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Fazer do mundo uma só familia

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Xaverianos

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Revista Digital N. 9 outubro 2026

Valores

Escutar antes de responder

  • Pe. René Casillas s.x.
  • 109 visualizações

No grupo de WhatsApp da família, uma notícia vira discussão. As mensagens endurecem, ninguém lê o outro até o fim e todos só esperam a vez de responder. Até que alguém sai do grupo. Escreveram muito, mas não conversaram. Cenas assim são comuns. Nunca tivemos tantos meios de comunicação e, mesmo assim, temos dificuldade de criar uma relação verdadeira com o outro. Comunicar pode ser apenas passar uma informação; dialogar é entrar em relação com alguém. Por isso o diálogo é mais do que uma habilidade: é um valor humano, uma forma de reconhecer o outro que o nosso tempo precisa reaprender.

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E tudo começa quando reconhecemos que há alguém diante de nós. O outro não está ali só para ouvir o que temos a dizer ou para concordar com as nossas ideias. É uma pessoa, com uma história, com sentimentos, valores e um jeito próprio de entender a vida. Dialogar exige, antes de tudo, respeito pela sua dignidade. O filósofo judeu Martin Buber ajuda a compreender isso. No livro “Eu e Tu”, ele mostra que podemos tratar alguém como um objeto, algo que classificamos, julgamos ou usamos conforme os nossos interesses, ou encontrá-lo como um “Tu”, isto é, como pessoa. Só no segundo caso nasce uma relação autêntica. Para Buber, a vida verdadeira acontece no encontro (BUBER, 1977), e o diálogo é justamente esse encontro entre pessoas.

Esse encontro fica mais delicado quando o outro vem de uma cultura diferente da nossa. Cada povo tem a sua maneira de dar sentido às coisas: aos gestos, às palavras, às festas, até ao silêncio. E cada pessoa olha o mundo a partir da sua cultura e da sua história. Com alguém de outra cultura, não basta expor as nossas ideias. É preciso procurar entender o que as coisas significam para ele. Quando fazemos esse esforço, os preconceitos começam a cair e descobrimos outras formas de viver e de enxergar a realidade.

Isso pede humildade. Ninguém tem sozinho todas as respostas. Dialogar não obriga ninguém a abrir mão das próprias convicções, mas ajuda a reconhecer que a nossa compreensão é limitada e pode crescer no encontro com os outros. Podemos continuar pensando de modo diferente e, ao mesmo tempo, respeitar quem pensa de outra forma. A diferença não precisa virar divisão.

A fé cristã dá a essa atitude uma raiz ainda mais profunda. O Concílio Vaticano II lembra que as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias das pessoas de hoje, sobretudo dos pobres e dos que sofrem, são também as dos discípulos de Cristo (CONCÍLIO VATICANO II, 1965, n. 1). É a imagem de uma Igreja que caminha perto das pessoas e da sua vida concreta. Essa proximidade nasce da escuta. Só quem conhece as perguntas das pessoas pode oferecer respostas, e só quem ouve os que vivem uma realidade pode falar dela.

A psicologia chega a uma conclusão parecida. Carl Rogers, psicólogo norte-americano conhecido pela sua abordagem centrada na pessoa, mostrou como a empatia, a autenticidade e a aceitação fazem as relações humanas crescerem (ROGERS, 1977). Ter empatia é tentar ver a situação com os olhos do outro. Isso não significa concordar com tudo o que ele pensa ou faz, mas procurar entender o que ele vive e sente. Escutando assim, deixamos de ouvir apenas palavras e começamos a perceber a pessoa que está por trás delas.

Na prática, porém, nem sempre escutamos desse jeito. Muitas vezes ouvimos alguém só esperando a nossa vez de falar. Enquanto o outro fala, já estamos preparando a resposta, a crítica ou o argumento. Estamos ali, mas não estamos escutando. Escutar de verdade é deixar que a palavra do outro chegue até nós.

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A Bíblia diz isso de forma simples e profunda: “cada um seja pronto para ouvir, mas lento para falar, e lento para ficar com raiva” ( Tg 1,19). É uma pequena escola de diálogo: primeiro ouvir, depois falar, e não deixar que a raiva escolha as palavras por nós. O conselho não poderia ser mais atual, porque vivemos na cultura da pressa. Recebemos uma mensagem e queremos responder na hora; lemos uma notícia e logo formamos opinião; ouvimos uma frase solta e reagimos sem conhecer o contexto. O diálogo, ao contrário, pede uma pausa. Antes de julgar, vale perguntar: “O que essa pessoa quis realmente dizer?”. Muitas vezes, uma simples pergunta evita o conflito que uma conclusão apressada provocaria.

Escutar com atenção, no entanto, não quer dizer concordar sempre. A discordância faz parte da vida. Ela aparece nas famílias, nas comunidades, entre culturas e religiões. O problema não é a diferença, e sim a dificuldade de conviver com ela. O importante é não confundir discordância com desrespeito. Posso dizer “não concordo com você” sem dizer “você não merece ser ouvido”. Posso defender as minhas convicções sem transformar quem pensa diferente em inimigo. Assim, cada um continua sendo quem é e, ao mesmo tempo, reconhece a dignidade do outro.

Quando aprendemos a discordar sem ferir, o diálogo se torna caminho de paz. Os conflitos sempre farão parte das relações humanas; a paz nasce quando somos capazes de enfrentá-los sem romper os laços. Uma conversa sincera pode desfazer mal-entendidos, dar nome ao que sentimos e abrir caminhos de convivência. Dialogar é, portanto, assumir a responsabilidade pelo modo como usamos a palavra.

Essa responsabilidade é ainda maior no mundo digital, onde uma frase chega a muitas pessoas em poucos segundos, uma interpretação errada se espalha depressa e uma resposta impulsiva pode abrir feridas difíceis de curar. Vale a pena respirar, perguntar e verificar, em vez de reagir ou compartilhar no impulso.

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Tudo se resume, então, a abrir espaço para o outro. Quem escuta com atenção mostra que a experiência do outro importa. Quem procura compreender antes de julgar respeita a sua dignidade. E quem discorda sem desrespeitar lembra que as nossas diferenças não apagam a humanidade que temos em comum. A filosofia, a psicologia e a fé apontam para o mesmo lugar: o diálogo é um valor, e como todo valor se aprende praticando, no dia a dia, até se tornar um modo de viver.

Num tempo marcado por divisões, pressa e excesso de opiniões, cultivar esse valor se torna urgente. E isso pode começar em lugares bem simples. Talvez naquele mesmo grupo da família, no dia em que alguém, em vez de rebater, escrever: “O que você quis dizer?”. No fundo, dialogar é dizer ao outro: “Você é importante o bastante para ser ouvido”. É disso que a nossa sociedade mais precisa: de pessoas dispostas a escutar tanto quanto falam, e a construir juntas uma convivência mais respeitosa, fraterna e humana.