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Revista Digital N. 6 abril 2026

Valores

A justiça como valor do nosso tempo

  • Pe. René Casillas s.x.
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A justiça é uma das virtudes mais fundamentais da existência humana. Foi o jurista romano Ulpiano, no século III d.C., quem a sintetizou na fórmula que atravessa os séculos: dar a cada um o que lhe é devido. Mas foi Aristóteles, na Ética a Nicômaco, quem a sistematizou com rigor filosófico, distinguindo dois tipos: a justiça distributiva, que regula como os bens devem ser repartidos proporcionalmente entre os membros da comunidade; e a justiça corretiva, que repara os desequilíbrios gerados por ações injustas, restaurando a igualdade perturbada.

John Rawls, em seu livro Uma Teoria da Justiça (1971), propôs que uma sociedade é justa quando as suas regras seriam escolhidas por pessoas colocadas atrás de um "véu da ignorância", sem saberem que posição ocupariam nela. Esse critério revela que a justiça genuína exige imparcialidade absoluta e respeito pela dignidade de cada ser humano.20av

Do início ao fim, a Bíblia é atravessada pelo clamor por justiça. No capítulo três do livro dos Reis, o rei Salomão recebe duas mulheres que disputam a maternidade de um recém-nascido. Sem provas, nem testemunhas, ordena que a criança seja dividida ao meio. A mãe verdadeira renuncia ao filho para preservar a vida dele; a outra aceita a divisão com indiferença. Pela resposta do coração, e não pela letra da lei, Salomão reconhece a mãe legítima e faz justiça. Esse episódio mostra que a sabedoria bíblica entende a justiça como discernimento moral profundo, e não como mera aplicação de normas. Os profetas reforçam essa visão: Amós denuncia a opressão dos pobres e a corrupção dos tribunais (Am 5,24), e Isaías proclama que fazer justiça ao órfão e defender a viúva é condição para agradar a Deus (Is 1,17). Na tradição hebraica, a justiça não é apenas uma virtude é mandamento sagrado.

A ciência confirma que o senso de justiça está profundamente enraizado na própria biologia humana. Kiley Hamlin, Karen Wynn e Paul Bloom, investigadores de Yale, demonstraram em estudo publicado na Nature (2007) que bebês de seis a dez meses já preferem agentes que ajudam a agentes que prejudicam. Jean Piaget, em O Juízo Moral na Criança (1932), mostrou que o desenvolvimento moral evolui da moral heterônoma na qual a criança julga os atos pela magnitude do dano e pela autoridade, para a moral autônoma, que considera as intenções e o contexto. Lawrence Kohlberg aprofundou essa teoria descrevendo seis estágios do raciocínio moral, do medo da punição até princípios éticos universais. Na antropologia, toda a sociedade humana conhecida desenvolveu alguma forma de justiça, sugerindo que regular conflitos é uma constante da condição humana, anterior ao Estado e às leis escritas.

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No mundo contemporâneo, a justiça enfrenta desafios inéditos. A globalização gerou desigualdades que escapam aos sistemas jurídicos nacionais e a tecnologia levanta questões urgentes sobre vigilância e discriminação algorítmica. Nos tribunais, persistem disparidades raciais, econômicas e de gênero que contradizem o princípio da igualdade perante a lei. Os movimentos sociais dos direitos civis à luta antirracista são reivindicações de justiça, lembrando que as leis podem existir no papel sem se concretizar na vida real. Surge também a noção de justiça climática: as comunidades mais pobres suportam as consequências mais graves de uma crise causada pelos mais ricos. A justiça do século XXI exige não apenas tribunais eficientes, mas também estruturas que garantam a cada ser humano o que lhe é devido — não só perante a lei, mas perante a própria dignidade humana.