Fazer do mundo uma só familia
Fazer do mundo uma só familia
Xaverianos
Xaverianos
“Há um vilarejo ali
[...]
Por cima das casas, cal
Frutos em qualquer quintal
Peitos fartos, filhos fortes
Sonho semeando o mundo real”
(Marisa Monte – ‘Vilarejo’)
Como expressa a canção, a celebração do Natal é a festa da chegada da vida ao contemplar o rosto de Deus na pequena criança que vem morar entre nós. Gosto de pensar que a história de cada pessoa não se iniciou com o nascimento, mas desde a fecundação. Os nove meses que antecederam a chegada à esse mundo propiciaram o desenvolvimento de cada pessoa no útero materno até o dia do parto, quando nascemos e passamos a fazer parte deste mundo.
Para os povos originários, a chegada e o nascimento de uma criança é sempre sinal de bênção, de vida. Não somente para a família que a recebe, mas para toda a comunidade da qual ela fará parte. Uma comunidade onde a natalidade é frequente sempre terá novos membros e indica fertilidade, a garantia de continuidade de um povo. Por outro lado, atualmente, em muitos lugares é notório o crescimento de adoção de pets como filhos, invés de crianças. O intuito aqui não é discutir tal fenômeno, mas apenas refletir que numa sociedade onde gerar e cuidar de filhos passou a não ser mais prioridade, ela corre o risco de extinguir-se em breve.
No período 2022-2024 tive a alegria de encontrar e conviver com os parentes Guarani Mbya, aldeia Tenondé Porã, distrito de Parelheiros, zona sul de São Paulo. Entre eles e com eles fiz uma bonita e forte experiência que foi pensar e discutir a saúde a partir da casa de reza (opy). Na cosmologia Guarani, a casa de reza (opy) é a casa comunitária que conjuga espiritualidade, fortalecimento cultural, cerimônias, benzimento, encontros, educação, articulação política, sendo por isso considerada central.
Uma pequena parte desta vivência quero partilhar associando à celebração cristã do Natal, muito embora o povo Guarani possui sua própria religião tradicional. Nos últimos anos, por conta da grande “demonização” de suas práticas culturais religiosas por alguns grupos, a comunidade decidiu não aceitar nenhuma presença de igreja cristã (católica ou protestante) no território, escolhendo retomar e fortalecer a cultura e as práticas tradicionais.
Para mim, duas palavras guarani traduzem a festa do Natal: tekoa e aguyjevete. A primeira faz referência ao lugar, ambiente que torna possível a geração e o cultivo da vida. Na perspectiva Guarani Mbya, todo ser que existe possui seu modo próprio de vida. Os parentes Guarani denominam nhandereko: nosso modo de ser e existir. Ele compreende a língua, os alimentos tradicionais, valores, cerimônias, a participação na opy etc, elementos essenciais na construção de uma tekoa.
Aguyjevete é a palavra usada na saudação guarani, manifestando plenitude. Advém da palavra aguyje, que expressa o fim do processo de maturação corporal. No universo guarani, a pessoa é chamada a imitar os seres sagrados, moldando seu corpo, comportamentos, de modo a atingir um corpo imperecível como o das divindades. Numa abordagem espiritual cristã, o termo aguyje pode ser compreendido como a etapa mais alta de um caminho espiritual.
Celebrar o Natal em comunhão com os povos indígenas é almejar esse crescimento espiritual que nos compromete na construção da grande tekoa, que traduzida na linguagem cristã se trata do próprio Reino. Portanto, aguyje também é deixar que a vida, o comportamento, os sentimentos (cf. Fl, 2,5) do Deus criança cresça em cada um de nós. Boas festas para todos nós!


















