O pão do mundo  
 


“E o colocou numa manjedoura” (Lc 2,7). Em poucas linhas, o Evangelho de Lucas repete três vezes a palavra “manjedoura” na narração do nascimento de Jesus. Tal insistência tem um significado especial. Parece que o evangelista quer retratar Maria como uma mãe que enche o tabuleiro de comida. Com efeito, a manjedoura é o lugar onde se coloca o alimento dos animais. Maria coloca seu filho numa manjedoura apresentando-o, desde suas primeiras horas de vida, como a comida do mundo: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem come deste pão viverá para sempre. E o pão que eu vou dar é a minha própria carne, para que o mundo tenha a vida” (Jo 6,51).

Na manjedoura do presépio está, então, o pão da vida. O contexto é eucarístico: “tomai e comei, isto é o meu corpo”, parece rezar em voz baixa Maria. Em sua chegada em Belém, depois de longa caminhada desde a Galiléia, não encontrou nenhum abrigo. “Belém” quer dizer, coincidentemente, “casa do pão”. Mas não tinha mais pão e nem casa para os forasteiros. Então não restava que se hospedar na casa dos pobres, partilhando do próprio pão com os pastores que iam atrás do anúncio de um anjo, e com os magos que iam atrás de uma estrela. “A Igreja – diz o Documento de Aparecida – é capaz de despertar esperança em meio às situações mais difíceis, porque, se não há esperança para os pobres, não haverá para ninguém” (DA 395).

A celebração do Natal vem nos lembrar do dom de Deus à humanidade. Ele próprio se torna dom. Na “casa do pão”, ele próprio se torna pão. Esse é o cumprimento das promessas anunciadas pelos Profetas: Deus reinará. Deus veio, mas na forma de dom. Por isso não foi reconhecido, porque não se manifestou segundo a lógica humana da glória, do poder e do domínio. Deus se manifestou em Jesus, próximo e servidor da humanidade, que indica no dom de si, da própria vida, o caminho da salvação para todas as pessoas: “quem come deste pão viverá para sempre” (Jo 6,58).

Muitos de seus discípulos acharam isso um absurdo e abandonaram o caminho. Quem ainda teimou em seguir Jesus até o fim, também não conseguiu entender muita coisa dele. “Nós esperávamos que fosse ele o libertador de Israel” lamentaram os discípulos de Emaús (Lc 24,21). O Messias esperado era outro. Israel aguardava a vinda do Filho de Davi, um Messias libertador como Davi: poderoso, triunfador e ... sanguinário (cf 1Cr 22,8). No entanto, apareceu um Filho do homem para realizar, com sua humanidade, sua compaixão e contra todo poder e domínio, as promessas de Deus.

Quem, desde o começo, acolheu essa Boa Nova tão extraordinária e transgressora, foi a Maria, Mãe de Jesus, filha do seu Filho. O Evangelho de Lucas a descreve com traços muito sóbrios como a perfeita discípula missionária (cf. DA 364). Ela se define apenas como “serva”, “empregada do Senhor”. A sua é uma vida doada no serviço humilde. Ela se entregou inteiramente à doação, até coincidir rigorosamente com o Dom recebido por Deus. Maria aponta para a referência maior de seu Filho que lava os pés e que recomenda: “vocês devem fazer a mesma coisa que eu fiz” (Jo 13,15). Ou, em outras palavras: “fazei isto em memória de mim”. Essa é a eucaristia plena: acolher o Dom, tornar-se um dom: “a vida se alcança e amadurece à medida que é entregue para dar vida aos outros. Isso é, definitivamente, a missão” (DA 360).

de Estêvão Raschietti