Os jovens, a fé e o discernimento vocacional

Marcelo Ávila, missionário na África

Entre os dias 3 e 28 de outubro de 2018 acontecerá em Roma o Sínodo dos Bispos que refletirá sobre a juventude com o seguinte tema: os jovens, a fé e o discernimento vocacional. O Sínodo dos bispos é um encontro que reúne representantes do episcopado do mundo inteiro cuja finalidade principal é refletir sobre um tema específico buscando caminhos de luzes para a caminhada da Igreja. É o Papa quem preside o Sínodo dos Bispos e dá a aprovação ao texto final.

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Atualmente, quando olhamos o contexto onde o jovem cria suas relações e expressa seu jeito de ser, podemos perceber duas grandes realidades que são fundamentais para compreender a juventude e suas inquietações. Essas duas realidades são: o contexto político-social e a busca pelo sagrado ou pelo transcendente.

Para compreender melhor o contexto político-social, basta olharmos para os grandes problemas mundiais que nos colocam em estado de alerta e em uma situação de vulnerabilidade total: terrorismo, violência, corrupção, guerras isoladas, sistema educacional falido, má distribuição de renda, fechamento das fronteiras aos imigrantes e a ameaça de uma terceira guerra mundial motivada pela crise política entre os Estados Unidos e a Coréia do Norte.

Podemos dizer que o jovem cria suas relações em um mundo em ebulição, isso sem mencionar outros problemas sociais e o advento dos meios de comunicação que reduziram as distâncias e abriram as fronteiras do mundo virtual. Esse mundo em ebulição tem uma capacidade de transformação profunda podendo influenciar os jovens na construção de duas identidades diferentes. De um lado um jovem pessimista e alienado, de outro lado um jovem consciente e comprometido com a construção de um mundo melhor tendo sempre um olhar otimista e cheio de esperança.

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Diante dessas duas identidades, a Igreja é chamada a fazer opção pelo jovem consciente e comprometido e a ajudar os que vivem alienados a redescobrirem a sacralidade da vida e a importância de construir uma sociedade baseada nos valores e princípios do Evangelho. Mais do que nunca, a Igreja deve ser um sinal profético onde o testemunho de Jesus Cristo possa suscitar no coração da juventude o desejo de paz e de fraternidade que é bem maior que toda forma de egoísmo e individualismo contrários ao projeto de Deus.

Se o contexto político-social é construído no coração de um mundo em ebulição, a busca pelo sagrado ou pelo transcendente também cruza esse mesmo caminho. O jovem de hoje se encontra no cetro de um universo caracterizado por dúvidas, questionamentos e inquietações profundas sobre si mesmo e sobre o mundo que o cerca. O jovem busca respostas que estão além das experiências construídas no âmbito social e por isso podemos dizer que a busca pelo sagrado continua sendo uma janela aberta no horizonte de opções que cercam a juventude.

Nós sabemos que o problema da secularização e a afirmação dos estados ditos laicos aceleraram o processo de criação de uma sociedade cujos valores da religião e do sagrado deixaram se ser o centro para ocuparem lugares secundários e particulares. Esse fenômeno, visível sobretudo nas sociedades europeias, nos questiona fortemente sobre o futuro da juventude, porém, questionamentos profundos sobre fé e vocação continuam levando muitos jovens a uma reorientação de vida onde Deus, a religião e o sentido da vida continuam presentes.

Olhando agora para o contexto dos Camarões, país que vivo a mais de dois anos, posso dizer que vejo uma juventude sonhadora e com muita esperança em relação ao futuro, mesmo quando esse sonho parece se ofuscar em meio às grandes contradições e desafios que são uma realidade na vida do jovem africano. Acredito que são nesses momentos que a juventude deve mostrar a sua força e todo potencial que é capar de unir e construir. Em tempos de crise, existe sempre uma força transformadora que habita o coração das pessoas e é essa força (esperança) que motiva o sonho e a possibilidade de construir a tão sonhada civilização do amor.

É nesse contexto que a Igreja faz uma opção profética pela juventude acreditando que o jovem continua sendo o presente e o futuro da Igreja em caminhada. Os desafios e os sonhos dos jovens são basicamente os mesmos, porém, a grande missão que nos interpela é como ser uma Igreja jovem no meio dos jovens, conciliando Tradição com o protagonismo dinâmico que caracteriza a juventude.

Esperamos que o Sínodo dos Bispos favoreça a construção de um diálogo aberto, profético e proporcione um verdadeiro tempo de graça e de esperança para a Igreja.

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