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Fazer do mundo uma só familia

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Xaverianos

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Revista Digital N. 2 abril 2025

Cultura missionaria

Uma questão de ótica

  • Pe. Estevão Raschietti s.x.
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De alguns anos para cá, o mundo está vivendo uma onda antidemocrática de ódio, de raiva, de violência, de racismo e de discriminação. A extrema direita autoritária e xenófoba não só se alimenta desse clima global hostil, como também o promove e o incita, fomentando uma ideologia do merecimento (quem tem poder e dinheiro os tem por merecer), da desigualdade (é natural que no mundo haja quem manda e quem obedece) e do acúmulo dos bens, em detrimento do bem comum e da exploração da natureza.

Não é absolutamente assim que a lógica do Evangelho funciona, apesar de muitas pessoas aderir a essa fé capitalista e se declararem cristãos católicos.

Nós nos propomos ao contrário, de viver como discípulos e discípulas de Jesus procurando promover um mundo como uma só famílias de irmãos e irmãs, e onde possam caber muitos mundos. O princípio da fraternidade é fundamental no cristianismo. Os primeiros cristãos o viveram radicalmente: “não há mais diferença entre judeu e grego, entre escravo e homem livre, entre homem e mulher, pois todos vocês são um só em Jesus Cristo” (Gl 3,28). Isso não é comunismo: é Evangelho puro.

No dia em que o Papa Francisco publicou a encíclica "Fratelli tutti" sobre a fraternidade e amizade social, me veio em mente o grande patriarca da Igreja no Brasil, Dom Hélder Câmara (1909-1999), arcebispo de Recife, defensor incansável dos direitos humanos durante a ditadura militar, testemunha de uma Igreja simples, pobre e não violenta.

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Conta-se que um dia Dom Hélder recebeu a visita de um pai de família que procurava emprego. Ele imediatamente ligou para um amigo comerciante de Recife dizendo: "Tenho aqui meu irmão procurando trabalho, você não tem um emprego para ele?". “Claro! ”, respondeu o amigo. Para o "irmão" do arcebispo é óbvio que tem emprego. Depois de alguns dias, porém, o amigo liga de volta para Dom Hélder reclamando que o sujeito em questão não era seu irmão. Dom Hélder respondeu com sua sagacidade: "Irmão só por parte de Pai, não é irmão?". "Sim – responde o amigo – eu entendo o que o senhor quer dizer..., mas eu pensei que ele era seu irmão de sangue!". "Pois é", responde Dom Hélder, "o sangue que Cristo derramou por mim, derramou por ele também: somos irmãos de sangue!".

Este era Dom Hélder e isso é todo o Evangelho. Papa Francisco retoma isso em sua encíclica: o tema da fraternidade não é uma questão de bons sentimentos, mas de fé: acreditar que Deus é Pai, como Jesus nos ensinou a chamá-lo, e, portanto, todos nós somos seus filhos e filhas, irmãos e irmãs entre nós... de sangue!

A fé, antes de se constituir como fundamento de uma ética, ou de se expressar na caridade, é uma questão de ótica, uma visão das coisas a partir de uma perspectiva, de uma visão específica do mundo, da humanidade e da criação: somos todos irmãos e irmãs de sangue, porque somos filhos e filhas do mesmo Pai. Todo o resto é apenas uma consequência.