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O Pe. Chicão se foi no último 14 de novembro. Viveu e trabalhou no Brasil por mais de 50 anos. Deixou saudades de uma vida inteiramente dedicada a Deus e aos pobres até as últimas conseqüências
Padre Francisco Sozzi, italiano de origem, chega ao Brasil em 1954 com 27 anos de idade. Aqui vive o resto de sua vida. Logo ao chegar é “batizado” pelo povo com o apelido de Pe. Chicão, pelo tamanho de sua estatura. Esse apelido ficará para sempre como seu cartão de visita.
Pe. Chicão nasce em Bratto di Castiglione Presolana, hoje uma bela estância turística dos Alpes italianos, em 7 de fevereiro de 1927. A sua caminhada xaveriana começa aos 18 anos, em 1946, na cidadezinha de Pedrengo com a turma bem mais nova dos adolescentes do ensino médio. Pela diferença de idade e por causa da recuperação escolar, passa à cidade de Grumone onde se prepara a cursar o colegial, que conclui em 1949 com seu pedido de admissão ao Noviciado. Sua primeira Profissão dos votos religiosos acontece no Ano Santo de 1950. Em seguida, vai à cidade de Désio para continuar os estudos. Para os xaverianos nasce naquele ano a proposta de uma nova missão no Brasil. Depois do envio dos primeiros padres, os superiores escolhem dois estudantes com uma certa maturidade, para iniciar uma leva de jovens xaverianos na Terra de Santa Cruz.
Ao chegar no Brasil, Chicão é ainda seminarista. Junto com Leão Occhio, termina os quatro anos de teologia que faltam para ser ordenado presbítero no seminário dos missionários do Verbo Divino em São Paulo.
Em 26 de janeiro de 1958 é ordenado padre em Curitiba, pelas mãos do arcebispo Dom Manoel da Silveira D’Elboux.
Começa sua atividade missionária trabalhando nas paróquias e nos seminários de Jaguapitá e Londrina, segundo a necessidade do momento. Seu temperamento jovial e às vezes maroto, manifestado desde a juventude com brincadeiras envolventes que mantinham alegre a turma, o ajudará no seu serviço pastoral para cativar a estima e a amizade dos seminaristas e do povo simples, assim como das pessoas mais abastecidas, às quais se dirige para pedir colaborações para o seminário.
Esse espírito será a tônica constante de sua atividade missionária, a serviço do povo brasileiro e da comunidade xaveriana que sempre amou, muito feliz de ser missionário e de ser xaveriano. Um dia escreve ao Pe. Giovanni Gazza, ex superior geral: “Se eu me tornei padre, é porque o senhor me compreendeu e me ajudou. Quantas consolações Deus me concedeu no meu serviço pastoral. Em todo lugar que eu passei, o povo sempre me quis bem, a igreja sempre estava cheia”.
Ao longo de sua missão aqui no Brasil, Pe. Chicão passa por várias comunidades paroquiais do Estado do Paraná: Jaguapitá, Londrina, Curitiba, Laranjeiras do Sul, Veré, Warta. Seu coração, porém, não deixará nunca Nova Laranjeiras, no sul-oeste do Paraná, diocese de Guarapuava, onde voltará mais vezes como pastor. Ali tem a possibilidade de dedicar-se à pastoral indigenista, com o povo Guarani daquela região.
Ele é um pioneiro dessa ação missionária no Paraná, um precursor da atividade do Conselho Indigenista Missionário, organismo vinculado à CNBB para a pastoral indigenista. Pe. Chicão faz uma obra de conscientização dos índios, subempregados em fazendas agrícolas, convida-os a se organizarem e a reclamar pelos seus direitos e, sobretudo, pela posse da terra. O missionário, por causa dessa ação destemida, é preso varias vezes e espancado por policiais e capatazes. Seu envolvimento com os indígenas é tão dedicado que acaba ganhando uma profunda estima e confiança por parte deles.
Um dia fui visitar com Pe. Chicão uma aldeia Guarani em Nova Laranjeiras e os índios vieram ao meu encontro dizendo: “Estamos dispostos a andar no paraíso: não o dos brancos mas o do Pe. Chicão”. Lá eles querem estar próximos daquele padre que os amou, os ajudou e os defendeu até as últimas conseqüências
Não faltam momentos difíceis em sua longa jornada missionária: a dúvida, por exemplo, de não estar à altura de sua vocação. A esse respeito, escreve ao superior: “Ao pensar na minha responsabilidade sacerdotal diante de Deus, tremo de medo. Tenho medo de poupar-me, de não dar tudo o que deveria dar”. E então seu refúgio e sua força é a Santa Missa: “O momento mais belo de todo meu dia”, afirma ele. Com a confiança em Deus e a sensação da presença materna de Nossa Senhora, escreve numa outra circunstância: “É Nossa Senhora que faz tudo”.
Sua fibra granítica como as rochas dos Alpes do norte da Itália, começa a se desfazer. O regresso na Itália se faz inevitável. Inicia a última trilha de sua missão, a mais sofrida, a da doença: o coração, a diabete, o íctus cerebral e por último o câncer no pulmão. Morre no dia 14 de novembro, no hospital de Parma. O enterro, com missa de corpo presente, acontece em Bratto, sua cidadezinha natal, aos pés do monte Presolana. Lá ele descansa em paz, como num sereno retorno às suas origens depois da missão cumprida. “Confio em Deus. Nossa Senhora me ajudará também nessa caminhada”. Com ela, Pe. Chicão termina sua longa aventura missionária chegando quase à idade de 80 anos.
de Láu Pirola
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