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Vocação

A vida na África, entre desafios e esperanças


Após cinco anos na África, meu retorno para o Brasil será marcado pela preparação da minha ordenação sacerdotal que acontecerá no dia 26 de setembro na Paróquia São Guido Maria Conforti em Hortolândia-SP, região metropolitana de Campinas, pelas mãos de don Adolfo Zon Pereira, missionário xaveriano e bispo da diocese de Alto Solimões-AM. Será um momento forte na minha vida e na vida de todas as pessoas que acompanharam cada etapa da minha caminhada vocacional. Peço a todos que permaneçam unidos em oração para que eu me torne um Sacertode fiel e comprometido com o anúnicio do Evangelho de Jesus Cristo. E que a cada Eucarístia celebrada, me lembre sempre das palavras de Santa Tereza de Calcutá aos sacerdotes: “ Celebre cada Eucarístia como se fosse a primeira, a única e a última”.

chadÉ com muita alegria que partilho com vocês um pouco da minha experiência missionária na África depois de cinco anos. Cinco anos intensos convivendo com realidades encantadoras e desafiadoras no coração da África, nos países Camarões e Chade. Acredito que o sentimento mais puro e verdadeiro que trago no coração neste momento é sem dúvida o sentimento de gratidão, gratidão a Deus por ter me acompanhado em todos os momentos dessa bela e fascinante experiência missionária.

Cheguei nos Camarões em 2015 trazendo na minha mochila muito peso: minhas experiências pessoais, minhas convicções, minhas capacidades, minha visão de mundo, meus ideais e minhas motivações para lutar e construir um mundo melhor e mais humano. Acredito que toda essa bagagem seria o melhor que eu poderia ter trazido para ajudar, ou talvez o melhor que eu poderia dar de mim mesmo. Depois de um tempo, percebi que minha mochila estava muito pesada e era preciso esvaziá-la para continuar a tão bela e fascinante aventura de ser missinonário na África.

Olhando para minha mochila, tentando escolher o que tirar, optei primeiro pela minha visão de mundo. Percebi o quanto eu era apegado ao meu pequeno mundo, sendo incapaz de perceber a beleza que existia além dos muros desse pequeno mundo ou mesmo da minha zona de conforto. Em seguida, fui obrigado a tirar rapidamente da mochila minhas convicções, minhas experiências pessoais, minhas motivações, capacidades, etc. Enfim, aqui na África aprendi a dinâmica de “tirar as sandálias”. Todo o peso que eu carregava me impedia de entrar profundamente na cultura do outro, de acolhê-lo em sua alteridade. Descobri que minha bagagem alimentava somente minhas convicções e me distanciava daqueles pelos quais eu fui enviado.avila2

Em muitos momentos, existe a tentação de pensarmos que nossa presença é tão importante ao ponto de mudarmos as coisas facilmente esquecendo que tudo tem o seu tempo. É por isso que o primeiro passo é deixar tudo para trás e ter uma atitude de humildade, de simplicidade e acima de tudo não ter medo de reaprender. Depois de um tempo, descobri que não vim para ensinar, mas para aprender, não para impor minha visão de mundo, mas simplismente para enrriquecê-la trabalhando sempre em colaboração, na dinâmica do dar e receber. Nunca devemos esquecer que não passamos de simples colaboradores e não somos os grandes protagonistas da missão. A missão é de Deus e exige que os missionários se diminuam para que o Cristo continue crescendo e transformando o coração das pessoas.

Nos Camarões, onde morei por quatro anos e meio, vivi o período da descoberta e sem dúvida os grandes desafios. Foi o tempo de esvaziar a mochila e de enchê-la novamente com a riqueza das experiências vividas no meio de um povo que me marcou profundamete, sobretudo pela sua capacidade de acreditar e de sonhar com um mundo melhor. Foi também nos Camarões que descobri o que é viver em um país ameaçado pela guerra. Mesmo vivendo em uma região protegida, acompanhamos de perto o drama dos refugiados, os ataques do grupo Boko Haram e o conflito na região anglófona do país que continua matando inocentes e causando uma grande instabilidade política no país.

chad1Depois de quatro anos e meio vividos com muita intensidade nos Camarões, fui enviado para N’Djamena, capital do Chade, para realizar meu estágio diaconal durante quatro meses. A beleza do Chade sempre me encantou e fascinou de uma maneira muito particular, sobretudo a diverdidade de povos e culturas. A maior parte do território do Chade é coberto pelo deserto do Saara e a capital N’Djamena é o lugar de encontro de todos os povos que partilham um imenso território também rico do ponto de vista geográfico. De todos os povos, sempre fui encantado pelos nômades árabes que se deslocam pela região desértica do país. Por aqui, no território onde trabalhamos, encontramos com frequência caravanas de dromedários guiadas pelos pastores nômades. Um encanto!

O grande desafio que enfrentei em N’Djamena foi sem dúvida a pandemia Covid-19. Talvez o Chade esteja entre os países menos afetados pela pandemia no mundo, porém, o período de confinamento está provocando uma situação de pobreza extrema no país. As ajudas são poucas e, quando existem, não chegam aos que realmente precisam. Agora estamos no período das chuvas e do plantio. Com a proibição das viagens no interior do país no início da pandemia, o plantio começou com um pouco de atraso e o povo e o país sentirão as consequências no tempo da colheita. Tem sido uma dor imensa partilhar e acompanhar o sofrimento das famílias neste tempo de pandemia, sobretudo quando as crianças são as mais afetadas e vulneráveis.Couv Rhumsi 660x400

Foi no Chade que recebi minha admissão para a ordenação sacerdotal e a destinação para a missão no Burundi, um pequeno país da África que faz fronteira com a República Democrática do Congo, Ruanda e Tanzânia. Confesso que a destinação para o Burundi foi uma grande surpreza. Na verdade, eu tinha um grande desejo de voltar para o Brasil para trabalhar na animação missionária ou continuar minha missão no Chade onde estou muito bem adaptado e inserido. Porém, acolhi como uma graça de Deus essa nova destinação que não deixa de ser um novo desafio e um novo recomeço.

Para concluir, não posso deixar de agradecer a Deus por todas as maravilhas realizadas em minha vida durante os cinco anos vividos nos Camarões e no Chade. Sem dúvida uma experiência que enrriqueceu minha vida, meu jeito de olhar o mundo e amar as pessoas. Começo a viver agora o momento da despedida e do retorno para o Brasil. Retornar para o Brasil significa reencontrar os familiares e amigos, mas também partilhar com o povo de Deus a riqueza que trago na minha mochila: uma riqueza cheia amor, encontros, partilhas de vida... cheia de Deus.


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