Fazer do mundo uma só familia
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Xaverianos
Xaverianos
O dia 12 de outubro de 2026 é um dia muito especial em muitas comunidades do mundo inteiro. Na Espanha, celebra-se a “Virgem do Pilar”; no Brasil, a “Virgem Aparecida” e a “Virgem de Nazaré” … e no ocidente do México celebra-se a “Virgem de Zapopan”.
Muitos povos têm grande devoção à Virgem Maria, pois Nossa Senhora acompanha cada povo em sua caminhada rumo a Jesus. Cada povo a venera fazendo sua a frase do salmo que o papa Bento XIV pronunciou em 1754, ao contemplar a preciosa imagem da Virgem de Guadalupe através de uma cópia fiel do original: “Não fez nada semelhante com nenhuma outra nação” (Sal 147).
“A religiosidade ou piedade popular” é uma espiritualidade própria dos povos, e mais propriamente dos povos latino-americanos, herdada em parte da Espanha através dos primeiros missionários que compartilharam sua fé em Jesus e em sua Palavra; tesouro de que cada povo se apropriou segundo sua cultura e sua situação histórica. Assim o expressam os bispos latino-americanos no documento de Aparecida: “A religiosidade popular é o precioso tesouro da Igreja Católica na América Latina. Somos convidados como Igreja a promovê-la e protegê-la, pois ela reflete uma sede de Deus que só os pobres e simples podem conhecer… pois ela penetra delicadamente a existência pessoal de cada fiel, não é uma espiritualidade de massas, mas do coração dos nossos povos” (DA 258-275).
Como missionário xaveriano, dou graças a Deus por tantas e tantas experiências pastorais belas que tive o privilégio de viver e sentir da religiosidade popular como sacerdote missionário, constatando o que nos diz o documento de Aparecida, pois não são palavras bonitas ou belos discursos, mas uma realidade que alimenta a religiosidade e a fé do nosso povo humilde e simples. Como diz Jesus no Evangelho: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste à gente simples” (Mt 11,25).
Desde criança, na minha família e na minha terra natal, tive a oportunidade de crescer na fé graças à religiosidade simples que pude viver. A fé em Jesus e na sua Igreja tem sido para mim fonte de entrega, buscando ser instrumento nas mãos de Deus nas comunidades para as quais fui enviado a fim de compartilhar minha fé, desde a entrada no seminário dos Missionários Xaverianos até meu apostolado como sacerdote missionário nas Missões: na África (Camarões e Chade) e na América Latina (a Huasteca hidalguense e veracruzana).
Para falar sobre a devoção à Virgem de Zapopan, quero começar dizendo que é o terceiro santuário mariano mais visitado do México; o primeiro lugar é ocupado pela Basílica de Guadalupe, na Cidade do México, e o segundo é o da Virgem de San Juan de los Lagos, localizado também no estado de Jalisco.
Nos santuários marianos percebe-se como Maria caminha com o povo pobre e sofrido rumo a Jesus, e continua a nos repetir as mesmas palavras que pronunciou nas bodas de Caná: “Façam o que ele lhes disser!” (Jo 2,5). Nos santuários se constatam as maravilhas e os milagres que Deus continua realizando nos corações de todos aqueles que recorrem a Maria em busca de amparo, ajuda e proteção.
A devoção à “Menina dos olhos grandes” ou Virgem de Zapopan nasceu graças aos primeiros missionários franciscanos que evangelizaram a região ocidental do México, concretamente no reino da Nova Galícia, que compreende hoje em dia os estados de Jalisco, Nayarit, Colima e Zacatecas.
Um desses primeiros franciscanos que chegou à Nova Espanha foi frei Antonio de Segovia, que se destacou por sua fé inabalável e por sua total entrega na evangelização dos povos originários do México. Conta-se que frei Antonio “andava sempre descalço, com o terço na mão e um cajado na outra, com seu hábito franciscano, comendo milho tostado e dormindo muitas vezes ao relento, carregando no peito a imagem da Virgem Maria”.
Em 1530, frei Antonio pediu a uma oficina de artesãos indígenas purépechas que fizesse uma pequena imagem da Imaculada Conceição para acompanhá-lo pelos caminhos que tinha de percorrer para evangelizar. Os artesãos realizaram a imagem da Virgem Imaculada com traços rústicos, de 30 cm de altura, mãos postas e um rostinho de menina, mas com olhos grandes. Suas vestes eram da mesma cor que as da Virgem de Guadalupe: manto verde-turquesa e túnica de cor vermelho-alaranjada, com a lua sob seus pés.
Em 1541 ocorreu uma forte sublevação dos povos indígenas na região ocidental da Nova Espanha, liderada por povos chichimecas aos quais se uniram outros povos para resistir à expansão do Império Espanhol na região. O vice-rei da Nova Espanha aceitou o pedido que frei Antonio lhe fez para tentar mediar o conflito entre o grupo dos indígenas e o dos espanhóis para evitar um massacre. Devido ao profundo respeito que os indígenas tinham por ele, os chefes dos revoltosos aceitaram conversar.
Frei Antonio entrevistou-se com os chefes levando no peito a bendita imagem da Virgem. Após dialogar com eles, conseguiu pôr fim à chamada Guerra do Mixtón. Terminado o conflito, frei Antonio doou a imagem de Maria aos indígenas, os quais construíram uma ermida de adobe e palha em Zapopan para resguardá-la e onde os moradores da região pudessem venerar a “Senhora Menina” que os havia acompanhado nos momentos mais dolorosos de sua história, além de lhe pedir favores e graças. A devoção aos poucos se espalhou, e ela passou a ser chamada de “A Pacificadora”, porque se acreditava que graças à intercessão da Virgem se havia alcançado a paz.
A devoção cresceu ainda mais quando, em 1606, a ermida desmoronou sem que a imagem da Virgem sofresse qualquer dano, aumentando assim sua fama de “imagem milagrosa”. Além disso, o bispo de Guadalajara, Juan Ruiz Colmenero, concedeu-lhe o título de “Taumaturga” devido aos muitos testemunhos escritos que atestavam os milagres que realizava.
Em 1691, o capítulo da cidade de Guadalajara pediu que a milagrosa imagem fosse levada à catedral, pois os terremotos, a fome e as epidemias de sarampo e varíola causavam muitas mortes entre seus habitantes. Constatou-se que, com a chegada da imagem à cidade, a epidemia começou a diminuir, e muitos enfermos em perigo de morte ficaram curados.
Em 1731, ao se demonstrarem os milagres realizados por Nossa Senhora, solicitou-se que a imagem visitasse a cidade, sobretudo em tempos de chuva, para acalmar as tempestades, os raios e as epidemias, muito frequentes nessa estação do ano. Foi assim que também recebeu o título de “A Grande Protetora de Guadalajara”. Outro dos títulos que a Virgem recebe é o de “A Generala, protetora universal do Estado Livre de Jalisco”; este título lhe foi concedido em 15 de setembro de 1821 pelo Exército Trigarante, grupo que alcançou a consumação da independência do México.
Em 1908, o santuário da Virgem de Zapopan foi confiado à Província Franciscana do Ocidente. Posteriormente, em 12 de junho de 1940, foi elevado à categoria de Basílica Menor pelo papa Pio XII.
A Basílica de Nossa Senhora de Zapopan recebeu, em 30 de janeiro de 1979, seu hóspede mais ilustre, o papa São João Paulo II. Da mesma forma, em 12 de outubro de 2004, os participantes do Congresso Eucarístico Internacional foram em romaria ao santuário; calcula-se que somente nesse dia tenha havido a presença de 3,5 milhões de peregrinos, razão pela qual é considerada a peregrinação mais concorrida da história da Basílica.
A cada 12 de outubro celebra-se o retorno da venerável imagem da Virgem à sua basílica, após ter visitado as paróquias da arquidiocese de Guadalajara, na qual este dia é festa da padroeira. O percurso é de cerca de dez quilômetros e dura ao redor de cinco horas. A Virgem retorna à sua casa em meio a demonstrações de amor e veneração. Uma dessas manifestações são os “danzantes” (dançarinos), grupos de pessoas que dançam e tocam instrumentos vestidas com roupas indígenas como gesto de agradecimento à Virgem. Na romaria deste ano, calcula-se que tenham participado 40 000 dançarinos. Com o som constante de seus tambores, o estalar dos guizos e o colorido de suas vestimentas, eles transformam as ruas por onde a Virgem passa em um espaço sagrado, convertendo o asfalto em um rio de devoção. Da mesma forma, estima-se que este ano cerca de três milhões de peregrinos acompanharam a Virgem em seu retorno à basílica.
Nós, missionários xaverianos, temos muito perto deste Santuário de Zapopan a comunidade da Casa Regional, que presta diferentes serviços à região do México. Viver aqui, perto do Santuário, permitiu-me descobrir aos poucos a devoção e as tradições ao redor desta invocação mariana. Observar as expressões de fé e devoção de milhares de pessoas, seu amor pela Santíssima Virgem, as oferendas, as ações de graças e as súplicas me leva a estar profundamente grato a Deus e à Virgem. Pois Maria sempre acompanhou a evangelização e o crescimento da fé em seu Filho Jesus, ápice e centro da nossa vida cristã. Desejo de coração que todos os devotos da “Menina dos olhos grandes” continuem vivendo intensamente sua vocação de discípulos missionários de Cristo, a exemplo de frei Antonio de Segovia, que nos legou há quase 500 anos este lindo tesouro da nossa fé cristã católica.























