Fazer do mundo uma só familia
Fazer do mundo uma só familia
Xaverianos
Xaverianos
“Deus, Pátria, Família” é o bordão dos setores mais conservadores, tradicionais e autocratas da sociedade e da Igreja. Claro que afirmam valores identitários partilhados por todos, mas o fato de repeti-los à exaustão revela que para esses setores, essas instâncias não são assumidas e vividas como deveriam.
Esse lema se encontra na Bíblia? Ou melhor, essa tríade é parte integrante da mensagem de Jesus? Vamos indagar.
“Deus”
Jesus pouco fala de Deus, prefere falar do Pai, ensina os discípulos chamar Deus de Pai (Mt 6,9). A relação íntima que Jesus tem com o Pai deve ser a relação que os discípulos terão com Deus: não um ser supremo julgador, distante, todo-poderoso, mas um pai amoroso, misericordioso, próximo que se faz tudo a todos, que sai de si para libertar seu povo da escravidão (Ex 3,8) e envia o seu Filho para salvar a humanidade (Jo 3,17).
A palavra “Pai” revela que nós somos filhos e filhas de Deus, irmão e irmãs entre nós, num plano de igualdade fundamental, onde se alguém quer ser mais do que os outros é chamado a servir (Mt 20,26).
Quem usa a palavra “Deus” para se enaltecer e para ser mais do que os outros, ou para justificar um estado de coisas hierárquico, jurisdicional ou teocrático, ou ainda para explicar uma série de eventos nefastos em nome de Deus, desobedece não somente ao segundo mandamento, mas também ao primeiro e, consequentemente, a todos os outros: não ama a Deus sobre todas as coisas, adora um Deus que não é o de Jesus e não ama o próximo como a si mesmo.
Foi o que aconteceu na Alemanha nazista, cujos militares exibiam nos cinturões a escrita “Deus está conosco” (Got mit uns). Acontece hoje sobretudo no mundo da política, apelar para Deus para sustentar ideologias autoritárias, violentas, homofóbicas, racistas: um Deus conosco contra os outros! Não tem nada de mais antievangelíco.
“Pátria”
É o grande equívoco entre Jesus e os seus discípulos. O povo esperava um Messias que pudesse libertá-lo do poder dos inimigos e assim restaurar o Reino de Israel com as suas doze tribos (At 1,6). Esse reino não existia há muito tempo, quase todas as tribos estavam extintas ou integradas ao Reino de Judá. O Reino de Israel era um mito nacionalista.
Jesus anuncia o Reino de Deus que é outra coisa que a restauração do Reino de Israel. Jesus não é o Messias sanguinário Filho de Davi que vinha libertar o povo com armadura e espada na mão. Jesus é o “Filho do Homem” (Dn 7,13) que vem governar com humanidade, e no seu reino terá lugar para todos os povos e todas as pessoas, ninguém excluído.
Os discípulos de Jesus não têm pátria e “se reconhecem estrangeiros e peregrinos nesta terra ... porque aspiram a uma pátria celeste” (Hb 11,13-16; 13,14). Por outro lado, a Carta aso Efésios usa a metáfora da família de uma maneira diferente, mas com o mesmo sentido: “Cristo é a nossa paz. De dois povos, ele fez um só. Na sua carne derrubou o muro da separação: o ódio. Vocês, portanto, já não são estrangeiros nem hóspedes, mas concidadãos do povo de Deus e membros da família de Deus” (Ef 2,14.19).
“Família”
Jesus tem uma relação complexa com a própria família. Já na infância ele apronta algumas “malandragens” que deixaram os pais bastante preocupados (Lc 2,48). Mas é o Evangelho de Marcos que registra um primeiro conflito sério quando começou o ministério de Jesus: a família foi buscá-lo “porque diziam: ‘Enlouqueceu’” (Mc 3,21).
Em outra ocasião, ou talvez na mesma, o Evangelho de Mateus conta que a família estava procurando falar com Jesus. Ele respondeu: “’Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?’ E, estendendo a mão para os discípulos, Jesus disse: ‘Aqui estão minha mãe e meus irmãos, pois todo aquele que faz a vontade do meu Pai que está no céu, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe’” (Mt 12,46-50).
Enfim, ele ainda desafia seus discípulos: “Quem ama seu pai ou mãe mais do que a mim, não é digno de mim. Quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim, não é digno de mim” (Mt 10,37). Mas promete: “Todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos, campos, por causa do meu nome, receberá muitas vezes mais, e terá como herança a vida eterna” (Mt 19,29).
“Yo tengo tantos hermanos que no los puedo contar” (Eu tenho tantos irmãos que não os posso contar) cantava Atahualpa Yupanqui. Assim Jesus, estende sua família a todos e a todas que acolhem o Reino de Deus em sua vida.
“Deus, Pátria, Família” são valores identitários que Jesus nos convida a ressignificar por um caminho bem diferente, praticamente oposto aos que muitos movimentos conservadores almejam.





















