Fazer do mundo uma só familia
Fazer do mundo uma só familia
Xaverianos
Xaverianos
Até onde vai a liberdade de expressão? Até que ponto pode ser considerada um direito inviolável? Podemos sem dúvida ampliar nossa consideração à liberdade individual em geral: a liberdade é realmente fazer e falar o que bem entendemos?
Vivemos em uma sociedade onde esse princípio é aclamado a torto e a direito como princípio fundamental quase absoluto, com a ressalva da liberdade pessoal terminar onde começa a liberdade do outro, ou seja, um sujeito não pode liberalmente atacar os direitos alheios, a honra, a imagem e a ordem democrática.
Sabemos quanto isso não é respeitado, e com quanta carga de agressividade as pessoas hoje ofendem, insultam, ameaçam, remetendo-se à liberdade de expressão e acusando a sociedade de censura, abuso, tirania, quando isso é denunciado e criminalizado.
Infelizmente, este é o comportamento de muitos cristãos em relação à política, às questões de gênero, aos pobres (!), às mulheres, aos indígenas, ao não alienamento com determinadas ideologias espiritualizantes, incentivadas por influenciadoras e influenciadores “católicos piedosos” até contra a Igreja, seus pastores e suas instituições. Passamos de todos os limites!
O que diz a Bíblia a respeito?
Paulo, na Carta aos Gálatas, chama a atenção da comunidade exatamente nesse ponto:
“Irmãos, vocês foram chamados para serem livres. Que essa liberdade, porém, não se torne desculpa para vocês viverem satisfazendo os instintos egoístas. Pelo contrário, disponham-se a serviço uns dos outros através do amor. Pois toda a Lei encontra a sua plenitude num só mandamento: «Ame o seu próximo como a si mesmo». (...) Por isso é que lhes digo: vivam segundo o Espírito (...) O fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, bondade, benevolência, fé, mansidão e domínio de si. Contra essas coisas não existe lei” (Gl 5,13-14.22-23).
O que nos diz Paulo com essas palavras? Em primeiro lugar, liberdade não é fazer o que se quer, mas viver segundo o Espírito. A pessoa que entende “liberdade” como fazer a própria vontade, na realidade é escrava dos próprios instintos egoístas: “fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, feitiçaria, ódio, discórdia, ciúme, ira, rivalidade, divisão, sectarismo, inveja, bebedeira, orgias e outras coisas semelhantes” (Gl 5,19-21). A liberdade não é fim a si mesma e não tem o próprio eu como centro de gravidade. A liberdade sempre impulsiona para fora, para um fim maior: a presença do verdadeiro Espírito de Deus em nós.
Em segundo lugar, a liberdade no Espírito não é contra a Lei, mas vai além da lei porque não está presa a Lei. É perfeitamente possível viver segundo a Lei e não amar, ser indiferente ao outro, não servir ao próximo, porque amar não é obrigação: amar é por sua natureza um ato livre e gratuito, movido pelo Espírito de Deus. Por isso, a vida cristã não é movida pela Lei, mas pelo impulso interior que chamamos amor. A Lei pela Lei não nos torna verdadeiramente livres, e sim escravos da Lei. Paulo insiste para que não nos tornemos escravos dos preceitos, das obrigações, das disciplinas excessivamente rigorosas que nos tornam pessoas tristes, sisudas e presuntuosas de ganhar a salvação pelos nossos merecimentos.
Em terceiro lugar, não podemos anunciar livremente a verdade do Evangelho contrariando a própria verdade com nossas atitudes desrespeitosas, agressivas, impositivas e disciplinadoras, como se fossemos os donos da própria verdade. Amar e respeitar as pessoas significa acolhê-las assim como são, com suas histórias, seus projetos de vida, sua visão de mundo. Respeitar não significa concordar, eventualmente manifestando certa desaprovação: mas também não significa tomar distância. O bom humor, a amabilidade, a proximidade, o “artesanato da paz” (Fratelli Tutti 231) deve caracterizar uma liberdade evangélica despojada de toda ambição, interesse, preconceito, e ao mesmo tempo carregada de autenticidade, de fidelidade e de esperança.





















