Fazer do mundo uma só familia
Fazer do mundo uma só familia
Xaverianos
Xaverianos
No sábado passado deixei o Brasil, ao fim das minhas férias, para voltar à Itália. Foi a sexta vez que atravessei o portão de embarque de Guarulhos deixando para trás minha família, meus amigos e minha terra natal. Embora o ritual já tenha se repetido tantas vezes, não consigo me acostumar. É sempre um desafio deixar tudo para seguir o chamado do Senhor.
Hoje, porém, vejo esse momento como o sinal mais forte da minha consagração missionária. Como xaveriano, não apenas assumo o mundo como minha família e os outros povos como meus irmãos: também deixo para trás aquilo que já conheço para abraçar a itinerância do missionário. Vivida com amor profundo, essa partida nos faz participar do mistério da redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo. É o que afirma o principal documento dos xaverianos: “A saída, vivida como acontecimento pascal de uma vida que se deixa e de uma nova vida que começa, torna-se em si mesma parte do mistério da salvação para o mundo” (Constituições, 19).
Minha vocação xaveriana começou justamente com uma curiosidade: eu queria entender por que alguns brasileiros ofereciam a vida pela missão além-fronteiras. Foi essa saída missionária que mais me chamou a atenção quando li sobre os xaverianos pela primeira vez. No início, nunca me imaginei missionário, muito menos vivendo fora do Brasil. Mas, pouco a pouco, escutando as histórias dos xaverianos e aprofundando o carisma missionário, senti-me chamado para o mesmo caminho. E ainda hoje me faço uma pergunta: se de fato acreditamos que Jesus é o maior presente que recebemos, e se tantas pessoas ainda não o conhecem porque faltam missionários, por que as vocações missionárias são tão poucas?
Entrei cedo para os xaverianos, ainda não tinha 17 anos. Passei por todas as etapas da formação de base no Brasil (Londrina, Curitiba e Hortolândia) e depois fui enviado para Camarões. Foi naquele país africano que aprendi minha primeira língua estrangeira, que me senti estrangeiro pela primeira vez e que vivi com pessoas de outros países: éramos mais de dez nacionalidades na mesma comunidade. E uma só era a nossa força: estávamos todos ali por uma pessoa, Cristo, e por uma missão, a Dele, de espalhar o Seu amor.
Quando saímos do nosso país, pensamos que vamos levar Jesus às pessoas, mas logo descobrimos que Ele já está lá, vivo e atuante no coração da humanidade. Na África, tanto em Camarões quanto no Chade, encontrei uma Igreja viva, animada, sedenta de Deus e da Sua presença. A simplicidade da vida, a alegria dos encontros, a liturgia festiva e o espírito de acolhida me ensinaram muito nesses anos. Fui estrangeiro, mas ao mesmo tempo irmão, pai e filho de pessoas que amei e que me amaram.
Sempre sofri ao deixar o Brasil, mas sofri também quando os superiores me pediram para deixar o Chade e vir estudar na Itália. Não foi fácil me despedir de um povo que, durante anos, me ensinou a dar os primeiros passos como sacerdote missionário. Mas isso também é missão. Hoje estou na Itália, estudando para servir melhor às nossas missões e ajudando a Família Xaveriana neste país que viu nascer os Missionários Xaverianos.
Por isso, cada vez que passo por aquele portão de embarque, não levo comigo apenas a saudade. Levo também os rostos, as orações e o carinho de tanta gente que, no Brasil, me sustenta nesta caminhada. Aprendi que partir não é perder, mas confiar: entregar nas mãos de Deus aquilo que amamos e acolher o que Ele nos prepara do outro lado. É assim que, passo a passo, tentamos realizar o sonho do nosso fundador, São Guido Maria Conforti, de fazer do mundo uma só família.
Agradeço de coração aos meus confrades xaverianos que trabalham no Brasil, à minha família, aos amigos e às comunidades que me acolheram nestas férias. E deixo um pedido: rezem pelas vocações missionárias. Que muitos jovens brasileiros tenham a coragem de escutar o chamado e de atravessar, eles também, o seu portão de embarque. O Senhor continua chamando.






















