Fazer do mundo uma só familia
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Xaverianos
Xaverianos
A passagem de Lucas 10,1-12.17-20 apresenta a dimensão missionária do cristianismo nascente pulsa com força. Diferentemente dos relatos paralelos de Mateus e Marcos, Lucas traça aqui seu próprio caminho, carregado de nuances simbólicas que revelam sua visão de uma Igreja universal, peregrina e enviada.
Desde o primeiro versículo, a história apresenta uma notável variação textual: alguns manuscritos transmitem o número "setenta", outros, "setenta e dois". A forma "setenta e dois", preferida por muitos manuscritos e adotada em várias versões modernas, parece responder a uma intenção teológica específica de Lucas.
O número setenta e dois traz um simbolismo numérico. Este número, mais do que um número exato, contém uma riqueza simbólica que entrelaça três grandes linhas de significado:
Universalidade da Mensagem: A tradição judaica contava setenta e duas nações na tabela de Gênesis 10-11. Ao evocar este número, Lucas sugere que a missão dos discípulos abrange toda a humanidade.
Continuidade com Moisés: Assim como Moisés nomeou setenta anciãos para compartilhar com eles o fardo da comunidade (cf. Êxodo 24,1, 9; Números 11,24-25), Jesus agora envia um grupo expandido de discípulos, estabelecendo um paralelo entre a liderança do Antigo Testamento e o missionário do Novo Testamento. Esta figura mosaica sugere uma transmissão carismática de autoridade, não apenas institucional, mas também espiritual e participativa.
Tradição da Septuaginta: Segundo uma antiga lenda, a tradução grega do Antigo Testamento foi realizada por setenta e dois reis magos. Essa associação sugere que a missão cristã envolve "traduzir" a mensagem de Deus para todas as línguas, culturas e corações.
Não se sabe se esses setenta e dois discípulos saíram do território da Galileia, provavelmente não. O fato é que foram enviados por Jesus e realizam a missão no cotidiano de sua vida. A origem numerosa e anônima desses enviados transmite uma mensagem profunda: a missão não é exclusividade de uma elite, mas o chamado universal de cada batizado. Toda a Igreja é missionária por natureza, e cada cristão, pelo seu batismo, compartilha dessa vocação. Esses discípulos-as são enviados por Jesus para atuar em Seu nome.
Sucesso missionário: “Senhor, até os demônios se submetem a nós em teu nome” (Lucas 10,17). A missão parece ter sido um sucesso espetacular. Mas Jesus, em vez de celebrá-la, convida ao discernimento. Não são eles os protagonistas da missão, estão atuando em nome de Jesus.
Visão profética: “Vi Satanás cair do céu como um raio” (Lucas 10,18): esta frase, com um toque apocalíptico, indica que a missão desencadeia uma guerra invisível. O poder do mal recua quando o Reino é anunciado. Mas esta queda é apenas um sinal, não o objetivo.
“Não vos alegreis porque os espíritos se submetem a vós, mas porque os vossos nomes estão escritos nos céus” (Lucas 10,20). Este é o cerne do discipulado: não o sucesso externo, mas a comunhão com Deus. O verdadeiro fruto da missão não é a eficácia, mas a santificação do missionário. A missão salva aqueles que a realizam, porque os une mais intimamente a Cristo.
Numa era obcecada por números e resultados, esta passagem nos liberta da tirania da eficiência. Evangelizar não é uma questão de sucesso ou de geografia, mas de permanecer fiel a Jesus.





















