Mensagem final do Congresso sobre o rosto humano do Xaveriano: o meu coração repete o teu convite

PARMA, Casa Madre, 28 de junho de 2026 «O meu coração repete o teu convite: “Buscai o meu rosto!”. O teu rosto, Senhor, eu busco» (Salmo 27, 8).
Caríssimos confrades xaverianos e todos vós que partilhais connosco a vocação missionária na família carismática de São Guido Maria Conforti, ao termo destes dez dias de Congresso sobre o rosto humano do Xaveriano, desejamos chegar a vós com uma saudação fraterna e partilhar convosco através desta mensagem o fruto do que vivemos.
Chegámos a Parma das nossas diferentes missões, trazendo connosco histórias, línguas, culturas, idades e sensibilidades diferentes. Alguns já se conheciam, outros encontraram-se pela primeira vez. E no entanto, desde os primeiros momentos, redescobrimo-nos parte de uma única família, acolhidos na Casa Madre, esse seio que deu vida à missão do nosso Instituto.
Escutámos as vozes de confrades, leigos e irmãs provenientes de diferentes continentes; percorremos histórias de fidelidade, de fragilidade, de dedicação e de esperança; fizemos memória de homens e mulheres que, com a concretude da sua vida, tornaram visível o rosto humano do missionário xaveriano sonhado por São Guido Maria Conforti.
Mais do que procurar uma definição, aprendemos a reconhecer um rosto: uma humanidade que se deixa plasmar pelo Evangelho e que, precisamente por isso, se torna sinal credível da missão.
E enquanto desfilavam diante de nós tantos nomes, tantas histórias e tantos testemunhos, compreendemos que o mosaico não estaria completo sem os rostos daqueles que hoje leem estas linhas.
O meu rosto
O meu rosto é antes de mais um rosto a reconhecer, antes mesmo de ser mostrado. Nestes dias aprendemos que a afetividade não é um luxo nem um risco para a vida consagrada, mas a dimensão que atravessa cada gesto, mesmo de quem se julga “insensível”: uma humanidade que não sente é uma humanidade muda. Reconhecer-se significa ter uma boa relação consigo mesmo, saber que cada um é a única pessoa que permanecerá consigo até ao fim, e dar nome aos próprios sentimentos em vez de ficar analfabeto deles.
Significa também fazer as contas com as próprias pedras: a autossuficiência, a desvalorização, o vitimismo, o narcisismo, o hábito do “sempre se fez assim”. Não se trata de as eliminar, mas de as ver: o importante não é se estão lá, mas se as reconheço.
É um rosto que carrega os sinais das próprias fragilidades, da idade que avança, da doença, da solidão, e que precisamente nisso encontra a coragem de pedir ajuda, sabendo que ninguém é autossuficiente nem autorreferencial. É um rosto que precisa de tempo para si, de silêncio, de cuidado, porque só um coração liberto pode verdadeiramente encontrar o outro.
O rosto de Cristo
O rosto de Cristo é o rosto de quem vem entre os seus e nem sempre é acolhido, e no entanto não cessa de se fazer próximo. Jesus nasce “desconhecido” segundo as lógicas do mundo, filho da gratuidade de uma mulher antes que de uma descendência, e por isso abre para nós uma paternidade e uma família diferentes das que esperaríamos.
Vemo-lo chorar diante do túmulo de Lázaro, porque nada é mais humano do que as lágrimas; vemo-lo parar no poço com a Samaritana e deixar-se por sua vez revelar por ela, que se torna a primeira missionária.
Vemo-lo, na última ceia, experimentar a solidão no meio dos seus, e precisamente aí dizer: “entre vós não seja assim”, cingindo o avental como aquele que serve.
Na cruz sente no seu corpo a dor do outro, e no momento de maior fraqueza constrói uma família nova à sua volta, a mãe e o discípulo amado. Olhar para Ele, e deixar-nos olhar por Ele, permanece o ponto de partida de cada um dos nossos rostos humanos. Este rosto não ficou fechado num tempo longínquo: continuou a configurar-se nos rostos de quem, contemplando-o, se deixou plasmar por Ele.
Aconteceu no nosso Fundador, que em criança diante de um crucifixo experimentou um olhar que o precedia e o chamava, e desse olhar aprendeu a não ter mais medo de si mesmo e a abraçar o audaz projeto.
Aconteceu em muitos confrades que recordámos nestes dias: homens concretos, com os seus limites, que não procuraram o palco mas souberam ser construtores de pontes mais do que protagonistas, capazes de entrar numa cultura sem a colonizar, de servir sem exigir reconhecimento. Em cada um deles a fidelidade a Cristo não produziu um rosto uniforme, mas um rosto diferente e reconhecível, porque a santidade não é uma esfera polida mas um poliedro de mil faces.
E aconteceu também em quem viveu a fragilidade da doença, da velhice, da incompreensão, permanecendo fiel de qualquer maneira: porque contemplar o rosto de Cristo não significa imitar uma imagem perfeita dele, mas deixar-se atravessar pela mesma misericórdia que Ele teve por nós, até nos tornarmos, por nossa vez, um reflexo credível dela para quem encontramos.
O rosto do outro
O rosto do outro é sempre maior do que conseguimos compreender: é infinito, não se deixa reduzir às nossas categorias. O mandamento escrito em cada rosto é simples e radical: não me mates, não me feches nos teus esquemas, não faças de mim um número. É um rosto que nos interroga antes mesmo de o interrogarmos, porque o outro é sempre, de alguma maneira, o nosso senhor: somos responsáveis por ele antes mesmo de o termos decidido.
Do ponto de vista missionário isto significa que uma cultura, um povo, um confrade são sempre maiores do que a nossa compreensão deles; por isso Conforti nos deixou uma oração que permanece atual: “olha, Senhor, tantos irmãos”, uma oração pelos “irmãos distantes” que ainda não conhecemos.
É um rosto que se revela apenas na proximidade concreta, na partilha das refeições, nas visitas às famílias, naquela simplicidade que sabe temperar a frieza e aquecer-se com as pequenas coisas.
E para que o rosto do outro permaneça real, e não se dissolva na era digital onde tudo parece estar em todo o lado e não ser de ninguém, precisamos de nos encontrar em carne e osso, num lugar e num tempo partilhados. Só assim o rosto permanece o que é: não uma ideia que fazemos do outro, mas uma pessoa livre, que nos surpreende e nos pede que a sirvamos.
Para não concluir
O rosto humano do Xaveriano não é uma meta alcançada de uma vez para sempre, mas um caminho que se renova cada dia: no meu rosto a reconhecer e custodiar, no rosto de Cristo a contemplar e deixar configurar em nós, no rosto do outro a acolher como dom e não como ameaça.
E este é o nosso caminho de santidade: redescobrimos que a nossa humanidade caminhará sempre junto com a nossa fé. O que é humano em nós é tornado mais pleno pelo Espírito, e o que é espiritual toma corpo precisamente na nossa humanidade, num vínculo que não se pode desfazer.
É daqui que nasce a mudança que desejamos levar para casa: não um programa a aplicar aos outros, mas um trabalho que começa em cada um de nós, na sensibilidade ao que vivemos cada dia e ao que, em nós, ainda resiste a esta imagem curada.
«Temos o dever urgente de permanecer profundamente humanos, guardando com amor essa magnífica humanidade que nos foi dada e mostrada na sua plenitude em Cristo» (Magnifica Humanitas, 15). Este é o dever que sentimos de levar para casa, para as nossas comunidades e as nossas missões: não uma humanidade perfeita, mas verdadeira.
Confiamos então este caminho e estes dias vividos juntos às palavras do Salmo: «Deus tenha misericórdia de nós e nos abençoe, sobre nós faça resplandecer o seu rosto; para que se conheça na terra o teu caminho, a tua salvação entre todos os povos» (Salmo 67, 2-3).
Que o rosto de Deus, resplandecendo sobre nós, nos torne capazes de nos fazermos por nossa vez rosto credível do Evangelho para os irmãos e as irmãs que encontramos, próximos e distantes. Seja por todos conhecido e amado o nosso Senhor Jesus Cristo,
Os participantes no Congresso sobre o Rosto Humano do Xaveriano 2026








