Fazer do mundo uma só familia
Fazer do mundo uma só familia
Xaverianos
Xaverianos
Vivemos um tempo de muitas palavras, muitas opiniões e incontáveis possibilidades de comunicação. Paradoxalmente, porém, nem sempre conseguimos nos encontrar verdadeiramente. Falamos muito, mas nem sempre escutamos. Defendemos nossos direitos, mas corremos o risco de esquecer nossas responsabilidades. Aproximamo-nos pelas tecnologias e, ao mesmo tempo, podemos permanecer distantes das pessoas, de suas dores, de suas culturas e de suas esperanças.
A edição deste mês da nossa revista nos convida justamente a percorrer outro caminho: sair de nós mesmos para encontrar o outro. A missão nasce desse movimento.
São Paulo recorda que fomos chamados à liberdade, mas uma liberdade que encontra sua plenitude no amor e no serviço. A liberdade cristã não nos autoriza a ferir, excluir ou desprezar. Ao contrário, torna-nos capazes de sair do fechamento em nós mesmos para construir relações marcadas pela mansidão, pelo respeito, pela paz e pela misericórdia. Em tempos de polarizações e agressividade, também entre cristãos, precisamos reaprender a força evangélica da palavra que aproxima em vez de ferir.
Esse mesmo movimento de saída aparece quando dirigimos nosso olhar para a Amazônia. “Amazonizar-se” significa muito mais do que conhecer uma região geográfica. Significa aprender com os povos, com os rios, com a floresta e com outras maneiras de compreender a relação entre o ser humano, a comunidade e a criação. É também deixar-se interpelar pelo sofrimento dos povos originários. Os números da violência, apresentados nesta edição, não podem permanecer apenas como estatísticas: por trás de cada número existem pessoas, famílias, culturas, territórios e histórias ameaçadas.
A missão exige olhos capazes de contemplar e um coração capaz de se deixar tocar.
Também por isso atravessamos, nestas páginas, fronteiras culturais e religiosas e chegamos a Taiwan, onde diferentes tradições espirituais convivem e expressam a busca humana pelo transcendente. Para nós, missionários, conhecer o outro não significa abandonar a nossa identidade. Ao contrário: uma identidade cristã e missionária madura não teme o encontro. Escuta, dialoga, discerne e testemunha.
É justamente aí que a catolicidade da Igreja revela toda a sua beleza. Ser católico significa ser universal. O Evangelho não pertence a uma cultura, a uma língua ou a uma única maneira de rezar. Ele pode ressoar sob as abóbadas de uma catedral europeia e também ao ritmo dos tambores africanos. A missão não consiste em reproduzir em todos os lugares a nossa maneira de viver a fé, mas em permitir que Jesus Cristo encontre cada povo dentro de sua história e de sua cultura.
Para nós, Xaverianos, esse desafio toca diretamente o carisma que recebemos. A reflexão sobre nossas Constituições recorda algo precioso: o dom concedido por Deus a São Guido Maria Conforti não pertence somente a nós. É um dom recebido para ser colocado a serviço da Igreja e da humanidade. E o princípio da subsidiariedade, presente em nossas Constituições, nos recorda que cada pessoa e cada comunidade devem encontrar espaço para assumir responsabilidades, participar e oferecer seus próprios dons.
Uma comunidade missionária não cresce quando poucos fazem tudo, mas quando cada pessoa é ajudada a florescer e colocar seus dons a serviço do bem comum.
Isso vale também para a questão vocacional. Neste mês em que acontece o 5º Congresso Vocacional do Brasil, somos convidados a perguntar não somente onde estão as novas vocações, mas também: que tipo de comunidades estamos construindo para acolhê-las? Uma comunidade fraterna, alegre, missionária e capaz de testemunhar a beleza de sua vocação torna-se naturalmente uma comunidade vocacional. O Senhor continua chamando; cabe-nos semear, acompanhar, discernir e ter coragem de acreditar nos jovens e caminhar com eles.
Talvez todas essas reflexões possam ser reunidas em uma pergunta simples, que também encontramos nesta edição: “O que posso fazer?”.
É a pergunta de quem não quer permanecer indiferente.
Diante da violência: o que posso fazer?
Diante de alguém que sofre: o que posso fazer?
Diante dos povos ameaçados: o que posso fazer?
Diante da crise ambiental: o que posso fazer?
Diante de uma vocação que precisa ser acompanhada: o que posso fazer?
Diante de uma comunidade que necessita de mim: o que posso fazer?
É a pergunta do Bom Samaritano. Ele não resolveu todos os problemas existentes no caminho entre Jerusalém e Jericó. Mas encontrou um homem ferido e não passou adiante. Viu, aproximou-se e cuidou. A solidariedade começa quando permitimos que a realidade do outro interrompa nossa indiferença e tenha importância para nós.
Talvez seja também uma das definições mais simples e belas da missão.
Ser missionário é aproximar-se.
Aproximar-se de Deus, aproximar-se das pessoas, aproximar-se dos pobres, aproximar-se das culturas, aproximar-se daqueles que pensam diferente de nós, aproximar-se da criação ferida e aproximar-se daqueles que perderam a esperança.
Neste mês, deixemos que as páginas desta revista nos ajudem a fazer esse movimento.
Que nossa liberdade se transforme em serviço; nossa fé, em encontro; nossa vocação, em testemunho; nossa solidariedade, em compromisso; e nosso carisma missionário, em disponibilidade para atravessar todas as fronteiras.
Porque a missão começa quando deixamos de perguntar apenas “o que o outro deveria fazer? ” e temos a coragem de perguntar: “E eu, o que posso fazer?”
Boa leitura!





















