Ser como o semeador, ser como o Samaritano

Nasci no dia 23 de dezembro de 1981 na Ilha de La Palma (Ilhas Canárias). Desde pequeno fui educado na fé cristã e quando tinha onze anos quis entrar no seminário. Meus pais discordaram, mas no final respeitaram minha decisão. Foi a partir desse momento que pude vivenciar como a vocação cresce no silêncio, no trabalho... e graças ao bom trabalho dos responsáveis pela nossa formação. Os momentos de dúvida e crise, principalmente quando eu tinha dezesseis anos, também foram uma ocasião para amadurecer e dar uma resposta mais convicta ao chamado de Deus.
Quando tinha dezenove anos, comecei a avaliar a ideia de ser missionário. As motivações subjacentes eram duas: sentia um interesse particular em dedicar a minha vida ao serviço dos mais necessitados na África e queria viver em comunidade (não gostava da ideia de viver só). Durante este período de discernimento, conheci os Missionários Xaverianos e em 2003 deixei o seminário diocesano para continuar minha formação com eles, primeiro em Madrid e depois na Itália.
Abraçar a família xaveriana permitiu-me chegar aos Camarões aos 25 anos de idade. Fiquei nove meses para fazer o período introdutório à missão e aprender francês. Em seguida, me destinaram para o Chade, onde cumpri um primeiro período de oito anos. Depois, estive em Roma por três anos para fazer estudos islâmicos e árabe. E em outubro do ano passado voltei ao Chade para fazer parte da nova comunidade que os Xaverianos abriram no norte do país, numa área que tem mais de 95% de muçulmanos.
A nossa missão neste país do Chade, baseia-se no anúncio da Palavra de Deus, no seguimento das comunidades de base (CEB´S), nas atividades sociais (escolas, internatos, centros culturais, bibliotecas, construção de poços...), no diálogo inter-religioso... O missionário não é um herói, é um homem como outro qualquer. Tentamos responder a Deus e trabalhar pelos mais necessitados da melhor maneira possível. Isso não significa que passamos por momentos de dificuldade e frustração. Em meio às dificuldades do caminho, é a fé que nos mantém na brecha. É Deus quem nos sustenta com sua Palavra e seu amor para continuarmos sendo instrumentos nas suas mãos.
Na África ainda existem muitas pessoas que nunca tiveram a oportunidade de ouvir a Palavra de Deus. Onde vivemos, a questão de saber se Deus existe não se planteia, é óbvia para todo mundo. Cabe a nós ser como o semeador da parábola. As pessoas têm muita sede de Deus! Também devemos ser como o samaritano que cuida dos mais fracos, que toca o sofrimento dos outros com as próprias mãos. É verdade que é mais fácil fazer como o sacerdote e o levita, fechar os olhos ao sofrimento do mundo. Mas, no fundo, sempre se sente que há mais felicidade em dar do que em receber.
Tenho um interesse particular no diálogo com irmãos de religião muçulmana. A Igreja fala de quatro tipos de diálogo: de vida, das obras, espiritual e teológico. Gosto de lembrar que não dialogamos com uma religião, mas com crentes de outra religião. Tudo começa com os relacionamentos diários.
Quando conseguirmos ter um amigo muçulmano, muitos preconceitos desaparecem e passamos a ver a outra religião de uma forma diferente. Tudo isso não significa que não haja dificuldades. Mas seguindo o exemplo de Jesus Cristo, que não teve medo de se aproximar daquele que era diferente (a samaritana, o leproso, o centurião romano...), também nós somos convidados a estender a mão ao nosso irmão que é diferente. Samuel Huntington fala de um choque de civilizações em nosso mundo hoje. Eu não gosto de expressão. Ignorância e medo estão na raiz de muitos de nossos mal-entendidos e mal-entendidos. Até certo ponto, podemos falar de um choque de ignorância. Como cristãos, temos duas tarefas muito importantes: criar pontes que nos unem e destruir as muros que nos dividem.
Para concluir, gostaria de convidar os jovens a terem um coração aberto aos mais necessitados. Muito pouco é dito sobre a África. E agora que estamos atolados na crise COVID19, podemos ser tentados a nos concentrar em nossos problemas internos, esquecendo o resto do mundo. O desejo de nosso fundador São Guido era fazer do mundo uma só família. Se você quer compartilhar este carisma com os xaverianos, não pense que a missão é só missão dos missionários. É tarefa de todos os cristãos preocuparmos dos que sofrem, dos que não acreditam, dos que são maltratados... Todos podemos trabalhar por um mundo mais justo. E vocês, jovens, são chamados no meio do mundo para serem atores e não espectadores.
Pe. Jesús Calero, sx







