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Ir. Elsa Brogeato, xaveriana de Lupionópolis, PR, viveu 13 anos no Chade, junto às mulheres da etnia musey-banananá: “Elas me ensinaram, que, atrás da aparência de submissas, existem mulheres fortes que sabem viver a verdadeira liberdade”
Em 1989, recebi um presente de Deus: fui enviada como missionária ao Chade para trabalhar na área da promoção da mulher.
O Chade é um país da África Central, com uma população estimada em 8 milhões de habitantes, sendo 5,7% nômades. 50% têm menos de 15 anos. Existe uma grande variedade de etnias e de línguas. Em 1968, foram recenseadas 125 línguas, organizadas em 12 grandes grupos, oriundos de três grandes famílias lingüísticas.
Eu trabalhei com as mulheres da etnia musey, da região sudeste do Chade. “Musey” é a denominação dada pelos brancos a essa etnia; “banananá” é a maneira como o povo musey se denomina. O termo vem de “bananá”, que significa “amizade”, “aliança”.
A mulher musey-banananá é uma figura central dentro da estrutura familiar e da sociedade. Ela é responsável por grande parte das atividades nos campos, todos os trabalhos domésticos, a educação e a manutenção dos filhos. Nas reuniões públicas, ela pode participar, permanecendo de lado, com o direito de falar somente no final da reunião, depois que os homens já se expressaram, inclusive os mais jovens.
Quando o marido tem só uma esposa, ela se sente orgulhosa, pois ele pode se dedicar a ela e aos filhos. No caso de ser uma entre outras mulheres, num casamento polígamo, pode se sentir não tão bem. Nesse caso, a educação e a manutenção dos filhos será de exclusiva responsabilidade dela. O chefe de família tem a incumbência de prover a farinha de sorgo, que serve como comida básica. Todo o resto é de responsabilidade de cada esposa. Naturalmente, embora de maneira diferente de nossa sociedade, existem ciúmes, competições, fofocas entre as esposas. Muitas vezes, elas vivem situações bem desconfortáveis.
As jovens, as poucas que têm a chance de estudar, começam a tomar consciência de que alguma coisa deveria mudar. No entanto, as tradições milenares não estão sujeitas a mudanças rápidas. Nessa região do Chade, assim como em tantas outras, não existe energia elétrica e a ausência de meios de comunicação não oferece estímulos para as mudanças. A tendência é a conservação e a manutenção das tradições culturais em todos os campos.
A mulher musey-banananá parece frágil, submissa e sem papel na sua sociedade. No entanto, uma observação mais atenta demonstra que isso não é verdadeiro: ela é forte fisicamente e possui uma grande energia psicológica; conhece sua sociedade e o papel que lhe é atribuído pela sua cultura, percebendo que existe uma qualidade que lhe é cobrada: a submissão. No seu jeito de ser, ela sabe como viver essa realidade sem que isso lhe faça perder a identidade. É sempre corajosa e portadora de vida; consegue ser feliz pelos filhos que tem; não é possessiva e, desde que seus filhos alcançam a idade da emancipação, ela os respeita, não interfere e permite que tomem os caminhos que quiserem.
Na vida cotidiana, a mulher musey-banananá sabe como lidar com as diferentes situações, tirando proveito para sua família.
Queria fazer um agradecimento especial às mulheres da etnia musey-banananá pelo que elas me ensinaram ao longo dos treze anos que fiquei com elas, sobretudo, a não ter um olhar de pena por elas, mas um olhar de respeito. Elas me ensinaram que, atrás da aparência de frágeis e submissas, existem mulheres fortes e que sabem conviver com as situações em que se encontram. E muito mais que isso: sabem “dar a volta por cima” e tirar proveito; sabem encontrar seu espaço de liberdade e viver a verdadeira liberdade. Elas conseguem ser “imagem e semelhança de Deus”, a despeito de tudo e de todos os limites de sua sociedade.
Que nossa Mãe Maria, que viveu tantas situações de submissão, de incompreensão e injustiça, e que soube tão corajosamente lidar com diferentes aspectos culturais do seu tempo, continue ajudando e abençoando todas as mulheres africanas.
Elsa Brogeato
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