Estremecer de Alegria!

Ir. Téa Frigério mmx

Isabel proclama Maria “bem-aventurada” usando o verbo “crer” e não o termo “fé”. Não diz “bem-aventurada tu que tiveste fé”, mas “Bem-aventurada tu que acreditaste” (Lc 1, 45). A comunidade de Lucas aqui tem o colorido da comunidade do discípulo/a amado/a que no seu Evangelho não usa o vocábulo “fé” e sim o verbo “crer”. “Fé” é um vocábulo que tem um timbre mais definido, como doutrina, dogma, regras, estruturas: algo que se refere a uma adesão intelectual. “Crer” é um verbo que nos fala de um processo, de um caminho, de estar sempre em busca, em diálogo. Por ser um verbo, indica um agir, um crescimento, uma maturação, uma abertura, uma entregara.

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Com esses sentimentos de mulher, vamos ao encontro de Isabel e Maria. O acreditar é vivido por essas duas mulheres que percebem a mudança em seu corpo por causa de uma gravidez fora de tempo, fora de lugar. Essa transformação as interroga: por que o meu corpo e não o corpo de outra mulher? Por que o meu corpo velho, de um tempo que já passou? Por que meu corpo jovem de um tempo ainda prematuro?

O corpo da anciã Isabel se fecha em casa: maravilha, incerteza, dúvidas, alegria… O corpo da jovem Maria sai de Nazaré. Antes que as mudanças em seu corpo se tornassem evidentes, coloca-se a caminho, vai ao encontro da anciã Isabel, que era estéril, e já estava no sexto mês de gravidez. Nela, orgulho e pudor se mesclam. Alegria profunda e atenta à vida que cresce nela. A vida exige mudança de hábitos, na alimentação, no vestir, no dormir. Aquela vida em formação é parte dela, mas já autônoma e com as suas exigências.

Na casa de Zacarias, as duas mulheres: Isabel e Maria encontram-se. A casa era de Zacarias como o costume patriarcal exigia, mas agora, nessa casa, as protagonistas são Isabel e Maria. Elas ocupam o espaço masculino e o tornam feminino: espaço seguro, onde não há perguntas indiscretas, recriminações, preconceito, julgamento, dúvida, não tem “mas”, nem “se”, nem “vamos ver…” não tem “vou consultar meu marido”. Tem somente acolhida.

A anciã acolhe a jovem. A jovem se espelha na anciã. Dois corpos de mulher que se reconhecem e que vivem o espaço da casa não mais como espaço patriarcal, mas como lugar feminino, onde mora a confiança, a intimidade, a verdade, aquela verdade que nem sempre é a verdade que se vê.

Sair para ir a outra casa e torná-la lugar de partilha das mudanças acontecendo em seus corpos. Lugar onde o medo pode ser revelado assim como as dúvidas, o temor, a incerteza do futuro. Lugar da amorosidade, sonho, utopia. Lugar da sabedoria da anciã e da coragem juvenil. Lugar onde a sabedoria se torna coragem, e a coragem, sabedoria. Mudanças nos corpos que falam de mudanças na vida.

No ventre, feito berço, os filhos pulam de alegria. Alegria que vai ser escrita em seus corpos masculinos e os guiará em seus caminhos: caminhos que levarão João à beira do rio Jordão para anunciar que o Cordeiro de Deus está para chegar, voz que abre veredas no deserto e confirmando a missão do Filho amado; caminhos que de Nazaré, do Jordão, levarão Jesus à beira mar, na sinagoga, nas estradas da Galileia e da Judeia, ensaiando e propondo o novo jeito de se relacionar entre as pessoas e com Deus que é Pai.

Por isso, pulam de alegria no ventre das mães. No corpo das mães, o Reino já está presente. Escutamos na voz de Isabel, a voz da comunidade de Lucas: “Bem aventurada tu que acreditaste!”. Acreditou Maria, acreditou Isabel. O corpo de Maria tornou-se moradia do Invisível e do Amor. No mistério da acolhida o crer assumiu um corpo, tornou-se agir. O ventre de Maria se fez céu e nela o divino se faz humano, e o humano se fez divino.

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