado em pasto, apenas uma família era suficiente na fazenda.
Acredito que o primeiro a perceber o que estava acontecendo foi dom Gerardo Fernandes, bispo de Londrina. Em outubro (três meses depois da geada), o bispo veio me visitar. Caminhando pelo pátio do seminário conversamos por um longo tempo. O conteúdo era simples e dramático ao mesmo tempo. Os cafeicultores e camponeses, em geral, deixavam o campo e chegavam nas favelas, ocupando por exemplo, os terrenos às margens dos rios. Nos repetiu, temos o desafio na periferia da cidade, por exemplo, onde termina Londrina e começa o município de Cambé (PR), no bairro Santo Amaro. Ele observou, ninguém vai lá para atender aquelas pessoas, não tem nada, nem casa, nem igreja, apenas um terreno e poeira.
No Natal de 1975, naquele terreno, delimitando um espaço com estacas, celebrei a primeira missa. Algum tempo antes, porém, havia sido descoberta a igreja de madeira de uma fazenda abandonada, a poucos metros de distância, contudo, era um sinal e além do tabernáculo em uma parede, estava também a minha escrivaninha na parede oposta. Às vezes dormia no sofá em uma família ou no seminário a 7/8 Km de aí. Era uma boa caminhada. Os banheiros dos operários eram os de uma fábrica, a 700 metros da capela. Assim nasceu o setor pastoral São Francisco Xavier, que mais tarde se tornou paróquia. Com o passar do tempo e com a rápida urbanização aquele território foi dividido em outras duas paróquias. 
A minha experiência não é a única. Posso afirmar, que todos os meus confrades xaverianos passaram por uma experiência semelhante, tanto os primeiros a chegar ao norte do Paraná, como aqueles que nos anos 80, foram para as periferias: anunciavam a Palavra e geraram as Igrejas (AG 1). De fato, posso assegurar que ouvi diretamente do cardeal Evaristo Arns, não foi o bispo que percebeu, mas um xaveriano quem observou, que em Guaianazes (Periferia da cidade de São Paulo) estavam chegando milhares e milhares de famílias provenientes da roça e dos lugares pobres do Brasil.
Olhando para o caminho destes setenta anos do alto, me parece descobrir um aspecto da missão, um paradigma que privilegiamos para responder às situações concretas encontradas aqui na Terra de Santa Cruz. Nos primeiros trinta anos encontramos batizados, espalhados por imensos territórios agrícolas, reunidos em pequenos grupos, às vezes apenas grupos familiares, ou em colônias dentro de grandes fazendas. Depois da "geada negra" nas periferias, encontramos batizados que precisavam de redescobrir o sentido de pertença e a possibilidade de relações humanas. Tiveram que enfrentar o desafio de reinventar um modo de vida, que não podia mais ser o da roça. Em ambos os casos, o compromisso missionário fundamental e primário era formar Comunidades Cristãs, isto é, gerar Igrejas. E com as comunidades cristãs que se formam, torna-se urgente ter um lugar, uma igreja, algumas salas de reunião, enfim, um teto sob o qual se refugiar.
Alfiero Ceresoli, sx
Xaverianos 2008
Visita ao seminário de Jaguapitã da Direção Geral, anos sessentas.









