Fazer do mundo uma só familia
Fazer do mundo uma só familia
Xaverianos
Xaverianos
No segundo capítulo da Encíclica “Fratelli tutti”, Francisco nos propõe um paradigma fundamental para viver e testemunhar a fraternidade no mundo de hoje, que é representado pela parábola do Bom Samaritano. A “chave samaritana” serviu de inspiração para muitos documentos e pronunciamentos eclesiais desde o Concílio Vaticano II, precisamente porque é particularmente densa, profunda, articulada e muito atual, revelando elementos para diversos tipos de interpretação.
O contexto da história é um diálogo entre Jesus e um teólogo sobre as obrigações em relação ao próximo: das duas tábuas da Lei de Moisés, a primeira indicava o amor a Deus (os três primeiros mandamentos) e a segunda o amor ao próximo (os outros sete). Mas o que acontece quando as duas tabuas colidem entre si, ou seja, quando nos encontramos em uma situação em que temos que escolher entre amar a Deus ou amar o próximo?
A parábola fala de um homem que foi assaltado e “deixado meio morto” (Lc 10,31) à beira do caminho. Ele está morto ou não está morto? Se estiver morto, a Lei de Deus proíbe terminantemente de tocá-lo (cf. Nm 19,11-13). Por causa do amor a Deus e à sua Lei, o sacerdote e o levita se afastam do homem e evitam de socorrê-lo. O samaritano, por outro lado, não tem muitos escrúpulos: se aproxima, faz curativos nele e o carrega até a hospedaria.
Jesus pergunta ao mestre da Lei: “Qual dos três se tornou próximo daquele que caiu nas mãos de ladrões?” (Lc 10, 36). O próximo não é o “outro”: é você que se “torna próximo” do outro. A proximidade é um deslocamento, um movimento de sair de si para ir ao encontro do outro. Mas esse deslocamento implica uma quebra de barreiras. No caso do sacerdote e do levita, o impedimento era o mais sagrado possível: adesão incondicional a uma Lei divina que expressava todo o amor a Deus. Para as duas pessoas consagradas, quando se trata de escolher entre amar a Deus “ou” amar o próximo, não há dúvida: primeiro, amar a Deus. E então eles evitam socorrer o homem ferido para não ficar impuros, e continuam seu caminho.
No entanto, Jesus mostra que, de fato, “amar a Deus” ou “amar o próximo” é um falso dilema: não se ama a Deus se não se ama o próximo. Aliás, para amar a Deus é preciso amar o próximo: “Vá e faça o mesmo” (Lc 10,37). A primeira Carta de João afirma-o de maneira ainda mais incisiva: “Quem não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1 Jo 4,20). No entanto, o problema permanece em nos livrarmos de estruturas, de preconceitos, de ideologias que nos impedem de nos aproximar ao outro.
O problema do “outro” é um problema central para a sociedade em que vivemos e para a missão da Igreja. O “outro”, particularmente esse outro “pobre”, marginalizado, necessitado, é um ser humano que nos enche de compaixão romântica, desde que o mantenhamos à distância. A distância é um elemento estratégico para nos isolar da realidade nua e crua, dizia Papa Francisco (FT 73). Mas quando o “outro” fica próximo, começam os verdadeiros problemas: nos enche de desconfiança, nos faz perder tempo, nos distrai de compromissos, nos irrita, nos tira do sossego, nos faz perder a paciência ... Vivemos em uma sociedade onde o “outro” representa um problema, um empecilho, uma ameaça. Fazer de tudo para evitá-lo e afastá-lo parece ser mais do que razoável: a solidariedade não compensa.
No entanto, “fechar os olhos diante do próximo nos torna cegos também diante de Deus” (Bento XVI). E assim que “cada vez que nossos olhos se abrem para reconhecer o outro, ilumina-se mais a nossa fé para reconhecer a Deus” (Francisco). Com efeito, há um caminho muito simples para encontrar Senhor vivo e ressuscitado, e é através da pessoa do outro: pois “o encontro com Jesus Cristo através dos pobres é uma dimensão constitutiva de nossa fé” (DAp 257). “A glória de Deus é o homem vivente” dizia Santo Irineu, um dos primeiros Padres da Igreja. E isso nos conduz a “dar-nos conta de quanto vale um ser humano, de quanto vale uma pessoa, sempre e em qualquer circunstância” (FT 106). Por isso a vida, a vida plena, a vida eterna, “se alcança e amadurece à medida que é entregue a dar a vida aos outros. Isso é definitivamente a missão” (DAp 360).





















