Nossa Missão no Brasil

Por uma igreja pobre, missionária e pascal

Comprometida com a libertação do homem todo e de todos os homens
(Documento de Medellín, Juventude, 15a)

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CONFORTI E A EUCARISTIA

  • Domenico Borrotti
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INTRODUÇÃO

Como Xaverianos sabíamos que o Conforti na vida dele tinha sido precursor do Concilio Vaticano II no tocante a dimensão  missionária da nossa fé, mas não sabíamos quanto o Conforti tivesse sido uma luz também em relação à Eucaristia. 

Sabíamos que o Cardeal Roncalli (futuro Papa João XXIII) evidenciou este  primeiro aspecto no discurso feito por ele no teatro Regio em Parma lembrando o vigésimo quinto aniversário da morte do Conforti. Neste discurso o Card. Roncalli reconhece que Conforti tinha uma qualidade que o Concílio Vaticano II depois irá propor para todos os bispos e para toda a Igreja:

Eu procurava Mons. Conforti como a expressão episcopal, a mais significativa na Itália daquele feliz movimento missionário provocado pela encíclica ‘Maximun illud’ do Papa Bento XV. Eu via em Conforti o representante daquela harmonia no ministério sagrado das almas que sabe unir o Bispo ao Missionário: Bispo de Parma, mas missionário para o mundo inteiro. Bispo de Parma sim, mas por causa do espírito dele e da paternidade missionária dele, Pastor e Bispo na Igreja Católica... Por cinco vezes visitou todos os lugares da diocese de Parma (na diocese ele realizou cinco visitas pastorais em todas as paróquias; e isso não não era nada fácil visto que o meio de transporte principal era o cavalo). Duas vezes reuniu os sacerdotes da diocese para celebrar com eles duas assembleias sinodais (acontecimento incomum naquela época: e fez isto, também, com o objetivo de reavivar o espírito missionário dos sacerdotes, ele foi presedente da união missionária do clero). Conforti promoveu com incansável fervor a instrução religiosa popular (no início do século XIX, a coisa era bastante inusitada) por meio de semanas catequéticas para toda a sua diocese. Incentivou com fervor a dupla devoção: Eucarística e Mariana. Os exemplos dele para o clero de Parma e para o povo católico repercutiram-se na doutrina da ação e animação missionária. Neste sentido, lembrando as palavras de São João Crisóstomo sobre o despertar da nossa responsabilidade no apostolado missionário dizia: ‘Bispo, sacerdote ou simples fiel não é simplesmente da vossa vida pessoal que deveis prestar contas; e sim da vida do universo inteiro. Eu não vos mandei para duas ou dez ou vinte cidades, mas sim para todos os continentes, os mares, o mundo inteiro’, diz-nos o Senhor. E continua: ‘vós não deveis ser doutores na Palestina, mas em toda a terra. (São João Crisostomo, Hom. XV in Evang. Matthei). Palavras duras e desafiadoras que mexem com as tarefas do bispos e dos sacerdotes católicos e que estimulam a missão de todo cristão”.

A INDICAÇÃO DO CARD. RONCALLI.

Procurei este discurso do até então Cardeal Roncalli para escrever algo sobre isso aqui no o Brasil até porque não existe nenhuma referência bibliográfica em português que mostre, de acordo com Roncalli, que o Conforti foi plenamente Bispo de Parma e, ao  mesmo tempo, Bispo preocupado com a evangelizzação do mundo inteiro, como quer o Concílio Vaticano II. Foi para enviá-los no mundo inteiro que Conforti fundou os Missionários Xaverianos e eles, ainda vivo o fundador, trabalharam na China, antiga meta missionária de São Francisco Xavier.

A grande surpresa foi que Roncalli, neste discurso acima citado, valoriza uma nova característica do Conforti da qual não tinhamos muito conhecimento e que será reafirmada, trinta anos depois da morte do Conforti, pelo Concílio Vaticano II para a Igreja inteira e que tornou-se o tema de  Vários Congressos  Eucarísticos  Nacionais  que aconteceram nos últimos anos, retomando as indicações do Vaticano II.

O tema do Congresso Eucarístico  Nacional da Italia do 2011, foi ‘Eucaristia e vida cotidiana’ e o Conforti foi apresentado pelo Roncalli como um bispo que foi Eucarístico todos os dias da sua vida. De fato, Roncalli afirma neste mesmo discurso no Teatro Regio de Parma: ‘A vida do Conforti foi totalmente um altar e um sacrifício, erguido no meio do povo cristão como incentivo e ensinamento. Que Deus queira que Conforti seja reconhecido nisso de forma oficial e solene  para a  intercessão de graças da terra e dos céus”.

Neste trecho Roncalli mostra que a vida do Conforti foi um altar, foi Eucarística todos os dias da sua vida e convida a Igreja a tornar-se, totalmente, uma Igreja eucarística, como explicará Card. Ratzinger, poucos anos depois do término do Concílio Vaticano II no livro: “O Novo Povo de Deus” juntamente com o teólogo Bruno Forte nos textos que escreveram sobre a Igreja Eucarística a partir do 1975.

Por trás desta visão Eucarística do cristão e da Igreja podemos entrever uma nova visão também do Bispo que é exemplo para o cristão e representante para a Igreja. A Igreja que celebra com o Bispo a Eucaristia, (o Bispo presidente da celebração atua em Persona Christi) é a Igreja Eucarística do Vaticano II,  que reafirmou que o Bispo é chamado a ser Bispo Eucarístico. Depois de anos do término do Vaticano II percebemos que este Concílio apresentou, de uma certa forma, um novo paradigma de Igreja, de sacerdote, de Bispo e de Eucaristia. Este Novo Modelo não elimina o modelo que vigorava até então: simplesmente enriquece-o com a universalidade e a sacramentalidade  já presentes nas pessoas do ministro ordenado e na correta visão teológica da Igreja. A Igreja, antes mesmo do Concílio, sempre foi sacramento universal de salvação (talvez estes aspectos não tenham sido valorizados bastante antes do Vaticano II). O Conforti que faleceu 30 anos antes do início do Vaticano II já tinha adiantado alguns sonhos deste Concílio tanto do ponto de vista da Missão como do ponto de vista da Eucaristia; com a própria vida Conforti inspirou e marcou a vida do Cardeal Roncalli que, por sua parte, viveu pessoalmente estes aspectos. Roncalli, eleito Papa João XXIII, tornou-se com certeza instrumento eficaz do Espírito Santo inspirando, neste sentido, os padres do Vaticano II e, com as conclusões deles, orientando o mesmo Concílio.

Justamente prof. Lozano, titular emérito da catédra de história da vida religiosa na Pontifícia Universidade Clarétiana, depois de ter estudado, por dever profissional (era perito dos Missionários Xaverianos para a atualização das Constituições) a personalidade de Mons. Conforti, o prof. Lozano afirmou: ‘Quando será conhecido, Conforti vai brilhar como luz original, própria,  e talvez mais forte do que São Francisco Xavier”.

Nesta altura a grande surpresa aparece bem evidente e nos mostra que Conforti tem algo próprio para dizer à Igreja e em relação a Eucaristia como em relação a Missão.  Conforti na vida dele uniu profundamente Eucaristia e vida cotidiana e Eucaristia e Missão. Mais ainda: no discurso que Conforti apresenta durante o Congresso Eucarístico Nacional em Palermo, dia 6 de setembro 1924, ele argumenta que a Missão nasce a partir do Cenáculo Eucarístico e que é da Eucaristia que nasce a Missão da Igreja. Evidentemente nascendo da Eucaristia nasce para todos os que se alimentam da Eucaristia, que é a Trindade feita pão. A minha sensação é que Conforti, e o Vaticano II também, consideram a Eucaristia e a vida cotidiana em vista da humanidade, daquilo que está fora da Igreja  interpretando tudo isso em vista da salvação de todos os homens. Muitas vezes o nosso olhar a Eucaristia olha somente  para dentro da Igreja e evidencia aquilo que a vida eucarística cotidiana pode proporcionar aos fiéis, em função da própria salvação e felicidade e não em função da salvação e felicidade de todos os homens.

Gesús Cristo foi Eucaristia, istoé Corpo dado e Sangue derramado, todos os dias da sua vida em função de toda a humanidade,pela salvação de todos, inclusive daqueles que queriam matá-lo e não em função da  salvação  e felicidade somente daqueles que participam da Eucaristia.

 EUCARISTIA E VIDA COTIDIANA

Sabemos que o Vaticano II redescobriu esta dimensão da Eucaristia voltando aos Padres da Igreja que são os Bispos dos primeiros séculos. Para os primeiros cristãos e para a Igreja primitiva (o Vaticano II valoriza a Igreja primitiva e quer voltar a inspirar-se nela. O Papa João XXIII, Mestre em Patristica, conhecia bem os Padres da Igreja) a Eucaristia era tanto algo que celebramos mas antes de mais nada era Alguém que encontramos e  que quer viver em nossas vidas e através de nossas vidas. A Eucaristia que celebramos, se não se torna vida de Cristo em nós fica incompleta.

 A Igreja dos primeiros seculos, de fato, mesmo já tendo a tradição de dar a Eucaristia, como “Viatico” aos doentes prestes a morrer e aos viajantes que enfrentavam viagens perigosas, não dava a Eucaristia aos mártires que iam morrer pela fé. Os mártires que decidiam dar a vida por causa da fé e recusando de adorar as estátuas do imperador (morrendo logo depois por causa disso) não precisavam, na hora do martírio receber a Eucaristia porque já eram Eucaristia.

 Não é sem razão que o Concílio cita duas vezes frases de São Policarpo e doze vezes as frases de São Inácio de Antioquia que, levados ao martírio, expressam a consciência, juntamente com a dos primeiros cristãos, de tornarem-se, pelo martírio, eles mesmos Eucaristia, em Cristo com Cristo e por Cristo. O Concílio acreditava que para os mártires o altar da Eucaristia estava profundamente unido ao altar da Palavra; e acreditar na presença real de Cristo sob as espécies Eucarísticas, significava antes de mais nada entregar o próprio coração e a própria mente às Sagradas Escrituras e com elas a Deus mesmo. Os mártires sentiam Cristo realmente presente na Eucaristia tanto que aproximar-se dela significava aproximar-se realmente a Cristo. Por isso eles consideravam necessárias as devidas disposições interiores e exteriores para aproximarem-se dignamente da Eucaristia.

A missa do domingo para eles era considerada  incompleta se não se tornasse existência vivida, se a comunidade que a celebrava não fosse missionária a partir dela; “se a comunidade que a celebrava não se sentisse parte ativa da “solicitudo para todas as grejas, istoé pela Missão Universal da Igreja”. Os primeiros cristãos e os Padres junto com eles eram apaixonados por Jesus que se fez Eucaristia para a salvação do mundo ed é isso mesmo que o Vaticano II quis ressaltar para a Igreja inteira. A Eucaristia contém Jesus e manifesta o projeto de vida de Jesus: “A Eucaristia contém todo bem que a Igreja tem, o Cristo vivo”. O Vaticano II quer propor de novo este projeto para todos nós e para a Igreja inteira com força e clareza.

Sabemos também que as relíquias dos mártires eram veneradas pelos primeiros cristãos da mesma forma como veneravam a Eucaristia. Santo Inácio de Antioquia foi bem explícito quando expressou esta maneira de intender a Eucaristia nos primeiros séculos da Igreja. Preso, para ser morto, durante a viagem para Roma escreve uma carta aos cristãos de Roma dizendo: ‘Sou trigo de Deus e vou ser triturado pelos dentes das feras para tornar-me o puro pão de Cristo  e sacrifício agradável para Deus”.

Citando os Padres, o Concílio Vaticano II quer sem dúvidas mostrar e propor a maneira deles entenderem a Eucaristia: como verdadeiros apaixonados por Jesus, tinham no sacramento o encontro deles com Cristo e o alimento para que a vida nova de Cristo vivesse neles. Para não deixar incertezas a respeito disso os Padres do Vaticano II escreveram:   “Todas as suas obras, preces e iniciativas apostólicas, vida conjugal e familiar, trabalho cotidiano, descanso do corpo e da alma, se praticados no Espírito e mesmo os incômodos da vida pacientemente suportados, tornam-se ‘hóstias espirituais agradáveis a Deus, por Jesus Cristo’ (1 Pedro 2,5), hóstias que são piedosamente oferecidas ao Pai com a oblação do Senhor na celebração da Eucaristia Concilio Ecumenico Vaticano II, Costituzione Lumen Gentium n.34

A Eucaristia é para transformar o mundo; ou seja, consagra-se a Deus tudo aquilo que lhe pertence porque é Ele que orienta-o e salva-o. É uma luta constante, antes de mais nada, contra nós mesmos a fim de deixarmos que Cristo Eucarístico viva em nossas vidas vencendo tudo aquilo que em nós vai contra Ele: é Ele o Senhor de nossa história e é Ele que expulsa de nós o mal que quer nos levar por outros caminhos. O Concílio Vaticano II acrescenta: ‘Para a celebração da Eucaristia realizar-se de maneira singela e plena, deve constituir-se da mesma forma em canal para as múltiplas obras  de caridade e auxílio mútuo, para a ação missionária como ainda para as várias formas de testemunho cristão’. [1]  Decreto, Presbiterorum Ordinis  n. 6.

Não pode existir, para quem foi instruído pelo Vaticano II, a esquizofrenia litúrgica que afasta o rito da nossa maneira de ser e de viver. A meta última é sem dúvidas  “eucaristizar”  nos mesmos e o mundo’ através da Eucaristia, com a ajuda de Deus, em todos os momentos cotidianos da nossa vida. A Eucaristia é para gerar comunhão entre nós e com Deus, mas a meta da comunhão, pelo menos aqui na terra, não pode ser outra coisa que a “Missão”: porque  só assim o amor desta comunhão ou aliança torna-se fecundo. A Igreja celebra a Eucaristia e celebrando-a plasma a própria vida, renova a própria existência e percebe cada vez mais a união indissolúvel entre Eucaristia e Missão (que no fundo é ‘eucaristizar’ o mundo, a humanidade e nos mesmos).

 

A EUCARISTIA COMO PRINCIPIO E PROJETO DA MISSÃO

Um capítulo inteiro da ‘Mane nobiscum Domine’ tem como título: ‘A Eucaristia princípio e projeto da Missão’; e a mensagem do Papa para a Jornada Missionária Mundial de 2005 afirma que: ‘a Eucaristia não é somente expressão de comunhão na vida da Igreja: ela é também projeto de solidariedade para a humanidade inteira’. O projeto da Eucaristia portanto não é somente para os católicos, e sim para a humanidade inteira. A Eucaristia é ao mesmo tempo um projeto global de vida e um  projeto  missionário. Como a Eucaristia é o coração da Igreja, a Igreja é chamada a organizar-se a partir deste projeto missionário. Tudo isso vale principalmente para as paróquias que são a primeira realidade eclesial chamada a estruturar-se a partir da Eucaristia do domingo.

Como a Revelação não muda, também a Eucaristia não muda por causa dos anos, mas chegou a hora de entender melhor este sacramento como nos lembra Papa João XXXIII : ‘Não é o Evangelho que muda: somos nós que começamos a entendê-lo melhor’. O projeto de amor de salvação que é a Eucaristia é, neste sentido, projeto de partilha e de justiça. Hoje, com a situação do nosso mundo tanto no aspecto ecológico como no aspecto da distribuição dos recursos, esta proposta eucarística é bem apropriada e vale também para todas as nações do planeta terra e não só para os cristãos. A Eucaristia é um projeto global que pode e deve tornar-se inspiração para muitos outros projetos particulares e pontuais.

Ou a maioria dos habitantes da terra se deixa inspirar por esta proposta ou não vai existir futuro para ninguém aqui na terra. O projeto eucarístico hoje não pode ser visto como antigamente, como uma proposta de perfeição só para alguns: hoje é o projeto necessário para todos e permanece, parece-me, como o único caminho de sobrevivência possível que possa oferecer vida para todos. Os projetos atuais do mundo globalizado só conseguem excluir a maioria dos habitantes da terra. Todos os projetos não eucarísticos têm como resultado o acúmulo dos bens para alguns, a exclusão para outros e a destruição do planeta para todos: tudo isso num tempo bastante breve, mais ou menos, me parece, em bem poucas centenas de anos.

A ligação estreita e contínua entre Eucaristia e Missão no Vaticano II é evidente, principalmente em relação à necessidade da Igreja de ser missionária, através da vida de cada comunidade e de cada membro da comunidade. Todos aqueles que participando da Eucaristia não se transformam em missionários como Jesus, é porque naquela celebração eucarística não souberam encontrar-se com Jesus vivo e presente.

Há uma união profunda entre Eucaristia e Missão no Vaticano II. O Concílio nos leva a defender a idéia de uma missiologia eucarística que envolva todos aqueles que vivem da Eucaristia porque esta é a fonte e o ápice da Missão. A partir da Eucaristia ou nos sentimos enviados  como missionários de Jesus ou na verdade não temos participados conscientemente dela e principalmente, não temos nelas encontrado Jesus..

A Eucaristia depois da renovação litúrgica do Vaticano II mostra com clareza que a verdade que nós celebramos nela, é aquilo que a Missão anuncia e a Missão anuncia aquilo que a Eucaristia celebra. No fundo, todos são convidados a anunciar aquilo que na Eucaristia celebraram e encontraram. Quem não sai da Igreja depois da Eucaristia com uma consciência de ser missionário é porque não encontrou Cristo no Sacramento Eucarístico.

Isso vale para as pessoas, mas também para a comunidade  toda: todos nós juntos. Toda comunidade é chamada pela Eucaristia que celebra a sentir-se enviada. Se não perceber isso é porque não celebrou a Eucaristia de verdade, mas simplesmente assistiu ao sacramento, quem sabe com objetivos totalmente fora da lógica do sacramento. A Eucaristia é sacrifício de louvor e de agradecimento a Deus que em Jesus Cristo veio até nós e preocupou-se conosco até a morte na cruz, para a nossa salvação. Celebrar este mistério, louvando o Senhor e agradecendo-lhe tudo aquilo que Ele já fez por nós, leva-nos a nos empenhar com todas as nossas forças para anunciar a todos e em toda parte que Deus ama a humanidade, quer e deseja profundamente que todos se salvem e aborrece tudo aquilo que promove a cultura de morte.

Viver sem perceber estas perspectivas depois da celebração da Eucaristia revela que não vimos Jesus ao repartir o pão. Pode acontecer: de fato também Judas assistiu à Eucaristia sem encontrar-se com Jesus, sem escutá-lo porque muito preocupado com as próprias coisas. Na máxima celebração do altruísmo, estava amarrado ao seu interesse pessoal até o ponto de trair quem o amava para buscar a sua felicidade e a sua realização pessoal. Durante aquela ceia derradeira o maligno entrou em Judas, em lugar de Jesus encontrou o diabo. (João 13,21-33).

A Eucaristia, na visão do Vaticano II, motiva a Igreja inteira e todas as Igrejas Locais a serem missionárias. Nesta altura penso que seja oportuno nos perguntarmos porque de fato tudo isso não acontece. Uma possível explicação: será que as nossas igrejas hoje não são totalmente católicas e os membros delas não tiveram ainda, na maioria, um encontro pessoal com Cristo vivo?

 

A EUCARISTIA É PARA MUDAR A NÓS MESMOS.

Dom Guido Conforti, trinta anos antes do Vaticano II, como nos fala bem Card. Angelo Roncalli, une profundamente Eucaristia e vida cotidiana, Eucaristia e Missão.Meditando os textos do Vaticano II fica evidente que o Concílio repete os percursos trilhados trinta anos antes pelo Dom Conforti e identifica a Eucaristia com a vida cristã e a vida cristã com a evangelização. Podemos ler: ‘A Eucaristia é a fonte e o ápice de toda a vida cristã’ e continuando: ‘A Eucaristia é a fonte e o ápice de toda a Evangelização’. Vida cristã e Evangelização surgem a partir da Eucaristia e têm como fonte e objetivo a Eucaristia. A vida cristã que não for eucarística e missionária, segundo o Vaticano II, não é vida cristã porque a natureza da nossa fé é missionária. Tanto a Evangelização como a vida cristã têm como meta a Eucaristia vivida e não somente celebrada: trata-se da espiritualidade litúrgica.

O Vaticano II reafirma e realça que na Eucaristia é importante que os fiéis ‘aprendam a oferecer a si mesmos e, dia a dia, por Cristo mediador, sejam aperfeiçoados na união com Deus e entre eles a fim de que Deus seja tudo em todos’; Além disso o Vaticano II  nos convida por meio da Eucaristia a voltar às origens da nossa fé e à doutrina dos Padres, citando São Leão Magno quando diz:  ‘A participação do corpo e do sangue de Cristo não faz outra coisa a não ser nos transformarmos naquele que nela recebemos’.

A Eucaristia não serve para nos deixar como antes de particarmos dela, ma sim serve para nos transformar. Já constatamos que quem recebe a Eucaristia e não quer converter-se não está vivendo a essência do sacramento. A Eucaristia serve para nos transformar na nossa maneira de ser e de viver nAquele que recebemos no sacramento, aliás: ‘Em Cristo formamos um só corpo’ (1 Cor 12,12-31). Na Eucaristia o Espírito Santo nos une e nos transforma num só corpo, no corpo de Cristo, hoje, a fim de que Ele seja tudo em todos (Ef 1,10 e Col 3,11). “A Eucaristia é o único alimento que nós não trasformamos em nós mesmos, mas que nus transforma Nele”(S. Agostinho).

Tudo isso representa a verdadeira fecundade da Igreja, a esposa que se une ao Esposo, Cristo, e na Eucaristia torna-se fecunda. A Missão da Igreja é a sua fecundidade. Celebrando e vivendo a Eucaristia a Igreja está gerando e fazendo crescer novos filhos.

A meta da nossa vida, de acordo com esta visão do Concílio sobre a Eucaristia, outra coisa não é a não ser Eucaristia, como Ele que foi Corpo entregue e Sangue derramado para a salvação da humanidade, todos os dias de nossa existência. Participando do sacramento da Eucaristia somos convidados a entregar a nossa vida para a salvação de todos, do mundo. São Paulo nos diz: ‘Estou pregado à cruz de Cristo e já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim (Gal. 2,20).

Cristo hoje como pode ser para todos se não através de nossas vidas? Segundo o Vaticano II é isso, e nada mais do que isso, a Missão do cristão e da Igreja. Tudo isso torna-se mais luminoso se aceitarmos a visão que muitos têm da Missão dizendo que é como ‘A tarefa que Deus confia a cada batizado, e à Igreja, para a salvação do mundo’.

A partir desta verdade podemos deduzir que o desejo de ser Eucaristia não é para o nosso bem-estar, mas para a salvação de todos. Partipamos da Santa Missa não em nosso favor, mas principalmente em favor dos irmãos, daqueles que não participam porque Deus é Pai de todos e quer que todos se salvem. Todos já foram amados pelo Esposo e foram chamados por Ele a fazer parte da comunidade, sua Esposa. Os cristãos se salvam não procurando a salvação para si mesmos, e sim para todos.

O maneira mais forte que temos para conseguir a salvação pessoal consiste em trabalhar e contribuir para a salvação de todos. E tudo isso por causa da Eucaristia que celebramos aos domingos porque ao redor da mesa altar o Senhor, que é Pai de todos, não pode não comunicar as preocupações dEle em relação aos filhos ausentes e também não pode não transmitir  a própria alegria de acolher os filhos presentes. Através da Eucaristia Deus quer nos transformar para que nós possamos ter o coração d`Ele, o coração de Jesus Cristo que sempre quis salvar a todos e para realizar isso quis servir-se também de nós que já temos acolhido o convite d`Ele para sermos membros da família d`Ele  participando da Eucaristia.

 A esta altura, a ligação inquebrantável e contínua entre Eucaristia e Missão no Vaticano II, como também dizia Dom Guido Maria Conforti, fica evidente e indiscutível, sobretudo em relação à necessidade da Igreja ser missionária pela presença de cada comunidade e de cada membro na comunidade.Todos aqueles que paraticipam da Eucaristia e não e transformam em missionários, como Jesus, é porque na Eucaristia que celebram não O encontraram de verdade, presente e vivo.

A meu ver, alegro-me com a visão aberta do Vaticano II porque a partir da visão da Eucaristia como sacrifício de Cristo (neste aspecto corre-se o perigo de participar da Eucaristia para salvar a própria alma sem perceber que desta forma participamos da Missa para nos salvar e não para ser transformados em Cristo e com Ele assumir a nossa missão), conceito que dominava antes do Vaticano II, o Concílio nos abriu a muitas outras dimensões da Eucaristia: a dimensão Pascal, a dimensão Convívio, a dimensão Comunhão e de Aliança e Missionária.

 Neste ultimo aspecto acho que seja oportuno aprofundar mais a dimensão do Kerigma da Eucaristia. Quem sabe que um futuro congresso Nacional obre a da Eucaristia tenha como tema Eucaristia e Kerigma. Neste sentido, que juntamente com outros, Dom Guido Maria Conforti, Comboni, Allemanno, Ramazzotti e La Manna ficariam muitos satisfeitos.

  EUCARISTIA E KERIGMA

A Eucarstia, como já afirmamos, não é uma coisa ou uma realidade que nós fazemos ou celebramos , mas é Alguém que encontramos: no sacramento está presente todo o bem que a Igreja recebe de Cristo vivo (Cfr Presbiterorum Ordinis 5). A Eucaristia é encontro, é evento Kerigmático para nos transformar: do contrário pode resultar ineficaz. O Kerigma que no sacramento ressoa no momento mais forte não pode ser reduzido a uma simples forma de aclamação, como nos diz P. Cantalamessa: ‘O Kerigma ressoa é verdade no momento mais solene da Missa: ‘Anunciamos a tua morte, Senhor, proclamamos a tua ressurreição esperamos a tua vinda’. Mas, por si só, permanece um simples refrão de aclamação’. Os mártires de Abilene precisavam da Eucaristia todo domingo porque nela encontravam, pela fé, Cristo vivo e presente pela obra do Espírito Santo. Precisavam deste encontro pessoal com Cristo que toda semana os alimentava e os plasmava. É o Kerigma anunciado e testemunhado que nos faz encontrar Cristo vivo.

  Nesta altrura a ligação indissolúvel e contínua entre Eucaristia e Anúncio Kerigmático é evidente e indiscutível sobretudo por aquilo que diz a respeito da necessidade da Igreja de ser aquela que anuncia o Kerigma sempre e em todo lugar através de cada comunidade  local e na vida de cada cristão. Todos aqueles que participam da Eucaristia e não se transformam em missionários, como Jesus, é porque naquela celebração eucarística não se encontraram pessoalmente com Jesus presente e vivo. È este encontro pessoal com Jesus Cristo, fruto do anúncio kerigmático, que faz a diferença é que é tarefa urgente da Igreja, hoje mais do que nunca, porque a maioria dos católicos se sentem assim mas de fato não se encontraram pessoalmente com Jesus Cristo. O encontro com Cristo é fruto do anúncio Kerigmático, feito também do testemunho e da vivência da Palavra, ou seja da Eucaristia  juntamente com a vida cotidiana. A Palavra foi escrita para fazer conhecer o Cristo que se fez Eucaristia e ensinar a viver  como Ele viveu, isto é como traduzir a Eucaristia em vida cotidiana. Quem vive a Palavra anunciada de uma certa forma vai conhecer Jesus e vai ter um encontro  pessoal com Ele. ‘Quem não guarda a minha palavra esse não me ama porquê quem me ama guarda a minha palavra. Aquele que me ama será amado por meu Pai e nós viremos a ele e nele faremos nossa morada’. (João 14,21 ss)

Por que o Vaticano II quis colocar a proclamação do Kerigma que serve para ser anunciado a quem conhece a Jesus, no momento mais alto da celebração Eucarística, onde todos já conhecem Jesus? Não será para manifestar a identidade mais profunda da Igreja e de cada discípulo de Jesus que participa da Eucaristia? Não será para nos revelar a união indissolúvel entre Eucaristia e Anúncio. Para nos dar consciência da necessidade de ser anunciadores de Cristo, na busca  da vivência cotidiana da eucaristia? Quem não anuncia Jesus como poderia viver a Eucaristia que em si mesma é evento Kerigmático por excelência?

 Justamente João Paulo II nos lembrava: “Todas as vezes que comeis deste pão e bebeis deste cálice lembrais a morte do Senhor até que Ele venha. (1 Cor 11,26). Com estas palavras São Paulo recorda aos cristãos de Corinto que ‘a ceia do Senhor’ não é simplesmente um encontro de convívio, mas também e principalmente a memória viva do sacrifício redentor de Cristo. Quem participa – comenta o Apóstolo – une-se ao mistério da morte do Senhor, aliás faz-se anunciador da morte do Senhor. Há, portanto, uma forte união entre Celebrar a Eucaristia  e Anunciar Cristo. Entrar em comunhão com Jesus no memorial da Páscoa, significa ao mesmo tempo, tornarmo-nos missionários do evento que o rito atualiza;num certo sentido, significa tornar este evento presente em cada época até a vinda do Senhor. ‘Dai-lhes vós mesmos de comer’ (Lc 9,13). Este trecho do Evangelho de Lucas oferece uma imagem eficaz da unidade entre Eucaristia e a missão universal da Igreja no mundo. Cristo, ‘pão vivo descido do céu (João 6,51) é o único que pode saciar a fome dos homens de todos os tempos e de todos os lugares. Ele, entretanto, não quer fazer tudo sozinho; e assim, como na multiplicação dos pães, envolve os discípulos: ‘Então Jesus tomou os cinco pães e os dois peixes, levantou os olhos aos céus, abençoou-os, partiu-os  e deu-os a seus discípulos  para que os servissem ao povo’. (Lc 9,16) Este sinal milagre é figura do maior mistério de amor que se faz presente cada dia na Santa Missa: através dos ministros ordenados, Cristo entrega o seu Corpo e o seu Sangue para a vida de toda a humanidade. E todos aqueles que dignamente nutrem-se da sua Ceia tornam-se instrumentos vivos da presença d´Ele, presença de amor, de misericórdia e de paz para todos os irmãos”.

Deus sempre ama a todos e quer que todos sejam salvos. Deus sempre chama á comunhão e sempre também nos envia em Missão: “Como meu Pai me enviou, também eu vos envio...”. Como a dimensão nupcial (característica do amor de Deus) é sempre presente no coração da Eucaristia, assim também no coração da Eucaristia é sempre presente a dimensão Kerigmática que nos envia em Missão (o amor de Deus, é sim nupcial, mas é também ao mesmo tempo amor salvifico universal). Quem acredita sempre sabe permanecer presente no coração de Cristo que se fez Eucaristia pela salvação de todos nós. Assim no coração da Eucaristia é sempre presente a dimensão kerigmática que envia em Missão de forma que quem participa da Eucaristia, coração da comunhão  eclesial, torne-se um Kerigma vivo de Jesus.

 DIMENSÃO KERIGMÁTICA DA EUCARISTIA

 O kerigma é proclamado no sacramento da Eucaristia que celebramos. Isso é um acrescimo significativo do Vaticano II que quis inserir no momento central da Eucaristia, exatamente depois das palavras da instituição, a afirmação do presidente da celebração: ‘Eis o mistério da fé’; o povo responde a esta afirmação proclamando o Kerigma: ‘Anunciamos a tua morte Senhor, proclamamos a tua ressurreição, esperamos a tua vinda’. Desta vez o Kerigma é proclamado não tanto para os não cristãos a fim de que se convertam a Jesus Cristo: os não cristãos não estão na Igreja, não podem participar de algo em que não acreditam. Podem participar da eucaristia só aqueles que já são cristãos. O Kerigma aqui é proclamado para eles a fim de que: “tomem cada vez mais consciência da identidade deles, de  ser anunciadores de Cristo a todos e também tomem consciência da finalidade da Eucaristia que quer gerar uma Igreja Kerigmática.

A nossa identidade e a identidade da Igreja que nasce da Eucaristia é de ser um Kerigma vivo de Jesus Cristo. De fato afrimamos neste momento central da Eucaristia que nós somos aquilo que anunciamos com a nossa vida, a morte e a ressurreião de Jesus Cristo, único Salvador a humanidade. A Igreja existe para esta finalidade (EN 2). Com efeito nós cristãos somos aqueles que anunciamos Jesus Cristo até o ponto de dar a nossa vida. A tarefa principal da Igreja é anunciar Jesus Cristo. De fato afirmamos, proclamando o Kerigma durante a Eucaristia que nós somos aqueles que testemunham com a própria vida que Jesus Cristo é morto e ressuscitado para salvar todos os homens e é Ele o Salvador e o Senhor que esperamos. A Igreja existe para isso, para evangelizar, lembram-nos a Evangeli Nunziandi e il Documento de Aparecida. Tudo isso é a finalidade da Eucaristia e da Liturgia.

A Sacrosantum Concilium ao n:2 afirma neste sentido: “Por isso  liturgia edifica cada dia, nos templos santos do Senhor, os sacrários de Deus no Espírito Santo, aqueles que estão ao seu redor até a idade da maturidade em Cristo para fortalecer-lhes as forças a fim de que possam anunciar Jesus Cristo”.

É necessário, portanto, redescobrir a unidade intrínseca que existe entre a Eucaristia e o Kerigma e fazer com que o Kerigma seja vivo na comunidade eclesial que nasce a partir da Eucaristia. Por isso é bom não esquecer que a Igreja é o Corpo de Cristo hoje e o Corpo de Cristo hoje existe para evangelizar (EN 2). Em todos os seus momentos é sempre um corpo Kerigmático, na essência e na identidade porque além de ser um corpo que sempre chamado às núpcias com o esposo, que é Cristo Eucarístico e ser com Ele um só corpo, é também um corpo vivo sempre enviado, por Ele, a todos os povos.

Jesus Cristo sempre envia aqueles que Ele chama á sua mesa. A Eucaristia é o centro e o coração da vida da Igreja e todos nós somos chamados a nos deixar transformar por este sacramento. Como em todo coração, centro do ser humano, há dois movimentos: um que fecha um que abre, Istoé um de sístole e outro de dastole . Assim a Eucaristia possui estes dois movimentos dos quais participam as comunidades cristãs que celebram a Eucaristia e cada batizado que participa da Eucaristia. A Igreja é chamada a organizar-se para viver em profundidade estes dois movimentos que fazem parte do mistério da Eucaristia.

 O movimento de sstole é muito mais do que comunhão  porque aspira às núpcias entre Cristo e a Esposa que é a Igreja. ‘Ser em Cristo um só corpo e um só espírito’. (anáfora III). O movimento de diastole é muito mais do que fazer atividades missionárias porque aspira a plasmar as comunidades e as pessoas que celebram a Eucaristia de maneira que as pessoas que participam da Eucaristia tornam-se pessoas Kerigmáticas na identidade delas, ou seja anunciadores da vida, da paixão, da morte e ressurreição de Jesus. É evidente que a Igreja, cujo coração é a Eucaristia, precisa alimentar sempre e unidos estes dois movimentos de unir e abrir, especialmente através do sacramento da Eucaristia. Do contrário, a vida da Igreja pode ter problema sérios no coração.

   O coração da Eucaristia é o Amor nupcial de Deus para com a humanidade que na Eucaristia revela-se como vontade de salvação universal e revela-se fonte inesaurivel de Missão. A Eucaristia é o segredo que explica a Missão, é a origem dela e o manancial dela. O mistério da Eucaristia é o amor nupcial de Deus que nela revela-se como vontade de salvação universal, revela-se como salvação de todos que nos impulsiona a levar a todos os povos o convite para partiparem do banquete de Deus. Conclusão óbvia é que antes de tudo há a  Eucaristia, mas também que não existe Eucaristia sem Missão. Quem, depos da Eucaristia, não se sente enviado é porque nela não encontrou Jesus Cristo. Não só isso; mas também a recíproca é verdadeira: não há Missão sem Eucaristia porque a Eucaristia está antes de tudo. A Missão verdadeira é eucarística no metodo, no conteúdo e também na origem dela. Sem a Eucaristia não surge a Missão verdadeira, aquela que Cristo quer. O Missionário sai porque comeu o pão da Eucaristia. Como o amor ao próximo é a prova que o amor a Deus é sincero, assim o compromisso com a Missão é a prova que a Eucaristia tem sido acolhida de forma autêntica. Se o povo de Deus hoje não é missionário entusiasta e inarrestavel de Jesus Cristo, como Dom Guido Maria Conforti, Comboni, Alemanno, Ramazzotti e La Manna etc.. não é porque não entendeu a Missão, mas sim porque não entendeu a Eucaristia.

  Borrotti P. Domenico - Missionario Saveriano -  San Paolo, Brasile, 5 settembre 2011

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