
O Círio de Nossa Senhora de Nazaré (padroeira da Amazônia) não se explica, se vive… Uma identidade cristã para o povo do Pará- amazônico?
Todo segundo domingo de outubro, a Arquidiocese de Belém do Pará celebra Nossa Senhora de Nazaré, padroeira da Amazônia . A procissão com a imagem peregrina deste ano aconteceu no dia 12 de outubro. Segundo o jornal Liberal, o Círio de Nazaré é a maior manifestação religiosa do Norte do Brasil, reunindo 2,5 milhões de fiéis pelas ruas de Belém em um percurso de cerca de 3,6 km. Para muitos, é o momento mais esperado do ano: de promessas, fé e agradecimento.
Antes de chegar a esta grande procissão, eram celebradas romarias e novenas nas famílias e comunidades. Foi um momento importante para mim participar pela primeira vez desde que cheguei a esta parte do Brasil. No início de outubro, todas as sextas-feiras, com os jovens da nossa paróquia, São Francisco Xavier, fazíamos peregrinações com a imagem de Nossa Senhora de Nazaré nas famílias. A devoção do povo a Nossa Senhora de Nazaré é realmente impressionante. Sempre rezávamos o terço e ouvíamos a palavra de Deus. No final, a família, em sua generosidade, nos oferecia um lanche. Nesta primeira experiência, ousei fazer algumas perguntas sobre o Círio de Nossa Senhora de Nazaré. Perguntei a um amigo paraense o que significava o Círio de Nossa Senhora de Nazaré? Quando e onde começou? Por que a presença do cordão na procissão? A resposta a essas perguntas me deixou muito pensativo quando ele me disse que o Círio não se explica, mas se vive...
Essa resposta motivou-me a participar pela primeira vez na procissão fluvial, que teve lugar no dia 11 de outubro. Dom Paulo Andreolli, sx, bispo auxiliar de Belém, celebrou uma missa no barco e tive a graça de concelebrar com ele e outros padres. No domingo, 12 de outubro, passei a noite na nossa casa regional para participar na grande procissão que começou com a missa (às 6 da manhã) presidida por Dom Alberto Taveira, Arcebispo emérito de Belém. Após a missa, fui à procissão do Círio com a multidão que participava dela.
“O Círio é vivido e não se explica...” essa palavra continua a ressoar dentro de mim. Para abordar este tema, gostaria de compartilhar a experiência de um jovem da nossa paróquia que se prepara para receber os sacramentos e que viveu esse momento crucial do Círio. Ele participava das novenas e, após as peregrinações pelas famílias, fizemos um sorteio da imagem de Nossa Senhora de Nazaré, e ele teve a sorte de ficar com a imagem da santa. Que emoção! Ele era evangélico, mas sua devoção a Nossa Senhora mudou completamente sua vida de fé. Este jovem, que era evangélico, fez uma promessa no ano passado durante a procissão do Círio de Nossa Senhora de Nazaré.
Aqui começa a entrevista:
- Olá, tudo bem? Você poderia se apresentar (seu nome, nível de estudos, religião...) por favor?
Meu nome é Patrick, sou estudante de Serviço Social na Universidade Federal do Pará. Eu era evangélico, mas me afastei da igreja evangélica em 2023. Em 2024, fui à procissão do Círio e prometi que, se fosse aprovado no vestibular, iria de joelhos da catedral até a basílica. Assim cumpri minha promessa: fui aprovado em primeiro lugar em Serviço Social na Universidade. Não esperava ficar em primeiro lugar, então fiquei muito feliz por meu desejo ter se realizado. Neste ano de 2025, já estou no meu segundo semestre da Universidade e cumpri minha promessa de joelhos com muita gratidão. Neste mesmo ano, comecei a catequese para me preparar para abraçar a fé católica. Para mim, é um ano especial.
- Que mensagem você quer deixar para seus amigos e familiares que ainda estão na igreja evangélica?
A mensagem que quero deixar para meus amigos e familiares que ainda estão na igreja evangélica é de muito amor, respeito e união. Eu sei que, acima de qualquer diferença religiosa, o que realmente importa é a fé que temos em Deus e o desejo sincero de fazer o bem.
Eu tenho muito carinho pela minha caminhada na igreja evangélica, porque foi lá que aprendi a amar a Deus e a valorizar a vida espiritual. Mas, na Igreja Católica, encontrei uma nova forma de viver essa fé, mais próxima daquilo que senti que Deus me chamava. Mesmo assim, não vejo isso como uma separação, e sim como uma continuidade, o mesmo Deus que me guiou lá, continua me guiando aqui.
Então, desejo que todos nós, católicos ou evangélicos, possamos caminhar juntos com respeito, amor e fé, servindo ao mesmo Deus que é Pai de todos nós.
- Agora você está se preparando para receber os sacramentos na Igreja Católica. O que você espera que a Igreja faça para ajudá-lo a amar mais Nossa Senhora e seu Filho Jesus? Você já pensou sobre o que gostaria de fazer em sua comunidade paroquial após receber os sacramentos?
Eu espero que a Igreja continue sendo para mim um lugar de acolhimento, aprendizado e fé. Que através das celebrações, das orações e da convivência com a comunidade, eu possa crescer cada vez mais no amor por Nossa Senhora e por Jesus. Tenho aprendido que amar Maria é também aprender a seguir o exemplo dela, uma mulher de fé, coragem e obediência a Deus. Quero que a Igreja me ajude a entender mais sobre essa devoção mariana e a viver de forma prática o amor que ela nos ensina: simples, fiel e cheio de confiança.
Espero também que, com os sacramentos, eu possa sentir mais fortemente a presença de Cristo na minha vida especialmente na Eucaristia, que é um encontro tão profundo com Ele.
Depois de receber os sacramentos, desejo envolver-me mais na vida da minha paróquia. Gostaria de servir num grupo ou numa pastoral, ajudar nas celebrações, participar em ações sociais e estar sempre disponível para ajudar a comunidade. Desejo contribuir um pouco para o que a Igreja fez por mim, ajudando outras pessoas a sentir o mesmo amor e acolhimento que encontrei aqui.
- Na sexta-feira, você foi à Basílica com padre René, sx e outros jovens que querem aprender sobre o carisma missionário (dar testemunho de Cristo além das fronteiras). O que você achou? Você está interessado em aprender sobre a vida missionária.
A caminhada de Ananindeua até a Basílica foi uma experiência muito bonita e emocionante. Sentir cada passo como um ato de fé me fez perceber ainda mais o quanto é importante estar junto com outros jovens que também querem seguir a Cristo. Estar com o padre René e com todos os outros jovens me inspirou a aprender sobre o carisma missionário, que é levar a mensagem de Jesus para além das fronteiras.
Essa caminhada me mostrou que a vida missionária começa com gestos simples, com amor e entrega no dia a dia. Eu quero continuar aprendendo sobre essa vocação e, se for da vontade de Deus, viver esse espírito missionário ajudando e testemunhando a fé com alegria, dentro e fora da minha comunidade.
Para mim, esta experiência do nosso amigo e catequizado é muito impressionante. Ele não se deixou cativar nem fascinar apenas pelas graças recebidas de Deus por intercessão de Nossa Senhora de Nazaré, mas quer ir a Jesus por Maria. Ele tem um desejo muito profundo de receber Jesus, sobretudo no sacramento da Eucaristia. Este sacramento não é um prémio, mas um dom que se concretiza amando e servindo os nossos irmãos e irmãs. Patrick deseja entrar nesta dinâmica de entrega e serviço a Deus através dos seus irmãos e irmãs da sua comunidade. Maria é modelo de amor, entrega e serviço. Por isso, o Papa São João Paulo II chamou a Virgem Maria de "Mulher Eucarística" na sua encíclica Ecclesia de Eucharistia. Ela é o caminho mais seguro para chegar a Jesus. Ela é a nossa intercessora. A Palavra de Deus na festa de Nossa Senhora de Nazaré falou desta intercessão de Maria nas bodas de Caná... "Não têm mais vinho" (João 2,3). E logo diz aos servos: "Fazei tudo o que ele vos disser" (João 2,5). É o filho que manda, Maria era uma mulher obediente e crente. "Ad Iesus per Mariam" (A Jesus por Maria) não é apenas uma bela fórmula de piedade católica, mas uma teologia profunda que guiou numerosos fiéis e santos ao longo da história.
Breve conclusão:
O Círio de Nossa Senhora não se explica, mas se vive... Por outro lado, é muito importante compreender o significado mais profundo dos símbolos. Três sinais são fundamentais no Círio de Nazaré de Belém do Pará: a Berlinda, a Corda e o Brinquedo de Miriti de Abaetetuba. A Berlinda simboliza a fé; a Corda simboliza a devoção; o Brinquedo de Miriti, a cultura artística. No entanto, a corrente simbólica que o acompanha é constituída por: fotografia, teatro, música, cinema, pintura, poesia. O jornal liberal comentou que, sem essa complexidade estética, o Círio seria apenas uma imensa romaria de caráter exclusivamente devocional. Durante o Círio, toda a cidade ficava impregnada dos aromas dos pratos típicos (manisoba, pato em tucupi...). No Círio de Nazaré de Belém do Pará, a liturgia expressa-se através da beleza e a arte reza.
Que o povo, ao contemplar Nossa Senhora de Nazaré, possa conhecer e amar seu Filho, Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador.











