Fazer do mundo uma só familia
Fazer do mundo uma só familia
Xaverianos
Xaverianos
Refletir sobre minha experiência missionária no Chade, na diocese de Pala, é algo que enche meu coração de ternura e gratidão. Foram oito anos de presença, de partilha, de aprendizado, de crescimento humano e espiritual. Aquelas pessoas contribuíram profundamente para a minha fé, moldando o meu jeito de ser Igreja e de viver a missão e deixaram marcas inesquecíveis em minha vida.
Falar dessa realidade é recordar momentos marcantes, como as celebrações de Natal e Páscoa, que eram períodos de uma beleza singular. A Páscoa, especialmente, era vivida com uma intensidade que só quem viveu pode compreender. Os catecúmenos chegavam na segunda-feira santa, sob um clima seco e muito quente, com temperaturas que, na sombra, podiam ultrapassar os 45 graus. A maioria eram mulheres, mas também havia adolescentes, jovens, adultos e idosos.
No espaço sagrado, pequenas tendas feitas de varas e tecidos coloridos iam se formando, criando um ambiente criativo e de fé. Naquele ano em que cheguei, mais de 200 catecúmenos se preparavam para receber o batismo na noite de Páscoa. Juntos, com padrinhos, amigos e parentes, formavam uma multidão de fiéis.
Entre uma catequese e outra durante a semana santa, as mulheres se revezavam na preparação das refeições e dedicavam tempo para fazer lindíssimas tranças nos cabelos umas das outras. Para mim, cada uma delas parecia uma obra de arte, e elas ficavam ainda mais lindas para a ocasião. No espaço sagrado, havia uma Igreja, a casa do padre e a nossa. Entre uma construção e outra, ficava o poço, um local de grande convivência e comunicação, onde muitas mulheres e meninas buscavam água para suas famílias.
Devido ao calor intenso, as celebrações eram realizadas sob as árvores, o que permitia a participação de muitas pessoas que não eram cristãs. À noite, realizavam-se rodas de conversa, danças e manifestações culturais próprias da Semana Santa, criando um clima de comunhão e celebração comunitária.
E, finalmente, chegou o grande dia. O povo se levantava às 4h da manhã com danças tradicionais, seguida pela missa às 5h. A celebração da Páscoa, às vezes, durava até quatro horas. Em um espaço externo, colocavam uma grande jarra de barro, cheia de água, de mais de um metro de altura, onde os catecúmenos formavam uma fila para os batismos. Vestiam roupas coloridas, e, ao receberem a água na cabeça com as palavras “Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, gritavam, pulavam e cantavam de alegria. Era uma manifestação de tamanha felicidade que nunca esquecerei.
Após o batismo, recebiam uma roupa branca e voltavam às filas para a entrada triunfal, sempre dançando, cantando e gritando. Na mesma celebração, também recebiam a Eucaristia pela primeira vez, marcando um momento de profunda alegria e renovação espiritual.
Essa experiência missionária no Chade foi, sem dúvida, uma das mais enriquecedoras da minha vida. Ela me ensinou o valor da fé, da esperança e do amor comunitário. Cada momento, cada sorriso, cada oração, deixou uma marca profunda em meu coração. Trago comigo a certeza de que a verdadeira missão é aquela que transforma vidas, fortalece a esperança e revela a beleza da fé em meio às dificuldades.






















