Deixar-se consumir pela causa do Reino...

(Giomar Henrique, SX)
“O homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres — ou então se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas” (Paulo VI, Evangelii Nuntiandi, 41)
Queridos amigos, na data de hoje, 02 de Fevereiro, festa da Apresentação do Senhor, celebramos o Dia Mundial da Vida Consagrada, instituído pelo Papa João Paulo II em 1997, e em 2022 celebramos a sua XXVI edição. Para dar sentido a esta celebração, é sempre oportuno entender como tudo iniciou. Por que o Dia da Vida Consagrada? É uma curiosidade que para nós consagrados e consagradas, ajuda também a situar a nossa resposta vocacional no grandioso projeto de Deus. Partilho com vocês a minha reflexão acerca deste dia, retomando a mensagem do Papa João Paulo II por ocasião do primeiro Dia da Vida Consagrada, em 1997.
O papa destaca que este dia foi instituíto com a finalidade de ajudar a Igreja inteira a valorizar o testemunho das pessoas consagradas, e para estes (os consagrados/as), ser uma ocasião de ronovação dos propósitos e dos sentimentos que devem inspirar a sua doação ao Senhor (cf. 1). Ele recorda que a vida consagrada diz respeito não apenas às pessoas consagradas, mas a toda comunidade cristã. A mensagem menciona três objetivos importantes desta celebração: 1- louvar e agradecer o Senhor pelo dom da vida consagrada que enriquece e alegra a Comunidade cristã com a multiplicidade de carismas e com os frutos de edificação de tantas existências doadas à causa do Reino. João Paulo II recorda que a vida consagrada, antes de ser compromisso do homem, é dom que vem do Alto, iniciativa do Pai (cf. 2); 2- promover o conhecimento e a estima pela vida consagrada por parte de todo o povo de Deus. Ela está a serviço da consagração batismal de todos os fiéis. Assim sendo, ao contemplar o dom da vida consagrada, a Igreja contempla a sua íntima vocação de pertencer somente ao seu Senhor (cf. 3); 3- convidar os consagrados e consagradas a celebrar as maravilhas que o Senhor realizou nelas. Esta celebração chama os consagrados e consagradas a voltar às fontes de sua vocação e assim testemunhar alegremente aos homens e às mulheres do nosso tempo, que o Senhor é o Amor capaz de preencher o coração da pessoa humana (cf. 4).
Esses três objetivos se atualizam a cada ano em diferentes maneiras e lugares onde a vida consagrada se faz presente. Em minha caminhada de fé e de comunidade, a vida consagrada sempre esteve presente por meio de mulheres e homens que fui encontrando. Posso dizer, que o meu próprio chamado vocacional nasceu desta relação de amizade e convivência com estas pessoas, pois Deus vai nos cativando nos acontecimentos ordinários da vida. O Evangelho de Lucas (2, 22-40) nos apresenta o templo como o lugar do encontro: Maria, José, Jesus, Simeão, Ana. A imagem do templo me remete à importância da comunidade como esse espaço de encontro. Acredito que a vida cristã e assim a vida consagrada não se concebe fora desse contexto de comunidade, embora sob diferentes expressões. O nosso discipulado é relação nutrida no encontro com Deus e seu povo.
Em Simeão e Ana que aguardavam esperançosamente a chegada do Messias, percebemos o anseio da humanidade por Deus. É a sede que somente um encontro com o Senhor pode saciar. E esta sede é sentida por todos, não somente pelos consagrados. Aos consagrados cabe a missão de indicar a fonte (Jesus Cristo), especialmente a partir da própria experiência do encontro. Aqui faz sentido a frase do documento Evangelii nuntiandi, 41 (papa Paulo VI), citado no início desta reflexão, “O homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres — ou então se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas.” Este é um desafio que deve nos inquietar. É nesse contexto que compreendo a importância do Dia da Vida Consagrada, na medida em que este me chama a retornar novamente à este templo (lugar de encontro com Deus), que talvez no decorrer dos anos, por diversas razões, foi se tornando secundário.
Lucas fala ainda do Espírito Santo como aquele que guia Simeão e Ana ao templo. Este é o chamado para nós também hoje, nos deixar conduzir pelo Espírito. Em tempos de grandes desafios pelas quais atravessamos, precisamos pedir a graça da escuta, do discernimento e a força da profecia para continuar sendo testemunha alegre de Jesus Cristo no mundo. Uma das minhas imagens para a vida consagrada em sua multiplicidade, é a imagem da vela, luz. Ser uma chama do amor de Deus para a humanidade. E a festa da Apresentação do Senhor é a festa da luz, onde as velas são benzidas, acesas, e carregadas em procissão pelo povo. Ela nos recorda que cada cristão, cristã, deve ser essa vela viva imbuída do amor do próprio Cristo.
Encerro minha partilha citando as palavras de São Sofrônio, retirado do Ofício das Leituras para esta festa: “Que ninguém fique excluído deste esplendor, ninguém insista em continuar mergulhado na noite. Mas avancemos todos resplandecentes; iluminados por este fulgor, vamos todos ao seu encontro e com o velho Simeão recebamos a luz clara e eterna. Associemo-nos à sua alegria e cantemos com ele um hino de ação de graças ao Criador e Pai da luz, que enviou a luz verdadeira e, afastando todas as trevas, nos fez participantes do seu esplendor.” Que assim possamos viver o nosso batismo e a nossa consagração! Tenhamos todos uma alegre celebração!







