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Fazer do mundo uma só familia

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Xaverianos

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Revista Digital N. 6 abril 2026

Bíblia

Antes da festa da Páscoa

  • Ir. Tea Frigerio m.m.x.
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No Evangelho dos discípulos e das discípulas amadas, o capítulo 13 começa com a festa da Páscoa, que não é mais dos judeus, mas é de Jesus: “Sabendo que chegara sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (João 13,1).

É a Páscoa de Jesus. É a sua hora. A hora de passar do mundo para o Pai. As discípulas e os discípulos amados vão permanecer no mundo, vão recordar que Ele os amou até o fim. Fidelidade radical e gratuita na liberdade e no amor. Esta palavrinha fim tem valor temporal e de intensidade, quer dizer radicalmente, dando tudo.

Jesus vai voltar para o Pai, a comunidade vai permanecer no mundo, sem ser do mundo. À comunidade Jesus deixa sua herança: o mandamento do amor a ser vivido no serviço e na partilha. 

O contexto é a ceia, mas não tem Eucaristia, neste evangelho a encontramos no capítulo 6, no sinal do pão partilhado e no discurso do Pão da vida. A comunidade quer colocar em evidência o serviço, a partilha como sinal e expressão do amor.

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Jesus levanta da mesa e depõe o manto, símbolo de autoridade e se cinge com uma toalha, símbolo dos servos, dos escravos, das mulheres. O manto era o símbolo da autoridade do César, do imperador; era o símbolo da autoridade dos mestres no judaísmo.

Jesus cinge a toalha, de quem apreendeu? Aprendeu de Maria, das mulheres, dos servos, dos escravos. A comunidade faz a memória de Maria que unge os pés e não a cabeça para nos dizer que Jesus não inventou este gesto, deu a este gesto outro sentido, um gesto que muitas vezes recebeu e viu fazer, recebeu de sua mãe, das mulheres.

Jesus não nega de ser Senhor e Mestre, Ele afirma sua autoridade, mas assume um gesto de seu tempo, gesto de servos e servas, escravos e escravas, mulheres e o transforma no modo de viver a autoridade, o poder.

Pedro recusando de ter os pés lavados recusa o modo novo de viver a autoridade, de exercer o poder, ele precisa entender a herança de Jesus: como eu fiz vocês façam também.

Este gesto o que significa? Não é somente servir uns aos outros, vai além. Jesus afirma sua autoridade, seu poder, mas questiona seja a autoridade, como o poder. De onde exercitar a autoridade? De onde exercitar o poder? Do alto com o manto ou de baixo com a toalha? Somos convidadas a observar que posição Jesus assume para lavar os pés!

Na sociedade, na igreja e na comunidade cada uma e cada um de nós exercita um papel, tem autoridade, tem poder, isso não é mal, o ruim é o jeito como exercitamos a autoridade e o poder. De que lugar, com que atitude? Com o manto ou com o avental? Estando num trono, num pedestal ou assumindo o lugar dos últimos, das últimas, dos mais frágeis? Não é a partir dos primeiros que se exercita o poder que gera a vida, mas a partir dos últimos. Pedro não é estúpido, ele entende bem, sabe que se Jesus fizer isso ele também deverá fazer, então não teria mais álibi, uma desculpa para não mudar de estilo de vida. Jesus diz para ele: se não deixar eu lavar os teus pés, não terás parte comigo!

Na comunidade e na vida temos papeis, mas estas competências devem ser vividas tornando-se escravo, serva, último, última.  Jesus nos pede de mudar de lógica. Ele não se sente diminuído ao assumir o lugar do servo, do escravo, da mulher, vos me chamais de Mestre e Senhor eu sou..., pois é no abaixamento que se doa a vida, que faz acontecer os sinais de vida.

Refletindo, a palavra autoridade vem do latim augere = ajudar a crescer. A verdadeira autoridade é aquela que ajuda a crescer, não é aquela que mantém na dependência. Para ser assim precisa se descentrar, saber entrar na vida do outro, da outra.

A segunda cena se dá ao redor da mesa, é a conversa a respeito do pão. Judas vai sair no escuro, na noite depois de ter umedecido o pão, sai porque guardava a bolsa. Como Pedro não aceitava o lava pés, Judas não aceita a partilha. A partilha é o outro sinal que a comunidade deve realizar.

A comunidade das discípulas e dos discípulos amados não celebra a eucaristia, talvez estivesse percebendo que se tornara um rito vazio. O que é Eucaristia? Nos sinóticos é ‘fazer isso em memória de mim’. É partir o pão para se tornar como Jesus pão partido. É tomar o vinho para se tornar como Jesus sangue derramado. Não somente no momento do rito, mas na vida cotidiana, como Jesus na vida cotidiana foi pão partido e vinho derramado.

O exercício do poder e a partilha são as realidades que mais custam ao ser humano. As discípulas, os discípulos estão sentados ao redor mesa, comem, mas não tem Eucaristia, a comunidade não a celebra para nos ajudar a compreender que sem serviço e partilha não pode haver Eucaristia. É a partir de quem sofre em sua vida as consequências dos projetos de morte que a comunidade deve servir e partilhar os bens, a vida. Então quando a comunidade viver isso poderá celebrar a Eucaristia.

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No início do capítulo a comunidade recordava que Jesus, amou até o fim. Agora, somente Jesus fala do amor, do mandamento do amor, dizendo: ‘nisto reconhecerão, que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros’. Nisto, no serviço e na partilha que é manifestado o amor. Seguir Jesus é seguir suas pegadas, ‘amar come ele nos amou’.

O mandamento de Jesus nos desafia a colocar nossa vida em risco. Antes destas palavras Jesus afirma aonde eu irei vós não podereis ir. Aonde não podemos ir? É difícil subir à cruz, carregá-la todos os dias.

Jesus subiu à cruz porque desafiou e tocou no coração de estruturas injustas, quer religiosas como civis. A cruz não é algo que cai em cima de nós por acaso, como a doença, a morte, mas é a consequência de uma vida que optou de ser como Jesus no serviço e na partilha, no amor a partir dos últimos da história.

O evangelho das discípulas e dos discípulos amados não nos deixa escapatória, não nos deixa brechas. Para não desanimar nos apresenta a pessoa de Pedro, por duas vezes não compreende Jesus, mas reconhece as quedas, levanta e retoma o caminho.  O discipulado não se dá uma vez para sempre, é um caminho, é um processo feito de ir e vir, trevas e luz, mas como diz o mantra: “indo e vindo, trevas e luz, tudo é graça Deus nos conduz”.

Acompanhar Jesus na Semana Santa, viver a Pascoa de Jesus, celebrar e acreditar na Ressurreição é renovar o compromisso de “amar até o fim”

Uma Páscoa de Ressurreição abençoada