Fazer do mundo uma só familia
Fazer do mundo uma só familia
Xaverianos
Xaverianos
Alguns confrades diriam "Providência". Não sei! Certamente é uma coincidência interessante e agradável.
No dia em que o presbitério da Arquidiocese de Campinas estava reunido para tomar conhecimento das “Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2026-2032”, chegou a transportadora trazendo-me o pequeno escrito: “A missão se converte”, impresso pela gráfica Pallotti.
Coincidência, pois em sua primeira página as diretrizes rezam:
“A missão dada por Jesus Cristo aos apóstolos é anunciar o Evangelho. A Igreja existe para proclamar o Evangelho do Filho de Deus e, por meio dele, gerar a obediência da fé em todos os povos” (DG 1).
A seguir, acrescenta que Jesus é o “grande missionário do Pai” (DG 2) e, finalmente, declara “a necessidade de promover a fraternidade e a amizade social” (DG 6).
Acredito que temos o direito de dizer que navegamos em águas xaverianas, às vezes semelhantes até na terminologia. Leio ainda:
“A nova realidade nos chama a rever os métodos de anúncio da Boa Nova, de transmissão da fé e de fortalecimento do senso de pertença à comunidade eclesial” (DG 7).
Rever os métodos!
As diretrizes descrevem a Igreja com a imagem da tenda que deve ser armada “no tempo presente” (DG 104); fora da simbologia, a Igreja, Povo de Deus, está sempre a caminho de conversão. À conversão as diretrizes consagram o capítulo VI: Compromissos sinodais.
Quais os compromissos?
Conversão pessoal (DG 162), conversão pastoral e integral (DG 163), conversão comunitária (DG 164). Seguem três longos números desenvolvendo o tema da conversão em três itinerários: das relações, dos processos e dos vínculos.
“A missão se converte” é o título do pequeno texto que acabo de editar. O conteúdo não é do Pe. Alfiero, que somente tentou balbuciar algo sobre o tesouro de espiritualidade missionária escondido na vida e na doutrina confortiana. O capítulo geral em Bukavu define a espiritualidade xaveriana como “carisma que pertence a toda a Igreja” (47). Verdade que vejo confirmada na harmonia entre o caminho evangelizador da Igreja no Brasil e os textos confortianos.
No coração das diretrizes encontramos o capítulo IV: Povo de Deus em missão. Por três vezes (DG 66-67) alega-se:
“A Igreja é mistério que nasce no coração da Santíssima Trindade. Ela se fundamenta no desígnio amoroso do Pai, na missão do Filho e na efusão do Espírito Santo... A missão brota do próprio coração da Trindade, de onde o Pai envia o Filho e, com Ele, derrama o Espírito sobre a Igreja. Nessa dinâmica de amor e envio, a Igreja encontra sua identidade e razão de existir”.
Posso, com toda razão, meditar o texto dos Bispos do Brasil com o pensamento confortiano, tendo-o guardado ao menos por quatro anos em meu computador. Passo a ler uma página do livreto (p. 46):
O santo (Guido) descobre a realidade evangélica que nós, cem anos depois, mal conseguimos perceber.
Mesmo quando necessariamente empregava a terminologia de seu tempo — uma linguagem consolidada, uma linguagem teológica tendo por base a doutrina de São Tomás —, nosso Fundador exprimia seu carisma pedindo aos xaverianos que fossem “consagrados” e não “regulares”. As Constituições de 1983 captaram com precisão o âmago do pensamento do Fundador quando definiram os xaverianos como:
Homens chamados a consagrar a Deus suas vidas pelo mesmo ideal (do Bispo Conforti) (C83 1).
A missão nasce do coração amoroso da Trindade. São Guido meditou várias vezes esse tema e também o propôs a seu povo para meditação. Em Parma, o Bispo se repete, mas vale a pena meditar mais uma vez:
“Sim, Ele é Pai ab aeterno, a fonte do ser, o grande vivente, fonte da vida; de modo inefável e necessário, transmite imediatamente o próprio ser, a própria vida ao seu Verbo semelhante e consubstancial a Ele e, neste sentido, somente Ele é Pai. Neste sentido, Ele pode dizer ao Verbo: 'Tu és o meu filho, do meu seio Eu te gerei, antes que a luz existisse'. E, por sua vez, o Verbo encarnado pode verdadeiramente dizer a todas as gerações humanas: 'Quem me vê, vê meu Pai, que me enviou, porque o Pai está em mim e eu d'Ele'”.
Portanto, aqui há uma comunicação “inefável e necessária”, uma fonte da qual jorra o amor que se derrama sobre o Verbo, o qual, por sua vez, como que para dar continuidade a esta cachoeira de amor, torna-se história humana concreta em Nazaré — seu local histórico-geográfico, momento de sua manifestação:
Eis que venho para fazer a tua vontade (Hb 10,7-9).
Por sua vez, o Verbo feito “nosso irmão segundo a carne” nos envia:
“Consagra-os com a verdade: a tua palavra é a verdade. Assim como tu me enviaste ao mundo, eu também os enviei ao mundo” (Jo 17,17-18).
“A paz esteja com vocês. Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês” (Jo 20,21).
A missão, de acordo com São Guido, tem seu ponto de partida aos pés da cruz, lá onde explode a glória do amor trinitário. Na cruz, onde o Verbo humanado “esvaziou-se a si mesmo”, como o Pai “de modo inefável e necessário transmite imediatamente o próprio ser, a própria vida ao seu Verbo semelhante e consubstancial a Ele” (cf. Fl 2,7). Na contemplação do Crucificado nós aprendemos o seu nome: “Eu sou” (Jo 8,28). O envio vem do Crucificado; São Guido o repete muitas vezes e com expressão quase plástica, teatral: Ele vos indica! O Crucificado parece retirar sua mão da cruz para apontar, com o dedo indicador, o mundo dos não cristãos.
“Porém, o Missionário é a personificação mais bela e sublime da vida ideal. Em espírito, ele contemplou a Jesus Cristo, que indica aos Apóstolos o mundo a ser conquistado pelo Evangelho, não com a força das armas, mas com a persuasão, ficando por Ele arrebatado” (DP 12).
“E hoje, o Senhor vos diz claramente aquilo que deseja de vós e vos indica o campo que vos entrega para desbravar. A vossa missão e o vosso programa de ação estão resumidos, claramente, no Crucifixo que vos entreguei e que vós, com transportes de santa alegria, colocastes no coração. A mim parece que, desta adorável imagem, Ele dirige a vós aquelas palavras que, 19 séculos atrás, dirigiu aos Apóstolos e às multidões como prova da divindade de sua missão: 'Quando eu for elevado da terra, sobre a cruz, atrairei a mim todas as pessoas'. Nestas palavras está resumido o objetivo de sua missão e o segredo de suas vitórias.
E a missão de Cristo é a vossa missão; o segredo de suas vitórias deve ser, pois, o segredo de vossos sucessos: a cruz, o sacrifício de vós mesmos” (DP 16).





















